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Chegamos ao fim da carta. Nos três primeiros capítulos, Paulo mostrou a riqueza que temos em Cristo. De 4.1 a 6.9, ele ensinou como vive quem recebeu essa riqueza, na igreja, no casamento, com os filhos e no trabalho. Agora, antes de se despedir, ele avisa que essa riqueza tem um adversário.
Quem recebeu tanto vira alvo, e por isso a última ordem da carta não é avançar, mas ficar de pé. Paulo escreve preso em Roma, acorrentado a um soldado, mas as palavras que ele usa vêm de Isaías, onde é o próprio Senhor quem veste a couraça da justiça e o capacete da salvação (Isaías 59.17). A armadura é de Deus porque vem dele e porque é a que ele mesmo usa.
Esta é a mensagem que vamos acompanhar: Deus dá aos seus filhos a sua própria armadura, e, como Cristo já venceu a batalha decisiva na cruz, o cristão não precisa atacar o inimigo. Ele precisa ficar firme, usando na prática o que já recebeu, cercado de oração e ao lado dos irmãos.
1. Sejam fortalecidos no Senhor (Versículo 10)
Efésios 6:10
“Quanto ao mais, sejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.”
Contexto Histórico e Cultural
A primeira ordem deste último assunto da carta está na voz passiva, e isso é importante. Paulo não diz “sejam fortes”, como se a força tivesse de sair de nós. Ele diz “sejam fortalecidos”, porque a força é recebida, e recebida por inteiro. O lugar onde ela se recebe é “no Senhor”, isto é, em união com Cristo.
As palavras “a força do seu poder” são as mesmas de 1.19, onde Paulo orou para que os leitores conhecessem o poder que Deus exerceu em Cristo quando o ressuscitou e o assentou acima de todo principado e potestade. É esse poder que nos sustenta diante dos inimigos que vamos encontrar no versículo 12. Por isso o versículo não pede coragem; ele pede dependência. Lewis Sperry Chafer escreveu que o cristão não foi designado para enfrentar os seus inimigos sozinho e que ser fortalecido no Senhor exige uma dependência incessante de Deus, na qual se abandona toda confiança em si mesmo.
Aplicação Para Hoje
Há dois erros que este versículo corrige. O primeiro é a autossuficiência de quem acha que vence a tentação com força de vontade. O segundo é a passividade de quem espera que Deus faça tudo sem que ele se mova. A ordem é receber a força de Deus e então agir com ela. Na igreja local, a reunião de oração é o lugar em que confessamos isso na prática, porque ali a assembleia admite que não tem recursos próprios e os pede a Deus.
E a ceia do Senhor, a cada domingo, nos lembra de quem essa força vem. O inimigo não pode tirar a salvação de quem crê, porque ela está segura em Cristo. O que ele procura tirar é a utilidade do cristão, a sua paz e o seu testemunho. Quem foi assentado com Cristo (2.6) tem tudo o que precisa para ficar de pé, mas precisa buscar essa força todos os dias, e os versículos seguintes explicam como.
2. A armadura de Deus contra um inimigo que não é humano (Versículos 11 a 13)
Efésios 6:11-13
“Vistam-se com toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do diabo. Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais. Por isso, peguem toda a armadura de Deus, para que vocês possam resistir no dia mau e, depois de terem vencido tudo, permanecer inabaláveis.”
Contexto Histórico e Cultural
A palavra traduzida por “armadura” é panoplia, o equipamento completo do soldado de infantaria, e o peso está em “toda”. Deus fornece a armadura, mas vesti-la é responsabilidade nossa. O objetivo é poder “ficar firmes”, que na linguagem militar significa manter a posição diante do inimigo. Paulo nunca manda atacar.
O inimigo é o diabo, que quer dizer acusador, e as suas “ciladas” são estratégias pensadas, feitas de mentira e engano. O versículo 12 explica por que a armadura precisa ser a de Deus. A palavra “luta” descrevia o combate corpo a corpo, e o adversário não é “o sangue e a carne”, isto é, não são pessoas. Andy Woods diz que a nossa luta não é contra o chefe, nem contra a sogra, nem contra um partido político, mas contra forças espirituais que disputam a nossa mente e a da nossa família.
Os quatro nomes que Paulo usa mostram um inimigo numeroso e organizado, mas o que consola é que os mesmos nomes aparecem em 1.21, e ali Cristo está assentado acima de todos eles. Na cruz, ele despojou os principados e as potestades (Colossenses 2.15). O versículo 13 repete a ordem e acrescenta o “dia mau”, que é qualquer dia de ataque ou de tentação. A NAA traduz o final por “depois de terem vencido tudo”, mas o verbo grego significa “tendo feito tudo”, ou seja, tendo cumprido o que foi ordenado.
