Série: Filipenses • Estudo Bíblico

Filipenses 2.19-30: A mente de Cristo em dois homens comuns

"Porque não tenho ninguém com esse mesmo sentimento e que se preocupe tão sinceramente por vocês. Filipenses 2:20"

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Depois do hino mais alto da carta, em que Cristo desce até a cruz e é exaltado pelo Pai (vv. 5-11), e depois de Paulo se apresentar como vinho derramado sobre a oferta dos filipenses (vv. 17-18), o texto parece mudar de assunto. Paulo passa a falar de viagens: quem vai, quem volta, quando. Ele escreve da prisão domiciliar em Roma e precisa dar notícias reais; ao dá-las, porém, escolhe as palavras do começo do capítulo. No v. 4 ele pediu que ninguém olhasse só para os próprios interesses; nos vv. 20-21, Timóteo é o homem que cuida do que é dos outros.

No v. 7 Cristo tomou a forma de servo; no v. 22, Timóteo serviu como escravo do evangelho. No v. 8 Cristo foi obediente até a morte; no v. 30, Epafrodito chegou até a morte. A agenda do apóstolo vira ilustração do hino.

O fio que vamos acompanhar é este: a mente de Cristo cabe em gente comum. Paulo a mostra em um filho na fé que cuida de verdade dos outros e em um irmão que pôs a vida em risco para servir, e manda a igreja local reconhecer e honrar gente assim. Se alguém pensava que o exemplo de Cristo era alto demais e o de Paulo, privilégio de apóstolo, aqui estão dois homens que a igreja conhecia pelo nome.

1. Planos feitos no Senhor (Versículo 19)

Filipenses 2:19
“2.19 Espero no Senhor Jesus enviar-lhes Timóteo o mais breve possível, a fim de que eu me sinta animado também ao receber notícias de vocês.”

Contexto Histórico e Cultural

No v. 17 Paulo admitiu que podia morrer; a frase seguinte traz um nome, um destino e um prazo. Quem está pronto a morrer pelo evangelho continua cuidando da agenda dos vivos, e o modo como o plano é feito já faz parte da lição. “Espero no Senhor Jesus” não é uma fórmula piedosa colada no fim da frase.

Poucas linhas antes, Paulo escreveu que Deus deu a Jesus o nome acima de todo nome, para que toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor (vv. 9-11). Quem confessa isso não faz planos como dono do calendário. O apóstolo decide, marca prazo, escolhe quem vai, e deixa tudo sob o governo desse Senhor.

O verbo “espero” não é o “tomara” do português corrente. É a palavra da esperança bíblica, a expectativa confiante que nasce da fé. Paulo espera porque sabe em quem espera. A Escritura conhece dois erros nesse ponto: planejar como se o amanhã nos pertencesse, o que Tiago repreende (Tg 4.13-15), e não planejar nada e chamar isso de fé. Paulo faz planos com nome e data e os entrega, como em outra carta: “espero permanecer algum tempo com vocês, se o Senhor o permitir” (1Co 16.7).

O plano custava caro. Entre Roma e Filipos havia cerca de um mês de viagem, e Timóteo iria e voltaria. Paulo se dispõe a ficar sem o seu cooperador mais próximo, preso e necessitado como está, só para saber da igreja. E, com o julgamento por decidir, ele não pede notícia do processo; pede notícia dos filhos na fé.

O verbo “animado”, eupsycheō, era fora da Bíblia a palavra das lápides e das cartas de pêsames, o “tenha ânimo” dito a quem chorava. Paulo acabou de falar da própria morte e usa o verbo dos consolos para dizer de onde lhe vem o consolo: de saber que a igreja vai bem. É a alegria de João: “Não tenho maior alegria do que esta, a de ouvir que os meus filhos vivem de acordo com a verdade” (3Jo 4).

Aplicação Para Hoje

O que anima alguém mostra onde ele mora. Quem só se alegra com a própria soltura ou o próprio emprego ainda não chegou ao v. 4. Quem se alegra ao saber que um irmão está firme, que um filho na fé cresceu, que uma igreja distante se reconciliou, já começou a pensar como Cristo. Hoje a pergunta “como vocês estão?” viaja em segundos; para Paulo, custava meses do melhor homem que ele tinha.

