Série: 1 Timóteo • Estudo Bíblico

1 Timóteo 5.17-25: Como a igreja honra, protege, corrige e escolhe os seus presbíteros

"Quanto aos que vivem no pecado, repreenda-os na presença de todos, para que também os demais temam. 1 Timóteo 5:20"

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Vídeo resumo

Em 3.1-7 Paulo disse quem pode ser presbítero. Agora diz como a igreja deve tratar os que já estão servindo. O trecho pertence à parte da carta em que ele instrui Timóteo sobre os grupos da igreja de Éfeso: os idosos e os jovens (5.1-2), as viúvas (5.3-16), os presbíteros (5.17-25) e os escravos (6.1-2). Duas palavras costuram o conjunto.

“Presbítero” é, em 5.1, o homem idoso; aqui, o irmão que preside a igreja. E “honra” liga as viúvas, que a igreja honra sustentando (5.3), aos presbíteros, que merecem “pagamento em dobro”. Paulo precisa dizer tudo isso porque Éfeso tinha falsos mestres, e ele já avisara aos presbíteros daquela igreja que “até mesmo entre vocês se levantarão homens falando coisas pervertidas” (At 20.30). É provável que parte do problema viesse de presbíteros desviados, e isso explica por que um trecho que começa honrando presbíteros passa logo a falar de acusação, repreensão e cautela na escolha.

Nestes nove versículos, Paulo ensina que, na casa de Deus, os que presidem e ensinam não são donos do rebanho, mas também não são descartáveis. A igreja os honra com respeito e sustento, protege-os da calúnia, corrige-os quando persistem no pecado e escolhe os próximos sem pressa, e faz tudo isso diante de Deus, de Cristo e dos anjos, sem favoritismo. O movimento vai da honra à proteção, da proteção à correção e da correção à prevenção, e a ordem importa: Paulo começa pelo que a igreja deve aos presbíteros fiéis e só depois trata dos que falham. O que uma igreja faz com os que a ensinam mostra o que ela pensa da Palavra que eles ensinam.

1. Os presbíteros que presidem bem merecem honra dobrada (Versículo 17)

1 Timóteo 5:17
“Devem ser considerados merecedores de pagamento em dobro os presbíteros que presidem bem, especialmente os que se esforçam na pregação da palavra e no ensino.”

Contexto Histórico e Cultural

Os presbíteros deste versículo são os mesmos “bispos” de 3.1-7. Paulo manda Tito constituir “presbíteros” em Creta e, dois versículos adiante, fala do “bispo” (Tt 1.5-7); e, na última viagem a Jerusalém, parado no porto de Mileto, perto de Éfeso, manda chamar “os presbíteros da igreja” de Éfeso para se despedir e lhes diz que o Espírito os pôs “como bispos, para pastorearem a igreja de Deus” (At 20.17, 28). São dois nomes para o mesmo serviço: “presbítero” aponta a maturidade, “bispo” aponta a supervisão, e pastorear é o que eles fazem.

O verbo “presidir”, proistēmi, é estar à frente cuidando; é o mesmo de 3.4-5, o bispo que “governa bem a própria casa”. E a forma do verbo descreve quem esteve e continua à frente; o advérbio “bem” mede a qualidade do serviço, não o cargo. O plural pesa: a igreja local é presidida por presbíteros, vários, e não por um homem só.

Entre os que presidem bem, Paulo destaca “os que se esforçam na pregação da palavra e no ensino”. O verbo é kopiaō, labutar até o cansaço, o mesmo de 1Co 15.10, “trabalhei muito mais do que todos eles”. Ensinar não é ocupação lateral do presbítero; é trabalho que gasta, e numa cidade onde os falsos mestres ensinavam “outra doutrina” (1.3), quem se gastava em ensinar a verdade sustentava a igreja. A palavra traduzida por “especialmente”, malista, decide como se lê o versículo.

Há quem leia aqui duas classes de presbíteros, os que governam e os que ensinam; mas 3.2 exige que todo presbítero seja “apto para ensinar”, e a leitura mais natural é esta: um só corpo de presbíteros, iguais entre si, todos presidindo e todos aptos a ensinar, e, dentro dele, alguns que se dedicam com labor maior à pregação e ao ensino, conforme o dom e o tempo de que dispõem. A diferença é de função, não de ordem nem de posição. Wiersbe lembra que governar sem ensinar realizaria muito pouco, porque não se pode governar bebês: se os crentes não forem alimentados pela Palavra, ficarão fracos e só criarão problemas.