Aplicação Para Hoje
Em nenhum lugar a Bíblia manda o cristão amarrar o diabo, repreendê-lo ou descobrir o nome dos espíritos que dominam uma cidade. Nem o arcanjo Miguel ousou acusar o diabo por conta própria; ele disse apenas “O Senhor repreenda você!” (Judas 9). O cristão não dirige a palavra ao diabo. Ele fala com Deus e resiste, e a Escritura promete que o diabo fugirá (Tiago 4.7).
Também não devemos ver demônio em tudo: pecado se confessa, e não se expulsa; doença se trata com médico, e procurar um psiquiatra não é falta de fé; luto e desemprego pedem a presença dos irmãos. E o cristão não pode ser possuído por demônio, porque o seu corpo é santuário do Espírito Santo e aquele que está em nós é maior do que aquele que está no mundo (1 João 4.4). Quem estiver assustado com esse assunto deve procurar os presbíteros, que vão abrir a Bíblia e orar com ele. J.
Vernon McGee resume o que o texto espera de nós quando diz que, para o cristão, simplesmente conseguir ficar de pé num dia mau já é uma vitória. Não ficamos firmes para conquistar a vitória, mas porque Cristo já a conquistou. Com que ficamos firmes é o que vem a seguir.
3. Firmes com a verdade, a justiça e o evangelho da paz (Versículos 14 a 15)
Efésios 6:14-15
“Portanto, fiquem firmes, cingindo-se com a verdade e vestindo a couraça da justiça. Tenham os pés calçados com a preparação do evangelho da paz,”
Contexto Histórico e Cultural
No grego, do versículo 14 ao 20 corre uma frase só, e o verbo principal dela é “fiquem firmes”. As peças da armadura aparecem em particípios que indicam ação já feita: fica firme quem já se cingiu, já vestiu a couraça e já calçou os pés. Ninguém se arma no meio do ataque. Cada peça retoma uma palavra que a carta já tinha usado. O cinto era colocado primeiro, prendia a roupa para o soldado se mover com liberdade, e dele pendia a espada.
A verdade que nos cinge é a verdade da Palavra de Deus, aquela que os leitores ouviram e creram (1.13; 4.21). Como as ciladas do diabo são mentiras bem armadas, só a verdade de Deus pode desmenti-las. A couraça protegia o peito, onde estão os órgãos vitais. A justiça que se veste aqui é a vida justa que o Espírito produz em quem já foi declarado justo, pois é nesse sentido que a palavra aparece em 4.24 e 5.9. A justiça de Cristo, que Deus nos credita quando cremos, ninguém veste nem despe, porque se recebe de uma só vez.
A brecha na couraça é o pecado guardado (4.26-27). O soldado romano calçava uma bota de sola grossa e cravejada de tachas, feita para firmar o pé no chão. A “preparação do evangelho da paz” é a firmeza de quem entendeu o evangelho: a dívida foi paga na cruz, e quem crê tem paz com Deus (Romanos 5.1). Este não é um texto sobre sair pregando, porque a ordem é ficar firme, e não avançar.
Aplicação Para Hoje
O cinto se põe onde a Palavra é ensinada livro por livro e ouvida por irmãos de Bíblia aberta, que conferem o que ouvem, como faziam os bereanos (Atos 17.11). Assim como o caixa de banco reconhece a nota falsa porque manuseia as verdadeiras, o cristão reconhece a mentira porque conhece bem a verdade de Deus. Quanto à couraça, é preciso dizer com clareza que a vida justa não é condição para continuar salvo. O cristão que falha fica exposto, mas não fica perdido, e a saída que a Bíblia dá é confessar o pecado e voltar a obedecer (1 João 1.9).
A ceia de cada domingo é a ocasião de vestir essa peça de novo, examinando-se e vindo à mesa apoiado na justiça de Cristo, e não na própria. O calçado nos protege quando o acusador aponta a falha da semana e pergunta se Deus ainda nos aceita. Quem está calçado responde com a cruz, e não com o seu histórico. E a paz com Deus produz paz entre os irmãos, porque a mesma cruz fez de judeus e gentios um só corpo (2.14-16).
Uma igreja dividida por uma mágoa antiga está descalça. Se há alguém na igreja com quem você não fala, procure essa pessoa antes do próximo domingo. Cristo é a verdade, Cristo se tornou a nossa justiça e Cristo é a nossa paz. Vestir essas três peças é apropriar-se dele.