O que uma igreja vale para alguém se mede pelo que ele gasta para saber dela. Entre nós, saber de um irmão custa um telefonema, uma visita, uma tarde. Cada um pode escolher, nesta semana, alguém de quem não tem notícia e procurar essa pessoa.

E há o modo de planejar. Mudança de emprego, viagem, casamento, a agenda da igreja local: fazemos os planos com data e os entregamos a quem é Senhor. Isso não é insegurança, é descanso. O versículo seguinte vai dizer por que, entre tantos, Paulo escolheu justamente Timóteo.

2. Um homem que cuida de verdade dos outros (Versículos 20 a 21)

Filipenses 2:20-21
“Porque não tenho ninguém com esse mesmo sentimento e que se preocupe tão sinceramente por vocês. Todos os outros buscam os seus próprios interesses e não os de Jesus Cristo.”

Contexto Histórico e Cultural

O “porque” explica a escolha. A NAA diz “esse mesmo sentimento”; o grego tem uma só palavra, isopsychos, “de alma igual”, que no Antigo Testamento grego descreve o amigo mais chegado do salmista, “homem meu igual, meu companheiro e meu íntimo amigo” (Sl 55.13). Igual a quem? A Paulo: quem vai representar o apóstolo é quem sente como ele.

Mas o conteúdo desse “igual” não é temperamento. É o modo de pensar que Paulo pediu à igreja inteira no começo do capítulo: o mesmo amor, uma só alma, nada por interesse pessoal ou vaidade, cada um cuidando do que é dos outros (vv. 2-5). Timóteo é esse pedido com nome próprio.

“Tão sinceramente” traduz uma palavra que vem do vocabulário da família: é a do filho legítimo, em contraste com o adotivo e o ilegítimo, e daí passou a significar “genuíno”. Timóteo cuida dos filipenses de verdade, não por salário nem para engordar o currículo. E esse cuidado não era dom de nascença: ele aprendeu a ser servo andando com o Senhor e servindo ao lado de Paulo. O verbo “se preocupe” é o mesmo de 4.6, onde Paulo manda não se preocupar com coisa alguma; o que muda é o objeto. A ansiedade de 4.6 gira em torno de mim e se trata com oração; o cuidado de Timóteo sai de mim na direção do irmão e vira oração, visita e estrada.

Então vem a frase dura: “Todos os outros buscam os seus próprios interesses”. De quem Paulo fala? Dos crentes ao seu alcance em Roma, que poderiam ser enviados. É um contraste largo, não um censo: no fim da carta ele manda a saudação dos “irmãos que estão comigo” (4.21). E fala-se de crentes: buscar o que é seu não prova que alguém não seja salvo.

Timóteo é o único, entre os disponíveis, de alma igual. A expressão “os seus próprios interesses” é a mesma do v. 4, e Paulo descreve gente que faz o contrário do que ele acabou de pedir. E note: esperava-se “e não os dos outros”, mas Paulo escreve “e não os de Jesus Cristo”, porque no contexto os interesses de Cristo são o bem dos irmãos de Filipos. Quem diz buscar a Cristo e não tem tempo para os irmãos de Cristo ainda busca o que é seu.

Aplicação Para Hoje

Wiersbe transformou o contraste numa frase que cabe em qualquer púlpito: todos nós vivemos ou em Filipenses 1.21 ou em Filipenses 2.21. Num endereço mora quem diz “para mim o viver é Cristo”; no outro, quem busca o que é seu. Os nomes desse “seu” são conhecidos: emprego, carreira, estudos, filhos. Nada disso é pecado; o desvio está em ocuparem o lugar todo.

O versículo não mede quem é salvo; mede para quem o salvo está vivendo. O crente que está crescendo pergunta o que pode fazer para servir ao Senhor; o que vive para si pergunta o que a vida lhe deve. E o que se faz por reconhecimento será, no tribunal de Cristo, madeira, feno e palha (1Co 3.12-15), porque ali se avalia o motivo.

Também vale perguntar quem cuida dos irmãos na igreja local. Filipos tinha bispos e diáconos, no plural (1.1), mas o verbo de Timóteo é o que Paulo atribui a todos os membros do corpo, que devem cuidar “com igual cuidado, em favor uns dos outros” (1Co 12.25). Saber como está o irmão que faltou três domingos é de todos os irmãos e, de modo próprio, dos presbíteros, a quem cabe velar pelo rebanho (At 20.28). Onde só um ou dois se importam, a igreja repete o quadro do v. 21. Paulo tinha um que se importava, e os filipenses o conheciam, como o versículo seguinte vai lembrar.