E a honra. A palavra é timē, da mesma raiz do “honre as viúvas” de 5.3, onde honrar era sustentar; fora da Bíblia ela cobre honra, preço e até honorário, e a NAA já traduz pelo sentido, “pagamento em dobro”. As duas citações do v. 18, sobre o boi que come e o trabalhador que recebe, confirmam que o sustento está incluído.

O “dobro”, porém, não é tabela que paga duas vezes mais: é respeito somado a sustento generoso, proporcional ao trabalho. Paulo escreve num mundo em que ensinar por dinheiro despertava suspeita, e ele mesmo lembra aos tessalonicenses que trabalhou “de noite e de dia para não vivermos à custa de nenhum de vocês” (1Ts 2.9). Por isso a honra dobrada não alimenta a ganância; reconhece o trabalho de quem não é avarento (3.3).

Aplicação Para Hoje

O crente comum tem aqui um espelho da própria gratidão. Quem ensina a Palavra a você gasta horas que ninguém vê: o estudo da semana, o preparo da aula, a visita depois do trabalho. A honra começa com o respeito de ouvir com atenção, de não tratar o ensino como opinião entre outras, de orar por quem ensina. E inclui, quando um irmão se dedica ao ensino a ponto de comprometer o sustento da família, a provisão generosa, porque “aquele que está sendo instruído na palavra compartilhe todas as coisas boas com aquele que o instrui” (Gl 6.6).

Para a igreja local, o versículo não obriga a manter todos os presbíteros em tempo integral, nem proíbe que alguns o sejam. Em muitas igrejas os presbíteros servem sem remuneração, trabalham de carteira assinada e ensinam à noite, e isso é legítimo; o que o versículo condena é a ingratidão e a avareza da igreja para com quem se gasta no ensino. E lembra que a liderança é de vários, iguais entre si, porque o rebanho tem um só Dono. Os presbíteros pastoreiam “a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28), e toda autoridade deles é delegada pelo Pastor que deu a vida pelas ovelhas (Jo 10.11). É em nome dele que Paulo vai buscar, no versículo seguinte, a base do sustento.

2. Não amordace o boi, porque o trabalhador é digno do seu salário (Versículo 18)

1 Timóteo 5:18
“Pois a Escritura declara: “Não amordace o boi quando ele pisa o trigo.” E, ainda: “O trabalhador é digno do seu salário.”

Contexto Histórico e Cultural

O v. 18 dá a razão do anterior e traz duas autoridades sob uma só fórmula: “a Escritura declara”. A primeira é a Lei de Moisés, Dt 25.4. A cena é a eira, o terreiro em que se debulhava o trigo: os bois andavam em círculos sobre as espigas espalhadas, ou puxavam um trenó de debulha, até soltar o grão, e a Lei proibia a focinheira; o animal comia enquanto trabalhava, e amordaçá-lo era costume de lavrador avarento. Paulo já usara esse versículo em 1Co 9.9-14 e ali mostrou como o lê: “Por acaso Deus está preocupado com bois?”, e responde que “é por nossa causa que isso está escrito”.

Não é alegoria que dissolve o sentido; o boi tinha mesmo de comer. É um princípio de justiça que vai do menor ao maior: se a Lei cuida do boi, cuida mais ainda do homem que trabalha na seara de Deus. A conclusão de 1Co 9.14 é a mesma deste versículo: “o Senhor ordenou aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho”.

A segunda citação coincide, palavra por palavra, com Lc 10.7, onde Jesus envia os setenta: “o trabalhador é digno do seu salário”. O que chama a atenção é a fórmula. “A Escritura declara” introduz a Lei e, ligada por “e, ainda”, a palavra de Jesus.

