Série: Novo Testamento • Estudo Bíblico

Romanos 12.9-21: Padrões de Vida para uma Mente Renovada

"Amem uns aos outros com amor fraternal. Quanto à honra, deem sempre preferência aos outros. Romanos 12:10"

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Em Romanos 12.9-21, Paulo descreve como o amor se comporta quando não está fingindo, dentro da igreja e diante de quem a persegue. A carta foi escrita de Corinto, por volta de 57 d.C., e o dado histórico que mais ilumina este trecho é o que havia acontecido em Roma poucos anos antes. Em 49 d.C., o imperador Cláudio expulsou os judeus da cidade; o historiador romano Suetônio registra o episódio, e Lucas o confirma em Atos 18.2, ao apresentar Áquila e Priscila, que chegaram a Corinto por causa dessa expulsão. Durante alguns anos, as congregações cristãs da capital foram quase só de gentios.

Com a morte de Cláudio, em 54 d.C., os judeus voltaram, e voltaram para igrejas que já não eram as que haviam deixado. Paulo escreve, portanto, a uma comunidade dividida por dentro, entre os que ficaram e os que voltaram, e ameaçada por fora por qualquer nova decisão imperial. Quando ele diz “abençoem aqueles que perseguem vocês”, não cria uma hipótese de sala de aula: fala a gente que já foi expulsa de casa uma vez e sabia que podia ser expulsa de novo.

O trecho depende do “portanto” de 12.1. Depois de onze capítulos sobre a obra de Cristo, Paulo passa a descrever a vida que a justificação produz: primeiro a entrega do corpo e a renovação da mente (vv. 1-2), depois os dons no corpo de Cristo (vv. 3-8) e agora o amor que dá caráter ao uso desses dons. A primeira frase do versículo 9 não tem verbo no original: “o amor sem hipocrisia”. Ela funciona como título, e tudo o que vem depois responde a uma única pergunta: com que se parece o amor quando é genuíno?

Para responder, Paulo recolhe a sabedoria de Israel, sobretudo de Provérbios, e o ensino de Jesus no Sermão do Monte, de que há ecos em quase todos os versículos. O resultado não é um código de boa convivência que se possa destacar do evangelho. É a descrição do que acontece quando o Espírito de Cristo passa a morar numa pessoa comum.

1. O amor sem máscara (Versículos 9 a 10)

Romanos 12:9-10
“O amor seja sem hipocrisia. Odeiem o mal e apeguem-se ao bem. Amem uns aos outros com amor fraternal. Quanto à honra, deem sempre preferência aos outros.”

Contexto Histórico e Cultural

A palavra traduzida por “sem hipocrisia” (anypokritos) vem do teatro. No grego clássico, hypokritēs era simplesmente o ator, o homem que fala por trás de uma máscara, e o termo podia até ser elogioso, como o de alguém que representa bem qualquer papel. Foram os judeus que o usaram quase sempre no sentido negativo, porque a mentalidade hebraica não separava motivação de conduta: ser hipócrita era mentir pelo comportamento em vez de mentir pela fala. O exemplo bíblico é o beijo de Judas, o gesto de afeto usado como instrumento de entrega. Charles Swindoll observa que a hipocrisia não diminui o amor; ela o converte em outra coisa, em manipulação, competição ou troca de favores.

Logo depois de mandar amar, Paulo manda odiar, e escolhe palavras fortes. O verbo “odeiem” (apostygeō) só aparece aqui em todo o Novo Testamento, e “mal” é ponēros, o termo mais pesado da língua para o que é perverso, e não o habitual kakos. A intensidade é deliberada, e desfaz uma ideia comum.

O amor bíblico não é o sentimento cego que a tradição popular diz que ele é; ele discerne, e por isso odeia tudo o que destrói a pessoa amada. O próprio Cristo elogia a igreja de Éfeso por odiar as obras de um grupo herético, os nicolaítas, e acrescenta: “as quais eu também odeio” (Apocalipse 2.6). Note-se que o ódio é às obras, não às pessoas.

“Apeguem-se” (kollaō) é o verbo que a tradução grega do Antigo Testamento usa em Gênesis 2.24 para o homem que se une à mulher, e cinco comentaristas de tradições diferentes notam isso sem se citarem. O mandamento, portanto, não é preferir o bem; é casar-se com ele. O versículo 10 reúne duas palavras de família: philostorgos, a afeição natural de pais por filhos, cuja raiz remete à cegonha cuidando dos filhotes, e philadelphia, o amor entre irmãos.