3. Um caráter provado, formado ao lado do pai (Versículos 22 a 24)

Filipenses 2:22-24
“Quanto a Timóteo, vocês conhecem o seu caráter provado, pois serviu ao evangelho, junto comigo, como um filho trabalha ao lado do pai. Portanto, este é quem espero enviar, tão logo eu saiba como vai ficar a minha situação. Mas confio no Senhor que também eu mesmo em breve irei até aí.”

Contexto Histórico e Cultural

“Caráter provado” traduz dokimē, palavra da mesma família do ouro “apurado pelo fogo” (1Pe 1.7): o que passou pelo teste e foi aprovado. Não é promessa nem currículo, é metal já ensaiado pela tribulação e pela perseverança (Rm 5.3-4). Timóteo já servia ao lado de Paulo havia mais de dez anos.

É preciso dizer o que a palavra não mede: é aprovação no serviço, não teste de salvação. A vida eterna é dom recebido pela fé, sem obras; o que a prova mostra é a quem se pode confiar uma tarefa. E os filipenses o conheciam desde a fundação da igreja (At 16.1-3, 12).

Esse caráter tem história. Timóteo era de Listra, filho de mãe judia crente e de pai grego, e a fé lhe chegou pela casa: a avó Loide, a mãe Eunice (2Tm 1.5) e as Escrituras conhecidas desde a infância (2Tm 3.14-15). Paulo viu algo naquele jovem de quem os irmãos davam bom testemunho, deixou-o crescer na igreja da sua região e só depois o chamou. A imagem do versículo é de oficina, não de berço: no mundo de Paulo o filho aprendia o ofício trabalhando ao lado do pai.

E a frase grega tropeça de um jeito que ensina: começa como quem vai dizer “ele me serviu” e termina “serviu comigo”. Quem podia cobrar obediência de discípulo põe o discípulo ao seu lado, porque lembra que ele mesmo é servo. O verbo é forte, douleuō, servir como escravo: é a família de 1.1, onde Paulo e Timóteo são “servos de Cristo Jesus”, e do v. 7, onde o Senhor assume “a forma de servo”. Timóteo fez na estrada o que Cristo fez na encarnação: tomou o lugar de servo.

Nos vv. 23-24 Paulo volta aos planos. Timóteo irá assim que houver um sinal do desfecho do processo, para levar a notícia inteira. Para a ida de Timóteo ele diz “espero”; para a sua, “confio”, o mesmo verbo de convicção com que afirmou em 1.6 que Deus completará a sua obra, e tudo indica que ele de fato saiu dessa prisão.

“Também eu mesmo” é enfático: um enviado de confiança não dispensa a presença de quem ama a igreja. Timóteo vai como enviado de Paulo, por tempo curto, e não como dirigente instalado numa igreja que já tinha a sua liderança plural. As duas pontas do parágrafo trazem a mesma cláusula, “no Senhor”: “O coração do ser humano traça o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos” (Pv 16.9).

Aplicação Para Hoje

Caráter provado tem história, e a de Timóteo começa com gente que investiu nele: uma avó, uma mãe, um homem mais velho que o levou junto. Quem é mais velho na fé deveria ter um nome em quem investe: estudar a Bíblia com ele, levá-lo a uma visita, dar-lhe uma tarefa. A igreja local que quer presbíteros e servidores provados amanhã começa hoje, porque a Escritura é clara: “devem ser primeiramente experimentados” (1Tm 3.10), e o presbítero não pode ser recém-convertido (1Tm 3.6). Não se preenche vaga com quem estiver à mão. A pergunta do v. 22 é a que a liderança da igreja faz antes de confiar uma tarefa: os irmãos conhecem o caráter provado desta pessoa?

E há a lição dos planos entregues. Paulo faz planos com nomes, ordem de partida e prazos possíveis, e os deixa na mão do Senhor. Quem foi comprado por Cristo e lhe pertence pode planejar com ousadia e soltar com paz. Timóteo irá depois; Paulo, se Deus quiser, depois ainda. Quem chega agora, com a carta na mão, é outro, e Paulo o apresenta com cinco títulos.