Há quem entenda que a fórmula cobre só a primeira citação; mas a leitura mais natural da frase é que uma só fórmula governa as duas, e Paulo põe a palavra de Jesus, registrada no Evangelho de Lucas, no mesmo nível da Lei. É um testemunho precoce de que os escritos do Novo Testamento eram reconhecidos como Escritura já na geração dos apóstolos, como Pedro faria com as cartas de Paulo, postas ao lado das “demais Escrituras” (2Pe 3.16). A igreja que honra quem ensina honra, no fundo, a palavra do seu Senhor.

Direito ao sustento não é obrigação de recebê-lo. Paulo renunciou a ele em Corinto, “para não criarmos obstáculo ao evangelho de Cristo” (1Co 9.12), e em Éfeso lembrou aos presbíteros: “estas minhas mãos serviram para o que era necessário a mim e aos que estavam comigo” (At 20.34). A renúncia é escolha de quem serve, não regra imposta a ele. E o outro lado também está na carta: o bispo deve ser “não avarento” (3.3), os falsos mestres faziam da piedade “fonte de lucro” (6.5), e Pedro manda pastorear “não por ganância, mas de boa vontade” (1Pe 5.2). O sustento é dever da igreja, e o desapego, dever de quem ensina.

Aplicação Para Hoje

Amordaçar o boi tem formas modernas. Uma é deixar passar necessidade o irmão que se dedica ao ensino. Outra, mais comum, é sobrecarregar quem ensina com reuniões, tarefas e pedidos que outros poderiam atender, até que não sobre tempo para a Palavra. Os diáconos e os demais irmãos liberam os presbíteros para a Palavra, como os sete de Atos 6 liberaram os apóstolos (At 6.2-4).

E o crente que recebe ensino de graça não deve concluir que ele custou pouco a quem o deu. O irmão que dá uma aula por semana estudou várias horas para ela; o que prepara a mensagem de domingo passou a semana com o texto; e os dois fizeram isso depois de bater o ponto, de buscar os filhos na escola e de cuidar da casa. Reconhecer esse custo é o primeiro passo da honra; o segundo é não deixar que a família de quem ensina pague a conta sozinha.

Para a igreja local, as duas citações tiram o sustento do campo da opinião e o põem no da obediência: a Lei e o Senhor dizem a mesma coisa. Quando os dois lados cumprem a sua parte, ninguém fica amordaçado e ninguém faz da Palavra um negócio. E a honra devida a quem ensina não isenta ninguém de prestar contas; pelo contrário, quem lidera responde mais, e é disso que Paulo passa a tratar: a mesma Escritura que manda sustentar o presbítero manda protegê-lo e corrigi-lo.

3. Nenhuma acusação contra presbítero sem duas ou três testemunhas (Versículo 19)

1 Timóteo 5:19
“Não aceite denúncia contra presbítero, a não ser exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas.”

Contexto Histórico e Cultural

Da honra, Paulo passa à proteção. A palavra traduzida por “denúncia”, katēgoria, não é queixa qualquer: é a acusação formal, a que se leva a um tribunal, a mesma da pergunta de Pilatos sobre Jesus (Jo 18.29). E o verbo diz que Timóteo não deve sequer “aceitar” a denúncia, dar-lhe entrada; a exigência vale no momento em que se pensa em abrir o processo, não só no julgamento, porque até a acusação de que o presbítero sai absolvido deixa marcas no seu trabalho. A regra vem da Lei de Moisés: “uma só testemunha não se levantará contra ninguém” (Dt 19.15), e Jesus a trouxe para a igreja: “para que, pela palavra de duas ou três testemunhas, toda questão seja confirmada” (Mt 18.16). Ela vale para qualquer crente; Paulo a repete aqui por causa dos presbíteros, pela visibilidade deles e porque alguns, em Éfeso, estavam de fato pecando.

O presbítero é alvo fácil. Quem preside, corrige e ensina contraria vontades, e ninguém está mais exposto ao ataque de Satanás na forma de boato e calúnia do que o servo de Deus. As testemunhas são pessoas que viram os fatos, não duas ou três que ouviram o mesmo boato e o repassaram; a denúncia pode partir de uma só pessoa, mas precisa ser confirmada por testemunhas antes de ir adiante. Strauch resume a regra: os nossos juízos devem ser governados por fatos, provas e testemunhas, e não por boatos.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não põe o presbítero acima da crítica nem da correção; o versículo seguinte vai mostrar que a proteção não é imunidade. O que a regra fecha é a porta ao mexerico, não à verdade.

