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Vídeo resumo
Paulo acaba de mostrar aos filipenses o caminho de Cristo: ele, sendo Deus, não se agarrou ao que era seu, fez-se servo, obedeceu até a morte de cruz, e por isso o Pai o exaltou acima de tudo (vv. 5-11). Essa passagem não foi escrita para ser admirada de longe, mas para resolver um problema de convivência numa igreja local que tinha rivalidade e vaidade por dentro (vv. 3-4) e enfrentava pressão por fora (1.28-30). Por isso o v. 12 começa com “assim”: se Cristo obedeceu desse jeito, então vocês, que são dele, vivam desse jeito.
O trecho que vamos ler é a aplicação prática do hino a Cristo, e tudo nele nasce de uma raiz só. O fio que vamos acompanhar é este: quem já foi salvo pela graça é chamado a pôr essa salvação em prática, com reverência e na força que Deus dá, para que a igreja local, sem queixa nem disputa, brilhe num mundo torto, firmada na palavra, de olhos no Dia de Cristo e com a alegria de quem se oferece por gratidão.
1. Desenvolvam a salvação que vocês já receberam (Versículo 12)
Filipenses 2:12
“2.12 Assim, meus amados, como vocês sempre obedeceram, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvam a sua salvação com temor e tremor,”
Contexto Histórico e Cultural
Antes de pedir qualquer coisa, Paulo chama os filipenses de “meus amados” e reconhece que eles sempre obedeceram. Ele fala com gente salva, que recebeu o evangelho desde o primeiro dia (1.5). A frase “desenvolvam a sua salvação” já assustou muita gente, mas Paulo não manda ninguém trabalhar para ser salvo: a salvação nunca é obra do homem para Deus, mas obra de Deus para o homem, realizada na cruz (Ef 2.8-9). Ele também não diz que a salvação precisa ser conservada à força, nem que o esforço é a prova de que alguém é salvo. A ordem é para salvos, e é sobre o que fazer com a salvação que se tem.
A Bíblia fala da salvação em três tempos. Fomos salvos da penalidade do pecado, quando cremos. Estamos sendo salvos do poder do pecado, enquanto o Espírito nos transforma. E seremos salvos da presença do pecado, quando Cristo voltar. O v. 12 está na segunda fase.
O verbo que Paulo usa, katergazomai, quer dizer levar alguma coisa até o fim, fazer com que produza o seu resultado. Wiersbe explica com três imagens: é o verbo de quem resolve um problema de matemática até a resposta, explora uma mina até tirar o minério, trabalha um campo até ele dar fruto. A mina já é sua; o que falta é tirar dela o que está dentro. Assim é a salvação: Deus a pôs em nós, e agora ela precisa aparecer na vida. Como o problema dessa igreja era rivalidade e egoísmo, desenvolver a salvação ali tinha rosto concreto: tratar o irmão como Cristo nos tratou.
A ordem vem no plural: ninguém desenvolve a salvação pelo irmão, mas ninguém a desenvolve sozinho. E “temor e tremor” não é pavor nem ansiedade, como se o crente vivesse com medo de perder o que Deus deu; não recebemos um espírito de escravidão para viver outra vez com medo (Rm 8.15). É a seriedade reverente de quem sabe que está lidando com algo de Deus (Sl 2.11). Por fim, Paulo pede que obedeçam “muito mais agora, na minha ausência”.
Um empregado trabalha bem com o chefe olhando; o que mostra o seu caráter é como trabalha quando o chefe sai. Paulo quer uma obediência que não dependa da presença dele, porque ela nunca foi dele em primeiro lugar. Eles obedecem a Cristo, e Cristo não se ausenta.
Aplicação Para Hoje
Este versículo separa duas coisas que costumamos misturar: o dom e o desenvolvimento do dom. A salvação é dom; ninguém a conquista nem a paga. Mas o dom foi dado para produzir fruto, e esse fruto é responsabilidade nossa. Há crentes que vivem com medo de perder a salvação e se esgotam tentando merecê-la, e há crentes que, por saberem que ela é de graça, vivem como se nada mais fosse esperado deles. Paulo corrige os dois com uma frase só: você não precisa conquistar o que já é seu, mas o que já é seu precisa aparecer.