4. Cinco títulos de serviço para um irmão comum (Versículo 25)

Filipenses 2:25
“No entanto, julguei necessário enviar-lhes Epafrodito, meu irmão, cooperador e companheiro de lutas, e, da parte de vocês, mensageiro e auxiliar nas minhas necessidades.”

Contexto Histórico e Cultural

“Julguei necessário” está no passado porque Paulo escreve do ponto de vista de quem lê: quando a carta for aberta em Filipos, Epafrodito já estará na sala, porque é ele quem a leva. O “espero” dito de Timóteo dá lugar a um “é preciso”, e foi Paulo quem decidiu a volta. Seu nome quer dizer “favorecido de Afrodite”, a deusa pagã, e ninguém, nem Paulo, lhe pediu que o trocasse. O evangelho não começou por rebatizar pessoas; começou por mudar a quem elas servem.

A frase empilha cinco títulos, quando em nenhuma outra recomendação Paulo passa de três. Para entender o excesso, é preciso lembrar que Filipos era colônia romana, povoada de veteranos, em que cargos e títulos eram gravados em pedra e a vida pública era uma escada de honras. Paulo fala a língua que Filipos entendia e a vira do avesso: distribui títulos, mas a quem carregou uma oferta e cuidou de um preso. Os três primeiros dizem o que Epafrodito é para Paulo.

Irmão: antes de função, família. Cooperador: palavra de quem trabalha junto, não de quem assiste. Companheiro de lutas: camarada de armas, título que os generais romanos davam à tropa. A luta, porém, é espiritual (Ef 6.12), e quem se põe a servir no corpo de Cristo vira alvo.

Os dois últimos dizem o que ele é da parte da igreja. “Mensageiro” traduz apostolos, a mesma palavra que designa os Doze e Paulo, e por isso pede cuidado. Há o apóstolo comissionado diretamente pelo Cristo ressuscitado, com os sinais de 2Co 12.12; e há o enviado de uma igreja local, como os irmãos chamados “mensageiros das igrejas” (2Co 8.23). O possessivo decide: Epafrodito é enviado “de vocês”, não de Cristo. E nenhum dos cinco títulos é nome de cargo: nem bispo, nem diácono.

O quinto, “auxiliar”, leitourgos, era entre os gregos quem prestava um serviço público à própria custa e, no Antigo Testamento grego, o sacerdote ou levita no templo. Paulo dá essa palavra a um irmão que viajou com uma oferta, e sabia o que fazia: em 4.18 chama essa oferta de “um sacrifício que Deus aceita”. Não há na igreja uma classe que faz o serviço sagrado e outra que assiste: levar a um preso a oferta dos irmãos é serviço de altar. E a necessidade era concreta: Roma não sustentava os seus presos, e Paulo, em casa alugada e sob guarda, dependia do que amigos lhe traziam.

Aplicação Para Hoje

Woods tem uma frase para isso: o evangelho é de graça, mas alguém tem de instalar o encanamento. Toda igreja local vive de irmãos assim: quem abre a casa, quem prepara a mesa da ceia, quem leva a oferta ao obreiro, quem visita o enfermo, quem cuida das crianças enquanto os pais ouvem a Palavra. Nenhum dos títulos de Epafrodito fala de talento; todos falam de disponibilidade. Paulo lhe deu cinco títulos; convém que a igreja ao menos saiba os nomes dos seus.

E quem serve entra numa luta: cansaço, oposição e desânimo não são sinal de que se errou o caminho, são sinal de que se está no campo, e a arma dessa luta é a Palavra. Cristo, o Senhor diante de quem todo joelho se dobrará, é quem comissiona e quem sustenta. Os títulos dizem quem Epafrodito é; os dois versículos seguintes dizem o que lhe custou.

5. Um servo adoece e Deus tem misericórdia (Versículos 26 a 27)

Filipenses 2:26-27
“Ele tinha muita saudade de todos vocês e estava angustiado porque vocês ficaram sabendo que ele adoeceu. De fato, adoeceu e estava à beira da morte. Mas Deus se compadeceu dele — e não somente dele, mas também de mim —, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza.”

Contexto Histórico e Cultural

Paulo descreve o estado de Epafrodito com dois verbos. “Saudade” é o mesmo verbo com que o apóstolo abriu a carta, “saudade que tenho de todos vocês” (1.8); quem lê isso como fraqueza terá de dizer o mesmo de Paulo. “Angustiado”, adēmoneō, é o verbo do Getsêmani, onde Jesus “começou a sentir-se tomado de tristeza e de angústia” (Mt 26.37). Angústia não é pecado; pecado é o que se faz com ela.