Aplicação Para Hoje

Quem ouve uma acusação contra um presbítero tem uma pergunta a fazer antes de qualquer outra: quem viu? Se a resposta é “todo mundo está comentando”, a conversa deve parar ali. O irmão que repassa a história no grupo de mensagens, que comenta na porta da reunião, que “só queria que você soubesse”, está fazendo o que o versículo proíbe, e o boato que ele espalha pode derrubar um ministério fiel. Muitos homens piedosos foram vencidos assim, e alguns deixaram de servir. Onde há fumaça nem sempre há fogo; às vezes há uma língua “posta em chamas pelo inferno” (Tg 3.6).

Para a igreja local, a regra pede método. A acusação formal é ouvida pelos presbíteros com as testemunhas dos fatos; o acusado é ouvido antes de qualquer conclusão, porque “quem responde antes de ouvir comete insensatez” (Pv 18.13); e o que se decide fica registrado. Rede social e conversa de corredor não são tribunal.

E a mesma Escritura que protege o presbítero protege a igreja: quando há crime, as autoridades civis também têm o seu papel (Rm 13.1-4), e a regra das testemunhas nunca serve para esconder o que é grave. Cristo foi condenado por falsas testemunhas (Mt 26.59-60); a igreja dele não condena ninguém assim. Mas, quando a acusação é verdadeira, o versículo seguinte não deixa escapar o culpado.

4. Quem vive no pecado é repreendido diante de todos (Versículo 20)

1 Timóteo 5:20
“Quanto aos que vivem no pecado, repreenda-os na presença de todos, para que também os demais temam.”

Contexto Histórico e Cultural

O v. 20 mostra que a proteção do v. 19 não foi feita para homens maus. “Os que vivem no pecado” são presbíteros cujo pecado ficou provado pelas testemunhas e não foi abandonado; o assunto não mudou desde o v. 19. A NAA acerta ao traduzir “vivem”: a forma do verbo descreve quem continua, e não quem caiu uma vez e se arrependeu. O verbo “repreender”, elenchō, é expor, trazer à luz, convencer; em Mt 18.15 é o primeiro passo, “repreenda-o em particular”, e nestas cartas ele anda ao lado de “exortar” (2Tm 4.2; Tt 1.9), porque a repreensão tem alvo: a correção.

Os dois versículos desenham um processo em duas etapas. Primeiro, a acusação só é aceita com testemunhas que viram os fatos, e o presbítero é confrontado, provavelmente em particular; depois, se a acusação se confirma e o pecado persiste, vem a repreensão “na presença de todos”, diante da igreja reunida, como em Mt 18.17, “exponha o assunto à igreja”. E “os demais” que devem temer são sobretudo os outros presbíteros, embora a igreja toda aprenda. É o temor que caiu sobre a igreja depois de Ananias e Safira, o casal que mentiu sobre o valor de uma oferta e caiu morto diante dos apóstolos: “E sobreveio grande temor a toda a igreja” (At 5.11).

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que a repreensão vise humilhar, nem que o presbítero disciplinado deixe de ser irmão ou perca a vida eterna, que não depende do desempenho de quem creu. A disciplina toca a comunhão e o serviço.

O alvo é restaurar o irmão e proteger a igreja: as testemunhas protegem o inocente, e o pecado comprovado e persistente não se esconde. Gl 6.1 manda restaurar “com espírito de brandura”, e 2Ts 3.15 fixa o tom: “não o tratem como inimigo, mas admoestem-no como irmão”. O verbo “restaurar” de Gl 6.1 é o de pôr no lugar um osso quebrado, e pede a paciência e a delicadeza que esse gesto exige.

Aplicação Para Hoje

Liderar na igreja não protege ninguém de prestar contas; torna a prestação de contas maior. O irmão que preside e ensina sabe que o seu pecado, se persistir, não será tratado como o de qualquer outro, e sim diante de todos, porque a queda de quem ensina arrasta os que o ouvem. Isso não é motivo para fugir do serviço, mas para vigiar a própria vida com mais cuidado do que se vigia a dos outros. E, quando um presbítero se arrepende, a igreja deve “perdoar e consolar” (2Co 2.7); perdoado, o assunto está encerrado e não se traz de volta.