E há a pergunta sobre a plateia. Como você vive quando ninguém da igreja está olhando? Como preenche a declaração do imposto de renda, como trata o funcionário que não pode reclamar?
A obediência que vale é a que não precisa de fiscal, porque é prestada a quem vê tudo. Cristo obedeceu quando ninguém aplaudia, até a morte de cruz. Nós, salvos por essa obediência, somos chamados a obedecer do mesmo jeito, com seriedade e sem medo, porque o próximo versículo diz de onde vem a força.
2. Deus é quem efetua em vocês o querer e o realizar (Versículo 13)
Filipenses 2:13
“porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.”
Contexto Histórico e Cultural
O “porque” que abre o versículo impede que o anterior vire um programa de esforço solitário. Paulo manda desenvolver a salvação e, no mesmo fôlego, explica que isso é possível porque Deus está trabalhando dentro de cada crente. O verbo energeō, de onde vem a nossa palavra “energia”, é o que Paulo usa para o poder de Deus em ação, o mesmo que ressuscitou Cristo (Ef 1.19-20). Deus não trabalha porque nós trabalhamos; nós podemos e devemos trabalhar porque Deus já está trabalhando.
Ele trabalha em duas frentes. Primeiro no “querer”, porque por natureza nenhum de nós quer colocar o outro acima de si mesmo. Depois no “realizar”: Deus não deixa o crente só com boa intenção, mas dá a força para pôr em prática o que ele passou a querer. Ele faz isso pelo Espírito, que habita em nós, e pela Palavra, que renova o nosso modo de pensar (Rm 12.2).
Mas é preciso dizer com cuidado: Deus influencia, ele não controla. Quem quer e quem realiza são os filipenses. Deus desperta o desejo e fornece a força; a decisão e o passo continuam sendo nossos.
Isso afasta dois erros opostos. O primeiro é a passividade, a ideia de que basta “entregar nas mãos de Deus” e esperar que ele faça tudo; o versículo diz que Deus trabalha em nós para que nós trabalhemos, não em nosso lugar. O segundo é a força de vontade, a tentativa de viver a vida cristã com recursos próprios, como os gálatas que, tendo começado pelo Espírito, queriam terminar pela carne (Gl 3.3). Woods resume o problema de um jeito que vale guardar: a vida cristã não é difícil, ela é impossível, se tentada com recursos próprios.
O texto afasta os dois erros e ensina outra coisa: contar com Deus e levantar-se, as duas coisas ao mesmo tempo, porque é Deus quem dá o querer e o realizar, e somos nós que queremos e realizamos. E o crescimento é lento, um processo que às vezes parece parado, mas que Deus leva adiante com paciência ao longo de uma vida inteira. A “boa vontade” do fim do versículo é a de Deus, o seu propósito gracioso de ter um povo que se pareça com ele. Deus não trabalha em nós para produzir pecado nem qualquer coisa que nos passe pela cabeça; trabalha para que a sua vontade se cumpra, e, no contexto da carta, essa vontade é uma igreja unida e humilde (vv. 2-5).
Aplicação Para Hoje
Quem entende este versículo deixa de viver em dois extremos que cansam. Deixa de carregar a vida cristã nas próprias costas, condenando-se a cada falha, porque descobre que Deus está trabalhando dentro de si antes mesmo de qualquer esforço seu. E deixa de esperar sentado, porque descobre que Deus não trabalha em seu lugar: ele dá o querer e o poder, e nós damos o passo.
Na prática, isso muda o jeito de encarar uma luta com o pecado, uma mágoa que não passa ou um hábito que não se quebra. Não é “vou conseguir na marra”, nem “não adianta tentar”. É orar pedindo o desejo e a força, abrir a Palavra para que ela renove a cabeça, e então agir, confiando que quem dá a força é o mesmo que ressuscitou Jesus.
Isso também nos dá paciência com o crescimento, o nosso e o dos irmãos. O que Deus começou em nós, ele vai completar até o Dia de Cristo (1.6). E o primeiro lugar em que esse trabalho de Deus precisa aparecer não é em grandes atos, e sim na língua.