4. A fé, a salvação e a palavra de Deus (Versículos 16 a 17)
Efésios 6:16-17
“segurando sempre o escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Usem também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.”
Contexto Histórico e Cultural
O escudo de que Paulo fala era o grande, do tamanho de uma porta, feito de madeira coberta de couro. Antes da batalha os soldados o molhavam, para que as flechas envoltas em piche e acesas fossem apagadas ao bater nele. Por isso Paulo diz que a fé “apaga” os dardos, e apaga todos. Essa fé não é a que nos salvou, pois os leitores já tinham crido. É a confiança nas promessas de Deus na hora do ataque, quando chegam a dúvida, o medo, o desânimo e a acusação.
Ela nasce de ouvir a Palavra, e por isso o cinto vem antes do escudo. Os escudos romanos eram feitos para ficar lado a lado, formando uma parede, porque o soldado não lutava sozinho. No versículo 17 o verbo muda. Paulo diz “recebam”, que a NAA traduz por “usem”, e o capacete era a peça que o soldado só colocava diante do perigo. Quem recebe essa ordem já é salvo (2.5, 8), e Paulo explica a figura em outra carta ao chamá-la de “esperança da salvação” (1 Tessalonicenses 5.8).
O capacete é a certeza da salvação inteira, passada, presente e futura, protegendo a mente. A espada era a curta, própria para o combate próximo, e vem do Espírito, que inspirou a Escritura. A palavra que Paulo usa, rhēma, não é a Bíblia como um todo, mas a palavra dita, o texto certo lembrado e declarado na hora da prova. Foi assim que Jesus venceu no deserto: três vezes o tentador propôs, e três vezes ele respondeu com um texto de Deuteronômio, sem discutir e sem atacar (Mateus 4.1-11).
Aplicação Para Hoje
O escudo serve para a conta que vence sem saldo, para o diagnóstico inesperado e para o pensamento que não cede. Em cada caso, a defesa é uma promessa de Deus crida, e não apenas repetida. E quem se afasta das reuniões sai da formação e fica com um escudo só. O capacete responde ao golpe mais comum do acusador: “se você fosse cristão de verdade, não teria pensado isso”. A resposta é devolver a certeza ao seu apoio, que é a promessa de Cristo de que quem crê tem a vida eterna e ninguém o arrebatará da sua mão (João 10.28).
Quanto à espada, Robert Dean observa que Jesus não respondeu ao tentador com um princípio tirado de Deuteronômio; ele citou a Escritura, porque é a Palavra de Deus que é viva e poderosa. Para usar a espada é preciso tê-la à mão, e um plano simples é guardar um versículo por semana, lido no seu contexto, começando pelas tentações que você já conhece: Filipenses 4.6-7 para a ansiedade, Romanos 8.1 para a acusação, 2 Timóteo 1.7 para o medo. O deserto, antes de ser exemplo, é evangelho. Jesus venceu onde Adão caiu e onde nós caímos, e por isso ele é o sacerdote que socorre os que são tentados (Hebreus 2.18). Quem usa mal a espada e cai tem Advogado junto ao Pai (1 João 2.1).
5. Orar em todo tempo, pelos irmãos e por quem anuncia o evangelho (Versículos 18 a 20)
Efésios 6:18-20
“Orem em todo tempo no Espírito, com todo tipo de oração e súplica, e para isto vigiem com toda perseverança e súplica por todos os santos. E orem também por mim, para que, no abrir da minha boca, me seja dada a palavra, para com ousadia tornar conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazer.”
Contexto Histórico e Cultural
A NAA começa o versículo 18 com uma nova ordem, “orem”, mas no grego a frase continua. “Orando” e “vigiando” são particípios ligados ao “recebam” do versículo 17, e dizem de que modo se pegam o capacete e a espada: cercados de oração. A oração não é uma sétima peça da armadura. É o ambiente em que todas as peças se usam. Paulo repete quatro vezes a palavra “todo”: toda oração, toda ocasião, toda perseverança, todos os santos.
“Em todo tempo” não é passar o dia de joelhos, mas orar a cada oportunidade e a cada aperto. Orar “no Espírito” é orar pelo Espírito, que nos ajuda quando não sabemos pedir (Romanos 8.26), e no rumo que ele deu na Escritura, que ele inspirou. “Vigiar” é a atenção de quem tem um propósito, e “perseverança” é não desistir quando a resposta demora. Daniel orou três semanas sem resposta, e a sua oração tinha sido ouvida desde o primeiro dia (Daniel 10.12). Depois de todos os santos, Paulo pede oração por si mesmo, e o que ele pede chama a atenção.