E repare do que ele se aflige: não da doença. Ele sofre por saber que os irmãos sofrem por ele. Quase todos nós, doentes, só pensamos em nós mesmos; este homem, no leito, pensava no peso que causava aos outros. É o v. 4 visto do avesso.

Qual foi a doença, o texto não diz, e não vale adivinhar. O que o texto diz é a ocasião: o v. 30 a liga à obra de Cristo. Epafrodito não adoeceu por ter saído da vontade de Deus; adoeceu dentro dela. Isso desmonta a doutrina de que todo crente deve andar em saúde e de que, se não anda, falta-lhe fé: Paulo deixou Trófimo doente em Mileto (2Tm 4.20), aconselhou vinho a Timóteo por causa do estômago (1Tm 5.23) e ouviu, sobre o próprio espinho, “A minha graça é o que basta para você” (2Co 12.9). Não há garantia de saúde deste lado da volta de Cristo.

“Mas Deus se compadeceu dele”: o sujeito da recuperação é Deus. Paulo não diz que o curou, nem que a fé do doente o curou, nem descreve o meio. Misericórdia é o que se recebe sem poder exigir, e o apóstolo não se julgava com direito de reclamar a cura nem para um obreiro tão fiel. E se Paulo curou tantos em Atos, por que não curou o amigo?

Os sinais de cura credenciaram os apóstolos e a mensagem (2Co 12.12; Hb 2.3-4) e nunca foram um poder à disposição de Paulo. Cessou o dom, não o agir de Deus. Dean resume a posição com cuidado: cremos que Deus pode intervir, mas não cremos que a intervenção dele seja a experiência normal da vida cristã. Deus continua curando quando quer, em resposta à oração e pelos meios que ele mesmo deu.

E a misericórdia alcança quem cuida: Deus poupou o doente da morte e o amigo do luto. “Tristeza sobre tristeza” é a dor da prisão somada ao luto que viria. Quem fala é o mesmo homem que escreveu “o morrer é lucro” (1.21), e não há contradição: a morte é lucro para quem parte e continua sendo inimiga (1Co 15.26), e perder um irmão dói. Nesta carta, alegria não é ausência de tristeza; é a capacidade de alegrar-se no meio dela.

Aplicação Para Hoje

Dois versículos corrigem muita coisa dita em nome de Deus. Quem está doente não é crente de segunda classe: Epafrodito adoeceu servindo, e a doença não mediu a fé dele. Ora-se pela cura e procura-se o médico; as duas coisas honram a Deus, que cura quando quer e como quer.

Ninguém prometa cura em nome de Deus, porque Paulo não a prometeu ao amigo. E não se cobra sorriso de quem chora: o apóstolo que manda alegrar-se no Senhor falou, sem pudor, de tristeza sobre tristeza. O evangelho não proíbe chorar; proíbe chorar “como os demais, que não têm esperança” (1Ts 4.13).

O que a igreja faz com o doente está no próprio trecho: os presbíteros e os irmãos visitam, oram, ajudam nas despesas e na casa, fazem companhia a quem cuida, porque “se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1Co 12.26). E quem acompanha um enfermo, o cônjuge, o filho, o irmão que passa a noite no hospital, também está sob o olhar de Deus. Deus teve misericórdia. E a igreja, o que faz com o irmão que volta? Paulo responde com duas ordens.

6. Honrem os que são como ele (Versículos 28 a 30)

Filipenses 2:28-30
“Por isso, tanto mais me apresso em mandá-lo, para que, vendo-o novamente, vocês fiquem alegres e eu tenha menos tristeza. Recebam-no, pois, no Senhor, com toda a alegria, e honrem sempre os que são como ele. Porque, por causa da obra de Cristo, ele quase morreu, arriscando a própria vida, para suprir a ajuda que vocês não podiam me dar pessoalmente.”

Contexto Histórico e Cultural

Há generosidade no v. 28. Epafrodito era grande bênção em Roma, e Paulo o devolve assim mesmo, de olho nos filipenses e não em si; por isso diz “menos tristeza”, não nenhuma. A igreja que só sabe reter obreiros ainda não aprendeu este versículo.