3. O primeiro teste é a língua (Versículo 14)
Filipenses 2:14
“Façam tudo sem murmurações nem discussões,”
Contexto Histórico e Cultural
Depois da ordem geral vem a ordem específica, e ela começa por “tudo”: não há um compartimento da vida em que a queixa seja permitida. A palavra traduzida por “murmurações”, gongysmos, imita o som que descreve. É o resmungo em voz baixa, o cochicho descontente, a reclamação dita pelos cantos e não a quem pode resolver.
Foi assim que Israel tratou a Deus no deserto, murmurando por água, por pão, contra Moisés e Arão (Êx 16; Nm 14), e Paulo usa essa história como aviso em outra carta (1Co 10.10). Uma viagem que podia ter durado onze dias virou quarenta anos, e a geração que murmurou morreu no deserto. Eles não perderam a salvação, mas perderam a bênção da terra que Deus queria dar.
Essa história mostra onde está a raiz da queixa. Quando Israel murmurou contra Moisés, ele respondeu que a murmuração não era contra ele, e sim contra o Senhor (Êx 16.8). A queixa se diz entre pessoas, mas no fundo é uma discordância com o governo de Deus, como quem lhe diz que o plano dele não serve.
A segunda palavra, “discussões”, dialogismos, é a do raciocínio que vira disputa, o argumento que começa como opinião e acaba em briga. A murmuração é o que se diz pelas costas; a discussão é o que se diz na cara. Uma alimenta a outra, e as duas destroem a unidade pedida nos vv. 1-4.
Paulo tinha autoridade para pedir isso: escreve preso, e na carta inteira não há uma reclamação; quando listou o que sofreu pelo evangelho (2Co 11.23-27), foi para mostrar o que a graça sustenta. E ele tinha um exemplo maior do que o seu: Cristo, que, tendo tudo, não brigou pelo que era seu (v. 6). A boca é a janela do coração, e por isso a língua é o primeiro teste de quem está desenvolvendo a salvação. É preciso dizer, porém, o que o versículo não proíbe.
Não proíbe o lamento dirigido a Deus, que os salmos fazem o tempo todo, nem a discordância leal, dita com respeito a quem pode ouvi-la. E não proíbe, de modo nenhum, a denúncia de pecado ou de abuso: quem sofre ou presencia algo errado na igreja local deve procurar os presbíteros e, havendo crime, as autoridades. Murmurar é outra coisa: é a queixa feita pelas costas, a quem não pode resolver, que não busca solução, mas alívio em espalhar o descontentamento.
Aplicação Para Hoje
Diante de qualquer contrariedade, a tendência natural é reclamar com quem está ao lado, não com quem pode resolver. O irmão reclama da liderança da igreja no estacionamento, o marido reclama da esposa com o colega, o funcionário reclama do chefe no grupo de mensagens. O texto nos chama a trocar a queixa pela palavra dita a quem pode resolver: se algo precisa mudar na igreja, procure a liderança; se algo dói no casamento, fale com o cônjuge; se há um erro no trabalho, leve a quem tem autoridade para corrigir. E, quando não houver a quem recorrer, leve a Deus, como os salmistas, que reclamavam com Deus e não de Deus.
Quanto à discussão, nem todo desacordo é pecado, mas todo desacordo é uma oportunidade de pecar. Antes de abrir a boca vale a pergunta: estou querendo entender ou querendo vencer? Cristo não brigou pelo que era seu, e nós, que recebemos tudo por graça, brigamos por tão pouco. Quem lembra do deserto, onde a murmuração custou quarenta anos, e lembra da cruz, onde o Filho se calou diante da injustiça, aprende a calar o resmungo. E a língua guardada não serve só para evitar o mal: o versículo seguinte explica que é ela que permite à igreja brilhar.