Preso e à espera de julgamento, ele não pede para ser solto. Pede a palavra certa e a coragem de dizê-la. O “mistério” é a verdade que Deus não tinha revelado antes e agora revelou: judeus e gentios num só corpo, a Igreja (3.6). Foi por anunciar isso aos gentios que Paulo foi preso (Atos 22.21-22). Ele se chama “embaixador em cadeias”, o que era um contrassenso, porque o embaixador tinha imunidade.
Aplicação Para Hoje
Este versículo tem endereço na igreja local: a reunião de oração. Ali “todos os santos” deixam de ser uma expressão e viram nomes, o irmão doente, a irmã que cria os filhos sozinha, o jovem na faculdade, os que sumiram das reuniões. Orar pelo nome obriga a saber como cada um está, e isso já é vigiar. Durante a semana, a oração cabe no ônibus, antes de uma conversa difícil e no momento em que a irritação sobe. O pedido de Paulo nos ensina o que pedir pelos presbíteros, pelos irmãos que ensinam, pelos que trabalham com as crianças e pelos obreiros que a igreja recomendou a outros lugares.
Pedir só saúde e sustento para quem prega é pedir menos do que o apóstolo pediu para si; ele pediu a palavra certa e ousadia. E todo cristão é embaixador, representando em terra alheia o seu Senhor até que ele venha. Enquanto oramos, não estamos sozinhos. Na noite da traição, Jesus disse a Pedro que tinha orado por ele, para que a sua fé não desfalecesse (Lucas 22.32), e ele vive sempre para interceder por nós (Hebreus 7.25). A nossa vigília é a nossa parte numa intercessão que já estava em curso.
6. Paulo se despede com um irmão fiel e uma bênção (Versículos 21 a 24)
Efésios 6:21-24
“E, para que saibam como estou e o que estou fazendo, Tíquico, o irmão amado e fiel ministro do Senhor, lhes dará todas as informações. Eu o estou enviando a vocês com esta finalidade: para que conheçam a nossa situação e para que ele console o coração de vocês. Paz seja com os irmãos e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça esteja com todos os que amam sinceramente o nosso Senhor Jesus Cristo.”
Contexto Histórico e Cultural
Tíquico era da província da Ásia, a região de Éfeso, e acompanhava Paulo desde o fim da terceira viagem (Atos 20.4). Ele levou esta carta, e os dois versículos sobre ele são quase idênticos a Colossenses 4.7-8. Naquele tempo uma carta particular dependia de alguém de confiança que a levasse, e o portador dava de viva voz as notícias de quem escrevia. “Ministro”, aqui, é simplesmente servo. Tíquico não era o pastor de Éfeso, que tinha presbíteros, no plural (Atos 20.17, 28); era um cooperador enviado para informar e animar.
A carta começou com graça e paz (1.2) e termina com paz e graça, e a última palavra da carta merece atenção. Onde a NAA diz “amam sinceramente”, o grego diz “amam em aphtharsia“, em incorruptibilidade, a mesma palavra que Paulo usa para o corpo ressuscitado, que é semeado em corrupção e ressuscita em incorrupção (1 Coríntios 15.42). É um amor que o tempo não deteriora. A frase não põe o amor como preço da graça, porque é uma bênção, e não um contrato.
Aplicação Para Hoje
Dar notícias dos irmãos é um serviço: a carta do obreiro lida na reunião e o recado sobre o irmão internado continuam o trabalho de Tíquico e alimentam a oração. A última palavra da carta é também uma pergunta para nós. Cerca de trinta anos depois, o Senhor escreveu a essa mesma igreja e, depois de elogiar o trabalho, a perseverança e o zelo pela doutrina, disse que tinha contra ela o abandono do primeiro amor (Apocalipse 2.4). Tudo continuava funcionando, mas o amor tinha esfriado. É possível ter a doutrina certa e a armadura no lugar, e amar menos do que antes.
A ceia de cada domingo é o lugar de voltar, porque ali ninguém faz nada por Cristo; lembra-se o que ele fez por nós, e quem volta ao que ele fez volta ao primeiro amor. Terminamos onde começamos. Ninguém veste a armadura para ser aceito por Deus. Ela é dada a quem já foi aceito pela fé em Cristo, que venceu por nós na cruz, intercede por nós agora e virá para encerrar a guerra, quando o Deus da paz esmagar Satanás debaixo dos nossos pés (Romanos 16.20). Até lá, fortalecidos no Senhor, ficamos de pé.
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Referências Bibliográficas
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