“Recebam-no, pois, no Senhor, com toda a alegria” é linguagem de carta de recomendação, a mesma que Paulo usa para Febe (Rm 16.2). Há quem leia nas entrelinhas uma defesa contra críticas a Epafrodito; o texto não fala de crítica. Se alguém estranhasse a volta antecipada, a resposta já estava dada: foi Paulo quem o mandou, e ele volta com honra.

“Honrem sempre os que são como ele”: a palavra é a de Cristo, a pedra “eleita e preciosa” (1Pe 2.4, 6). A ordem é para sempre e o objeto é plural: é hábito da igreja para com os que são como ele, homens e mulheres que servem ao Senhor. Na colônia em que a honra ia para cargos e benfeitores, Paulo manda honrar um homem cuja credencial é ter arriscado a vida a serviço de um Messias crucificado.

Isso não contradiz a humildade do capítulo: Cristo se esvaziou e Deus o exaltou. A honra, porém, não cria classe. Reconhece trabalho, não posto: “Tenham essas pessoas em máxima consideração, com amor, por causa do trabalho que realizam” (1Ts 5.13).

“Por causa da obra de Cristo”: que obra? Epafrodito não fundou igreja nem pregou a multidões; carregou uma oferta e cuidou de um preso, e Paulo chama isso de obra de Cristo. Pentecost pergunta se cozinhar uma refeição e levá-la a quem não pode sair de casa é obra de Cristo, e responde: servir numa função despercebida e sem reconhecimento na igreja é tanto obra de Cristo quanto o ministério do púlpito. “Ele quase morreu” traduz uma expressão com “até a morte”, que nas cartas de Paulo só aparece aqui e no v. 8, onde Cristo se fez “obediente até a morte”.

O eco é de propósito: Cristo não se agarrou ao que era seu, e Epafrodito não se agarrou à própria vida. O servo anda nas pegadas do Servo, com a diferença de que Epafrodito não morreu. “Arriscando a própria vida” traduz um verbo com sabor de aposta: ele apostou a vida, e foi risco calculado, não descuido.

A última oração não censura a igreja. “Suprir a ajuda que vocês não podiam me dar pessoalmente” usa as mesmas palavras com que Paulo diz que Estéfanas “supriu o que faltava da parte de vocês” (1Co 16.17): o que faltava não era generosidade, era a presença de uma igreja que está longe, como Paulo dirá em 4.10. Epafrodito foi as mãos e os pés de uma igreja inteira, e o que ele completou é “serviço”, a palavra do v. 17: a oferta deles e o serviço dele são culto.

Aplicação Para Hoje

O elogio pede duas cautelas. O texto não elogia o desprezo pela saúde: Paulo não diz que Epafrodito fez bem em adoecer, diz que ele se expôs por causa da obra de Cristo. Zelo não é descuido, e quem serve continua responsável pelo corpo que Deus lhe deu. E o texto não autoriza ninguém a explorar quem serve.

Diante de um obreiro esgotado, Paulo o devolve para casa, mesmo precisando dele, e manda a igreja honrá-lo. A igreja local que consome os seus servos e depois os esquece lê o v. 30 pela metade. Dentro desses limites, o exemplo fica de pé: cabe a nós servir e deixar com o Senhor o cuidado da nossa vida. Epafrodito pôde arriscar a vida porque ela não lhe pertencia; fora comprada por Cristo.

A ordem do v. 29 é para a igreja de hoje. Reconhecer, em público e em particular, quem cuida das crianças, quem visita, quem abre a casa, quem serviu por décadas sem aparecer. Numa igreja sem clero, isso se faz com gratidão dita, com cuidado prático e com sustento. Orar pelos obreiros pelo nome, sustentá-los e recebê-los bem quando voltam cansados ou doentes, sem cobrança, é obedecer a este versículo. O capítulo começou pedindo o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus (v. 5).

Dois homens o tiveram, sem deixar de ser gente comum. Cristo é o Criador que se fez servo e morreu em nosso lugar; só a morte dele salva, e os dois não acrescentam nada à cruz. O que mostram é o fruto dessa obra em quem já foi salvo por ela: gente que, por ter sido servida pelo Senhor, serve. Ficam as duas perguntas do trecho: de quem eu tenho cuidado de verdade? E a quem, na minha igreja local, devo honra?

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Referências Bibliográficas

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• Texto bíblico: Nova Almeida Atualizada (NAA), Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. Texto grego: SBLGNT, com a análise do MorphGNT.

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