4. Filhos de Deus que brilham como luzeiros no mundo (Versículo 15)
Filipenses 2:15
“para que sejam irrepreensíveis e puros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual vocês brilham como luzeiros no mundo,”
Contexto Histórico e Cultural
O “para que” liga o versículo ao anterior: a língua guardada tem um propósito. O verbo que a NAA traduz por “sejam” quer dizer “tornem-se”, e não fala de adoção, que já aconteceu quando creram (Jo 1.12), mas de crescimento: filhos que vão se tornando parecidos com o Pai. Os três adjetivos, “irrepreensíveis”, “puros” e “inculpáveis”, dizem quase a mesma coisa de três ângulos. Um deles, akeraios, era usado para o vinho sem água e para o metal sem liga; aplicado a pessoas, fala de quem não tem mistura.
Outro, amōmos, é palavra do altar, a exigência para o animal do sacrifício, sem defeito, a mesma que Pedro usa para o Cordeiro sem mancha (1Pe 1.19). Mas irrepreensível não é o mesmo que impecável. Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos (1Jo 1.8-9). Irrepreensível é quem, quando erra, confessa e corrige, de modo que ninguém pode apontar um pecado mantido e defendido.
A frase “filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta” vem do cântico de Moisés (Dt 32.5). Ali, Moisés acusa Israel de já não parecer filho de Deus e o chama de geração perversa e torta. Paulo reorganiza essa linguagem: os filhos inculpáveis são os crentes de Filipos, e a geração torta são os pagãos no meio dos quais eles vivem. Há quem leia nisso que a igreja tomou o lugar de Israel, mas Paulo não está dizendo isso.
O mesmo apóstolo afirma, aos romanos, que Deus não rejeitou o seu povo e que todo o Israel será salvo, porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis (Rm 11.25-29). Ele usa a linguagem de Moisés para dizer que os filipenses podem ser, no meio do mundo, o que Israel no deserto deixou de ser. A “geração pervertida e corrupta” é a população pagã da cidade: gente torta, fora do prumo, que rejeitou a verdade.
Então vem a frase central: “na qual vocês brilham como luzeiros no mundo”. Repare que Paulo não manda brilhar; ele afirma que brilham. A palavra phōstēr é a dos astros que Deus colocou no firmamento no quarto dia (Gn 1.14-16), a mesma que Daniel usa para os sábios que brilharão como o firmamento (Dn 12.3). Uma estrela não faz esforço para brilhar; ela brilha porque é o que é, e o crente brilha porque tem a vida de Cristo. Dean faz uma observação simples e exata: nós somos a lanterna, mas a luz não é nossa.
A luz é Cristo, e o que o mundo vê são as boas obras, que levam os homens a glorificar o Pai (Mt 5.16). É luz pela presença, e não pela repreensão: brilhar não é passar sermão nos vizinhos, é viver de tal modo que a diferença se note. João Crisóstomo, pregador de Constantinopla no século quarto, lembrava que as estrelas brilham mais quando a noite é escura. A noite não é desculpa; é oportunidade.
Aplicação Para Hoje
O que faz um crente brilhar no Brasil de hoje não é uma identidade religiosa estampada. A palavra “evangélico” já não brilha sozinha, porque muita gente a usa sem que a vida acompanhe. O que brilha é a mesma pessoa onde é escuro: o comerciante que emite a nota fiscal quando ninguém pediria, o profissional que cumpre o contrato quando podia enrolar, o crente que não entra na briga nas redes sociais, o vizinho que fala a verdade quando a mentira seria mais cômoda. A Palavra é lâmpada para os nossos pés (Sl 119.105), e quem anda por ela se torna, sem perceber, uma luz para os que andam perto.
Isso corrige duas tentações: o isolamento, como se a pureza se guardasse saindo do mundo, quando Paulo diz que os filhos de Deus brilham “no meio” da geração torta; e o desânimo diante da escuridão da época, quando é justamente na noite escura que as estrelas aparecem. Cristo é a luz do mundo, e quem o segue não anda em trevas (Jo 8.12). Nós não geramos luz, nós a refletimos, e para refletir é preciso ficar perto da fonte: a palavra da vida, de que o próximo versículo fala.
5. Firmados na palavra, de olhos no Dia de Cristo (Versículo 16)
Filipenses 2:16
“preservando a palavra da vida. Assim, no Dia de Cristo, poderei me gloriar de que não corri em vão, nem me esforcei inutilmente.”