Paulo transfere para a família de Deus um vocabulário que era de laços de sangue. Quanto à honra, o verbo (proēgeomai) significa “ir à frente, abrir caminho”. Zane Hodges vê nisso a imagem de uma cerimônia de premiação, em que o apresentador conduz o homenageado até a frente da assembleia: o cristão deve ser apresentador de honra, não candidato a ela.

Aplicação Para Hoje

O primeiro teste que o versículo 9 propõe é o do motivo. Estou sendo gentil com esta pessoa para conseguir algo dela? Se sim, não é amor, é manipulação com máscara de amor. O amor genuíno não tem agenda escondida, porque não se apoia em quem o outro é, nem em como estou me sentindo hoje, e sim no caráter de Deus, que não muda.

Swindoll conta que ouviu do seu professor Charles Ryrie, em sala de aula no seminário de Dallas, uma imagem que resume o versículo: o amor é como um rio contido por duas margens, a verdade e o discernimento. Quando uma das margens se rompe, o rio não fica maior; ele transborda e destrói. Amar sem discernir o que é mau não é amor mais generoso; é enchente.

O segundo teste é mais incômodo, e vem de Andy Woods: você pode definir o que ama pelo que odeia. Quem ama o casamento odeia o que o destrói; quem ama a sua comunhão com Deus odeia o que a atrapalha. Vale fazer o exercício: liste três coisas que você odeia de verdade.

Se a lista for de pessoas, grupos ou partidos, o versículo 9 está sendo violado, porque a Bíblia não dá permissão para odiar gente. Se for de coisas que destroem casamentos, corrompem crianças e afastam de Deus, ela é o retrato invertido do que você ama. E se a lista estiver vazia, o problema é outro: falta a margem do discernimento.

O versículo 10 não vem qualificado. Robert Dean observa que o texto não diz para amar os irmãos “de longe”, e que ele não encontrou essa ressalva em nenhuma variante de manuscrito. Em toda congregação há gente difícil de amar, e para esses dias ele propõe um método deliberadamente antissentimental: decidir antes de sentir. “Eu não gosto desta pessoa, mas Deus a ama com um amor imutável, e vou tratá-la segundo o padrão dele.” Harry Ironside cita a este respeito um velho pastor escocês que dizia à sua igreja: se vocês não são muito bondosos, não são muito espirituais.

Quantas vezes um zelo pela verdade ou pela posição na igreja seca a bondade simples. E há uma aplicação pública, que sai da imagem de Hodges: escolha alguém que merece reconhecimento e diga isso em voz alta diante de outros esta semana. Não basta não disputar a honra; é preciso levar o irmão até ela.

2. Fervor, esperança e hospitalidade (Versículos 11 a 13)

Romanos 12:11-13
“Quanto ao zelo, não sejam preguiçosos. Sejam fervorosos de espírito, servindo o Senhor. Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação e perseverem na oração. Ajudem a suprir as necessidades dos santos. Pratiquem a hospitalidade.”

Contexto Histórico e Cultural

“Fervorosos” traduz o verbo ferver (zeō). John Stott precisa a imagem: não é a de uma lâmpada acesa, mas a de uma panela borbulhando. O fervor é “de espírito”, e o modo como Paulo usa essa expressão em outras cartas aponta para o Espírito Santo: é uma paixão que vem de andar pelo Espírito, e não uma excitação que se fabrica.

A oração seguinte, “servindo o Senhor”, funciona como freio: zelo sem senhor é fanatismo. Numa igreja em que talvez um terço dos membros fosse escravo, a frase tinha peso concreto. Paulo sempre ensinou o escravo cristão a não prestar o seu serviço como se o dono humano fosse o verdadeiro senhor (Colossenses 3.22-23), e o ouvinte escravo de Roma entenderia: a diligência dele era expressão da relação com o Mestre exaltado.

O versículo 12 traz uma progressão deliberada: a esperança sustenta a paciência na tribulação, e a paciência se sustenta pela oração. Esperança, no sentido bíblico, não é desejo nem otimismo de temperamento; é expectativa confiante de algo futuro que Deus garantiu. “Pacientes” (hypomenō) significa literalmente “permanecer debaixo”: ficar dentro da circunstância, sem fugir dela. E “tribulação” não é um aborrecimento menor; é angústia séria. No versículo 13, “ajudem a suprir” usa o termo técnico do socorro material entre cristãos (koinōneō), o mesmo da coleta que Paulo estava levando para os pobres de Jerusalém quando escreveu esta carta (15.26).