Contexto Histórico e Cultural
A primeira frase diz como os filipenses brilham: “preservando a palavra da vida”. O verbo epechō admite duas leituras. Alguns o traduzem por “oferecendo”, mas a leitura mais firme, a da NAA, é “preservando”, segurando firme.
Toda esta parte da carta fala de firmeza diante da pressão de fora (1.27-28): reter a palavra quando o mundo aperta, sem se amoldar a ele (Rm 12.2). A “palavra da vida” é o evangelho que Paulo pregou em Filipos, a Escritura que o contém e, no fim, o próprio Cristo, que é a vida. Jesus nunca se separa da sua palavra: quem larga a palavra não segura Jesus, por mais que fale dele.
Na segunda frase Paulo passa a falar de si. Os filipenses, firmes na palavra, serão o motivo de ele se gloriar no Dia de Cristo. A palavra kauchēma não é vaidade; é motivo de orgulho legítimo, a “coroa em que nos gloriamos” de outra carta (1Ts 2.19-20). O que o apóstolo quer apresentar diante de Cristo não são obras, e sim pessoas transformadas.
O “Dia de Cristo” é expressão que só aparece nesta carta (1.6, 10). Não é o mesmo que o “Dia do Senhor”, que nos profetas e em Paulo é o dia do juízo sobre o mundo. O Dia de Cristo é o dia em que ele vem buscar a sua igreja e cada crente comparece diante do seu tribunal (2Co 5.10). O que está em jogo ali não é a salvação, porque para quem está em Cristo já não há condenação (Rm 8.1); o que se examina é o serviço, e o que se recebe ou se perde é o galardão. Paulo explica isso com a imagem de uma construção sobre o fundamento que é Cristo: o fogo prova a obra de cada um, e quem construiu com madeira, feno e palha sofre perda, mas ele mesmo é salvo (1Co 3.10-15).
Não há aí nenhum purgatório; há um crente salvo, que perde o que poderia ter ganhado. Pode haver perda, e pode haver vergonha diante dele na sua vinda (1Jo 2.28), mas não há perdição. É por esse dia que Paulo trabalha, e descreve o trabalho com dois verbos: correr, como o atleta no estádio, e esforçar-se, como quem labuta até a exaustão. Ele não teme ter sido inútil; afirma que não foi, e o que mede o seu trabalho não é o tamanho da obra, e sim a maturidade das pessoas.
Aplicação Para Hoje
Este versículo dá à vida cristã uma direção: trabalhar para aquele dia. Não para ser salvo, porque isso Cristo já fez, mas para que, naquele dia, o que fizemos com a salvação tenha valor diante dele. Swindoll conta que um amigo seu, Dave Roper, orava assim: “Senhor, não me deixe construir bacias para pássaros”.
Bacias para pássaros são bonitas, dão trabalho e não duram; são obra de madeira, feno e palha, e muito do que ocupa o nosso tempo é isso. Pensar no tribunal de Cristo não é viver com medo; é viver com foco, perguntando a cada escolha se ela resiste ao fogo. E o que resiste é sempre gente: o filho que aprendeu a orar, o irmão que foi sustentado numa crise, o vizinho que ouviu o evangelho.
O versículo também dá um critério para medir o nosso serviço. Paulo mede o trabalho dele pela maturidade dos outros, não pelo próprio brilho. Quem ensina na igreja local, quem lidera um grupo, quem cria filhos, tem aqui a pergunta certa: as pessoas que Deus me confiou estão segurando firme a palavra e brilhando onde vivem? E Paulo vai dizer, no versículo seguinte, até onde estava disposto a ir por esse motivo de glória.
6. A alegria de quem se oferece (Versículos 17 a 18)
Filipenses 2:17-18
“Entretanto, mesmo que eu seja oferecido como libação sobre o sacrifício e serviço da fé que vocês têm, fico contente e me alegro com todos vocês. Assim, também vocês, pela mesma razão, fiquem contentes e se alegrem comigo.”