E “hospitalidade” é philoxenia, literalmente amor ao estrangeiro, a mesma raiz de “xenofobia” com sinal trocado. Isso era vital numa época em que as hospedarias do Império eram poucas e de má fama, e os cristãos que viajavam dependiam da casa dos irmãos. O verbo traduzido por “pratiquem” é diōkō, que significa perseguir, e é exatamente a palavra que aparece no versículo seguinte para os que “perseguem vocês”. Cinco comentaristas independentes notam o jogo: não é receber quem aparece; é caçar quem precisa. João Crisóstomo já dizia que Paulo não manda prover hospitalidade, mas persegui-la: não sentar e ver se alguém vem em necessidade, e sim correr até ele.

Aplicação Para Hoje

Woods define diligência de um modo verificável: diligência é consistência. Sirvo ao Senhor quando estou com vontade e quando preferia ficar na cama, quando é popular e quando não é. Ele admite do púlpito que há domingos em que preferia não subir ali, e diz que isso é irrelevante para a consistência com que o serviço deve ser feito.

E a fonte do fervor não é a força de vontade. Quem assume obrigações no ministério contando com o próprio poder acaba frustrado e esgotado; é só questão de tempo. O mesmo Espírito que ressuscitou Jesus habita no crente (Romanos 8.11), e é dele que vem a energia.

Woods faz também uma distinção que ajuda a entender o versículo 12: alegria não é felicidade. Felicidade, diz ele, depende das circunstâncias; quando elas desmoronam, ela vai junto. Alegria depende do futuro que Deus garantiu, e por isso Paulo pôde escrever da prisão a carta aos Filipenses, que fala de alegria do começo ao fim. Já a tribulação não é exceção, é promessa: “no mundo vocês terão aflições” (João 16.33). O mandamento é permanecer debaixo dela, porque, como observa Dean, o maior crescimento da vida cristã costuma acontecer quando a pressão não dá trégua.

Quanto à oração, o exemplo que Woods usa é Daniel. O decreto que proibia orar a qualquer deus já estava assinado e, pela lei dos medos e persas, não podia ser revogado. Daniel soube disso, entrou em casa e orou três vezes ao dia, dando graças, “como costumava fazer antes” (Daniel 6.10). A oração que sustenta a crise é a que já era hábito antes dela.

Suprir necessidades não é só dinheiro. Dean dá uma lista deliberadamente doméstica: a mãe jovem que não sabe o que fazer com a criança, o irmão que não acha quem cuide dos filhos, o colega em crise no trabalho. Woods resume a teologia disso numa frase: Deus muitas vezes não dá para nós, dá através de nós, e quer usar-nos como canal para alguém que precisa. E a hospitalidade precisa ser perseguida, porque, como diagnostica Woods, a igreja corre o risco de virar um auditório de palestras: gente que ouve o sermão, vai embora e volta na semana seguinte para ouvir outro, sem nunca ter comunhão.

O remédio é doméstico. Identifique alguém da congregação com quem você nunca conversou, de preferência de faixa de renda ou origem diferente da sua, e faça um convite com dia e hora, e não um vago “apareça lá em casa”. David Pawson dá a régua: a escritura pode estar no seu nome, mas, se você é cristão, a casa é de Cristo, e ele quer a porta aberta.

3. Abençoar, chorar e descer de nível (Versículos 14 a 16)

Romanos 12:14-16
“Abençoem aqueles que perseguem vocês; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram e chorem com os que choram. Tenham o mesmo modo de pensar de uns para com os outros. Em vez de serem orgulhosos, sejam solidários com os humildes. Não sejam sábios aos seus próprios olhos.”

Contexto Histórico e Cultural

No versículo 14 aparecem os primeiros verbos no imperativo desde o versículo 5, três de uma vez; até aqui os mandamentos vinham como particípios, e o ouvinte de língua grega registraria a mudança. Ela marca a virada do trecho: o texto sai de dentro da igreja para a rua. Woods diz que Paulo nos moveu da manhã de domingo para a manhã de segunda-feira.

E a matéria é nova. Nem a filosofia grega nem a tradição judaica anterior ensinavam a abençoar o perseguidor; os relatos dos mártires macabeus, no século II a.C., mostram-nos morrendo a amaldiçoar os seus algozes. A fonte de Paulo é Jesus: “bendigam os que os maldizem” (Lucas 6.28).

“Abençoar” (eulogeō) é, literalmente, dizer bem de alguém e, no sentido hebraico, pedir a Deus que lhe faça bem; é dessa palavra que vem “elogio”. Amaldiçoar é o contrário: desejar que o mal o alcance. Vale entender também de que tipo de perseguição Paulo fala, e aqui Dean e Woods chegam, por caminhos independentes, à mesma leitura do “dar a outra face” do Sermão do Monte.

Woods argumenta pela geometria: para atingir a face direita de alguém que está à sua frente, um destro precisa bater com as costas da mão, e no idioma judaico esse gesto era insulto, não agressão. O texto trata de quem fere a nossa honra, não de legítima defesa nem de política de Estado. E quem persegue nem sempre está fora: Hodges lembra que, como a história das igrejas ilustra fartamente, as vinganças mais amargas costumam nascer entre irmãos.

O versículo 15 contraria a filosofia dominante da época. O estoicismo ensinava que o sábio deve ser impassível, sem se deixar abalar pela alegria nem pela dor alheia. Paulo manda o contrário: deixe-se atingir, como Jesus, que chorou diante do túmulo de Lázaro mesmo estando prestes a abri-lo (João 11.35). O versículo 16 cita Provérbios 3.7, “não sejas sábio aos teus próprios olhos”.

Para o grego, o “humilde” (tapeinos) era o servil e desprezível; para a Escritura, é aquele a quem Deus favorece. E o verbo traduzido por “sejam solidários” está na voz passiva: “deixem-se levar” pelos humildes. Numa cultura em que ser visto com gente de baixa posição podia arruinar uma carreira, Paulo pede que a companhia deles determine para onde o cristão vai.

Aplicação Para Hoje

Swindoll tira do verbo “abençoar” a aplicação mais concreta do trecho. Como eulogeō é a raiz de “elogio”, e em particular do elogio fúnebre, ele propõe: faça o elogio fúnebre do ofensor enquanto ele vive. Escolha uma pessoa de quem você tem falado mal, no trabalho, na família ou no grupo de mensagens, e diga a alguém algo verdadeiro e bom a respeito dela. Não espere pela vontade, porque ela não vem; se esperar, o desejo de retaliação apodrece por dentro. O mandamento começa pela boca porque, como Swindoll observa, todo plano de vingança começa com uma maldição: o coração é o poço, e a língua é o balde.

Como se faz o que é contra a natureza? A resposta de Woods é a mais importante das duas sessões dele sobre este texto: não é você quem faz; Cristo, que já viveu isso, faz através de você. A prova está em Atos 7. As palavras de Jesus na cruz, “Pai, perdoa-lhes”, saíram de novo da boca de Estêvão enquanto ele era apedrejado, e o texto explica de onde veio a capacidade: ele estava cheio do Espírito Santo.

Woods lembra ainda que os próprios apóstolos falharam nisso. Tiago e João quiseram mandar fogo do céu sobre uma aldeia samaritana que não recebeu Jesus (Lucas 9.54), e Paulo, esbofeteado diante do sumo sacerdote, respondeu chamando-o de “parede caiada” (Atos 23.3). O autor do mandamento também escorregou, e isso o torna praticável em vez de idealizado.

Chorar com quem chora significa não fazer o que os conselheiros de Jó fizeram: tentar explicar a dor. Eles não sabiam da conversa entre Deus e Satanás nos capítulos 1 e 2, e nós também não temos essa informação diante da dor alheia. Basta vir ao lado e chorar.

Já alegrar-se com quem se alegra é, segundo Pawson, o mais difícil dos dois, porque exige reconhecer que o outro recebeu o que eu queria. Ser solidário na dor nos põe na posição de quem consola; alegrar-se com o sucesso alheio exige a morte da inveja. Parabenize de modo específico alguém que conseguiu a vaga ou o reconhecimento que você não teve, nomeando o mérito que o levou lá.

Descer de nível é o teste da igreja como corpo. Woods mostra o problema em duas igrejas do Novo Testamento. Em Corinto, os crentes se associavam às pessoas influentes e bem-postas; na igreja a que Tiago escreve, o rico que entrava era levado ao melhor lugar, e o pobre era mandado ficar em pé no canto (Tiago 2.2-3).

Jesus fez o oposto. Escolheu um cobrador de impostos, o mais desprezado dos judeus porque servia ao ocupante romano, para escrever o primeiro evangelho, e conversou em público com uma samaritana, cometendo dois pecados sociais de uma vez. Woods conclui que a Bíblia é o maior tratado de reconciliação que existe, e ela começa na porta do templo: quem você cumprimenta na saída do culto, e quem você não vê.