Contexto Histórico e Cultural
O verbo “oferecido como libação”, spendō, pertence ao altar. A libação era o vinho derramado sobre o holocausto, a última parte do sacrifício, a que o completava (Êx 29.40-41; Nm 15.5); o animal era a oferta principal, e o vinho, a parte menor. Os filipenses conheciam as libações pagãs, mas Paulo pensa no altar de Israel, e o que ele diz é marcante pela humildade: a oferta principal é a dos filipenses, “o sacrifício e serviço da fé que vocês têm”. A vida deles, a fé em prática, a oferta que mandaram pelas mãos de Epafrodito (4.18), isso é o sacrifício. A vida dele, se for tirada, é só o vinho derramado por cima.
Paulo fala da possibilidade da própria morte. Ele diz “mesmo que” porque é uma hipótese, não uma previsão: ele espera ser solto e voltar a Filipos (1.25; v. 24). Mas, preso e aguardando julgamento, ele enfrenta a possibilidade assim: se o seu sangue for derramado, será como o vinho sobre o sacrifício deles. Anos depois, na segunda prisão, ele usará a mesma palavra, mas sem o “se”: “já estou sendo oferecido como libação, e o tempo da minha partida é chegado” (2Tm 4.6).
Lá a hipótese virou certeza, e a alegria é a mesma. E vale notar o que o vinho faz quando cai sobre o fogo do altar: a chama sobe mais alta. A morte de Paulo não diminuiria a oferta dos filipenses; a faria brilhar mais.
A palavra “serviço”, leitourgia, tinha dois sentidos. No Antigo Testamento grego era o serviço dos sacerdotes; em Filipos era o serviço público custeado do próprio bolso pelos cidadãos ricos, que pagavam um edifício, um jogo ou uma festa e recebiam em troca honra pública. Paulo aplica essa palavra de prestígio ao que uma igreja pequena e pobre fez pelo evangelho: uma honra maior do que qualquer coisa que os notáveis de Filipos pudessem comprar. É preciso ser claro, porém, sobre o que esse sacrifício não é.
Não é pagamento. Ninguém paga a Jesus de volta nem completa uma obra que ele deixou pronta: na cruz ele disse “está consumado” (Jo 19.30). Oferecer o corpo em sacrifício vivo é ordem que vem depois da misericórdia e por causa dela (Rm 12.1): é gratidão, não quitação. Por isso a passagem termina com quatro verbos de alegria: Paulo fica contente, alegra-se com eles, e manda que eles fiquem contentes e se alegrem com ele.
Não é gosto pela dor; ele mesmo fala de “tristeza sobre tristeza” quando pensa que Epafrodito podia ter morrido (v. 27). A alegria é pelo que o sacrifício produz: uma oferta aceitável a Deus, de que ele faz parte. Com esse exemplo ele prepara os dois seguintes, Timóteo e Epafrodito, que também se ofereceram.
Aplicação Para Hoje
A vida cristã, vista deste versículo, é uma oferta. Não para ganhar nada, porque tudo já foi ganho na cruz, mas por gratidão a quem ganhou. O serviço na igreja local, o dinheiro dado para o evangelho, o tempo gasto com quem precisa, tudo isso é “sacrifício e serviço da fé”, e Deus o recebe como oferta que sobe do altar. Quem entende isso serve sem fazer conta e sem esperar aplauso.
E aprende a se alegrar com a oferta dos outros. Paulo, o maior dos apóstolos, se vê como a parte menor sobre o sacrifício de uma igreja pequena, sem ciúme nem necessidade de ser o centro. Quando alguém se oferece de verdade, quando um casal deixa tudo para ir a um campo missionário ou um irmão gasta a saúde cuidando de outro, a nossa resposta deve ser a dos filipenses: alegrar-se com ele e cuidar dele. E se o sacrifício custar caro, ainda assim há alegria, porque a oferta não se perde.
Cristo foi, ele mesmo, o sacrifício completo, o Cordeiro sem defeito oferecido por nós. Tudo o que oferecemos é vinho derramado sobre a oferta dele, e o fogo que ele acendeu sobe mais alto. Foi para isso que fomos salvos: para desenvolver a salvação que recebemos, com reverência e na força de Deus, guardar a língua, brilhar no meio da noite, segurar firme a palavra e nos oferecer com alegria, de olhos no dia em que o veremos.
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Referências Bibliográficas
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