4. Não pagar, não vingar, vencer (Versículos 17 a 21)

Romanos 12:17-21
“Não paguem a ninguém mal por mal; procurem fazer o bem diante de todos. Se possível, no que depender de vocês, vivam em paz com todas as pessoas. Meus amados, não façam justiça com as próprias mãos, mas deem lugar à ira de Deus, pois está escrito: “A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor.” Façam o contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber; porque, fazendo isto, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele.” Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.”

Contexto Histórico e Cultural

O bloco final tem quatro proibições, cada uma com uma ordem positiva ao lado: não amaldiçoar, mas abençoar; não pagar mal por mal, mas fazer o bem e buscar a paz; não se vingar, mas dar lugar à ira de Deus e servir o inimigo; não ser vencido pelo mal, mas vencê-lo. No versículo 17, “a ninguém” vem em primeiro lugar na frase grega, e a ênfase fecha a porta à exceção do tipo “mas este merece”. “Diante de todos” cita Provérbios 3.4, e o verbo “procurem” significa pensar de antemão: o cristão não atravessa a vida reagindo. O versículo 18 traz duas cláusulas realistas, “se possível” e “no que depender de vocês”, porque a paz nem sempre depende de nós. O próprio Paulo viveu muitas vezes a impossibilidade dela, e Jesus avisou que a sua presença traria divisão até dentro das famílias (Mateus 10.34-36).

No versículo 19, “fazer justiça com as próprias mãos” traduz um verbo de campo judicial (ekdikeō), o mesmo que os profetas usam para o juízo de Deus. Dean insiste que o versículo não proíbe recorrer à justiça: Deus estabeleceu o governo e a lei exatamente para isso. O que é proibido não é a justiça, é a jurisdição, isto é, o indivíduo contornar o sistema para punir por conta própria. A ira a que se deve dar lugar é a de Deus, como mostra a citação de Deuteronômio 32.35 logo em seguida, e Deus a exerce de dois modos: pelo magistrado, que em Romanos 13.4 é chamado “vingador” com a mesma palavra, e no dia do juízo (2.5).

O versículo 20 cita Provérbios 25.21-22, mas omite a última linha do provérbio, “e o SENHOR te recompensará”. F. F. Bruce nota que Paulo tira assim do gesto qualquer interesse próprio.

As “brasas vivas” são a imagem mais disputada do trecho. Dean sugere um antigo rito de penitência em que o arrependido carregava um braseiro sobre a cabeça; Woods, seguindo a nota da Bíblia de Estudo Ryrie, lê as brasas como as dores da vergonha e da culpa que levam ao arrependimento. As leituras diferem na origem da imagem, mas concordam no alvo: a mudança do inimigo, não o seu castigo. O exemplo bíblico mais claro é Eliseu, que conduziu o exército sírio cego até Samaria e, quando o rei perguntou se devia matá-los, mandou dar-lhes pão e água e enviá-los para casa (2 Reis 6.22).

O versículo 21 resume o capítulo, e Stott mostra que ele não deixa neutralidade. Quem amaldiçoa, retribui ou se vinga já foi vencido pelo mal que animava o inimigo; foi sugado para a esfera de influência dele. O verbo “vencer” (nikaō) vem de nikē, vitória, o nome da deusa grega da vitória e, hoje, de uma marca de tênis.

Aplicação Para Hoje

A ordem que Dean extrai do versículo 19 é: canais legítimos primeiro, Senhor depois, próprias mãos nunca. Se houve crime, registre a ocorrência. Se houve pecado contra você dentro da igreja, siga o procedimento de Mateus 18. O que está proibido é o atalho: a mensagem para “acertar o registro”, o comentário plantado, o silêncio calculado para prejudicar. Woods conta que passou por isso.

Na Califórnia, ele e a esposa dirigiam um ministério de solteiros que crescia, e a liderança da igreja o fechou de modo indelicado, com coisas ditas sobre eles que não deviam ter sido ditas. A tendência dele era mandar e-mails e marcar reuniões para corrigir o erro. Os dois decidiram deixar para lá: nenhum e-mail, nenhum telefonema, nada. E viram, ao longo do tempo, Deus tratar daquela situação sem a ajuda deles.

A imagem que sustentou o casal nesse período vem da esposa de Woods, e ele a credita a ela: quando estavam bravos com alguém, diziam “vamos tirá-los do nosso anzol”. No momento em que a pessoa sai do nosso anzol, ela vai para o anzol de Deus, que é muito melhor em lidar com injustiças do que nós. Uma prática correspondente é a oração nomeada: dizer o nome da pessoa em voz alta diante de Deus e declarar que a dívida dela com você está transferida. E é preciso saber o que se faz ao entregá-la.

Swindoll observa que a ira de Deus, nesta era da graça, é redentora: ela persegue o ofensor, corta as suas fugas e torna miserável a continuação no pecado, para levá-lo ao arrependimento. Você não entrega o inimigo ao carrasco; entrega-o ao Pastor que persegue. Dean acrescenta uma advertência tirada de Provérbios 24.17-18: quem se alegra com a queda do adversário pode fazer o Senhor recolher o juízo que traria sobre ele. A vingança pessoal não é apenas proibida; ela atrapalha a justiça que dizia buscar.

As duas cláusulas do versículo 18 dão uma medida para os conflitos: cubra a sua metade da ponte e pare ali. Dean formula assim: não deixe que a culpa pela ruptura seja sua; faça tudo o que depende de você, e deixe claro que o próximo passo é da outra pessoa. Para um conflito real que você esteja vivendo, escreva duas listas, o que depende de você e o que não depende, faça inteiramente a primeira e não cobre a segunda. Stott lembra um caso em que a paz não depende de você: quando o outro põe como condição um compromisso moral inaceitável.

Vigie o rancor, e não só o ato. Levítico 19.18, que Paulo tem diante dos olhos no versículo 19, proíbe duas coisas: vingar-se e guardar rancor. A conversa imaginária que você repete na cabeça, em que finalmente diz à pessoa tudo o que ela merece, é o rancor trabalhando. E Woods adverte sobre o destino da ira sufocada: ela vai sair de algum modo, e nove em cada dez vezes sai em alguém inocente, quase sempre em casa, no filho que não tinha nada a ver com o que aconteceu no trabalho.

Para a vida pública, Woods conta uma cena tirada de um livro de Philip Yancey. Diante de um protesto acalorado, dois grupos de cristãos reagiram de modos diferentes: um organizou um contraprotesto igualmente inflamado; o outro notou que os manifestantes dos dois lados estavam havia horas na chuva e foi levar cobertores a todos. Yancey pergunta qual dos dois falou mais alto. Diante da polarização que entrou nas famílias e nas igrejas, e é legítimo ter lado, a pergunta é qual é o cobertor: o gesto concreto de cuidado que se pode oferecer a quem está do outro lado sem abandonar a própria posição.

Tudo isso tem um modelo. Na cruz, Cristo, “quando ultrajado, não revidava; entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pedro 2.23), e o maior mal da história se tornou o instrumento do maior bem. Woods diz que a vida cristã não é difícil; ela é impossível, a menos que Cristo a viva em nós (Gálatas 2.20). Então o mal é vencido, e o modo de destruir um inimigo passa a ser transformá-lo em amigo.

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Referências Bibliográficas

• BERCOT, David W. Romans: How Romans Was Understood Before Augustine and Luther. The Historic Faith Commentary Series.

• BRUCE, F. F. Romans. Tyndale New Testament Commentaries. Grand Rapids: Eerdmans.

• DEAN JR., Robert. Série Romans (2010), aulas 133 a 138. Dean Bible Ministries / West Houston Bible Church.

• DUNN, James D. G. Romans 9—16. Word Biblical Commentary 38B.

• GUZIK, David. Enduring Word Bible Commentary, Romans 12. enduringword.com.

• HODGES, Zane C. Romans: Deliverance from Wrath. Grace Evangelical Society.

• IRONSIDE, H. A. Lectures on the Epistle to the Romans, Lecture 10.

• PAWSON, David. A Commentary on Romans.

• RYRIE, Charles C. Ryrie Study Bible, nota a Rm 12.20; e a metáfora do rio, citada por Swindoll a partir de aula no Dallas Theological Seminary.

• STOTT, John R. W. The Message of Romans. The Bible Speaks Today.

• SWINDOLL, Charles R. Swindoll’s Living Insights New Testament Commentary: Romans. Tyndale.

• WIERSBE, Warren W. The Wiersbe Bible Study Series: Romans — “Right Relationships”.

• WOODS, Andy. Série Romans, sessões 37 e 38. Sugar Land Bible Church.

• Bíblia Sagrada. Nova Almeida Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

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