Para a igreja local, o versículo condena um costume antigo: esconder o pecado do líder para preservar a imagem da igreja, ou transferi-lo em silêncio para outro lugar. Isso é desobediência, e protege a reputação de homens à custa do rebanho. Quando a acusação é provada e o presbítero persiste, a repreensão deve ser pública, com o alvo de restaurar e de proteger, e com o caminho de volta aberto. O presbítero disciplinado continua irmão, e Cristo, que lavou os pés dos discípulos (Jo 13.14), é o modelo de quem preside e o Senhor de quem corrige. É diante dele que tudo isso se faz, como o versículo seguinte vai lembrar com solenidade.

5. Tudo diante de Deus, de Cristo e dos anjos, sem parcialidade (Versículo 21)

1 Timóteo 5:21
“Diante de Deus, de Cristo Jesus e dos anjos eleitos, peço com insistência que você guarde estes conselhos, sem discriminação, nada fazendo com espírito de parcialidade.”

Contexto Histórico e Cultural

O versículo não acrescenta regra nova; põe as duas anteriores sob juramento. “Peço com insistência” traduz diamartyromai, dar testemunho solene, um verbo de tribunal, e é da mesma família de “testemunha” no v. 19: quem exige testemunhas contra o presbítero põe o próprio Timóteo diante de testemunhas. Paulo o usa de novo em 2Tm 4.1, “diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos”. Cristo aparece aqui como Juiz, porque o Pai “confiou todo julgamento ao Filho” (Jo 5.22).

“Os anjos eleitos” são os anjos que não caíram, em contraste com os que “não guardaram o seu estado original” (Jd 6); “eleito” não se diz de anjos em nenhum outro lugar da Bíblia, e aqui serve para distingui-los dos caídos. Eles estão presentes como testemunhas. Dean lê este versículo com 1Co 4.9 e Ef 3.10 e diz que os anjos observam os crentes e aprendem conosco sobre a graça e a justiça de Deus: é o drama das eras, apresentado diante dos anjos, e nós estamos no palco. Nenhuma parte do ministério é mais difícil do que investigar e corrigir o pecado de um líder, e não faltam desculpas para evitá-lo; por isso Paulo chama o céu inteiro como testemunha.

O modo de guardar as regras vem em duas palavras raras. “Discriminação” traduz prokrima, prejulgamento, a decisão tomada antes de pesar os fatos, termo que já era jurídico dois séculos antes de Paulo; e “parcialidade” traduz prosklisis, a inclinação para um lado. Os dois erros apontam para lados opostos.

O prejulgamento pesa contra o acusado: aceita a denúncia antes das testemunhas e transforma boato em sentença, o que o v. 19 proíbe. O favoritismo pesa a favor do amigo: acoberta o pecado provado porque o presbítero é querido, antigo ou influente, o que o v. 20 proíbe. É a velha exigência dos juízes de Israel, “não sejam parciais no julgamento; ouçam tanto o pequeno como o grande” (Dt 1.17), e Tiago a aplica à igreja: não se pode crer em Cristo “e ao mesmo tempo tratar as pessoas com parcialidade” (Tg 2.1).

Aplicação Para Hoje

Antes de opinar sobre um irmão acusado, o crente faz uma pergunta a si mesmo: eu pensaria o mesmo se fosse outra pessoa? A amizade, a dívida de gratidão, a antipatia antiga, o peso de uma família grande na igreja, tudo isso inclina o juízo sem que se perceba. Deus “não trata as pessoas com parcialidade” (Rm 2.11), e quem julga em nome dele também não pode. Não há direitos de antiguidade na igreja local; cada irmão tem a mesma posição diante de Deus e da sua Palavra.

Para a liderança da igreja, o versículo muda o ambiente de cada reunião em que se trata de uma acusação. Não há sala fechada. O que se decide sobre um irmão acontece diante de Deus, de Cristo e de testemunhas que aprendem com a igreja a justiça e a graça. Os presbíteros que julgam sabem que também serão julgados, e, para o crente, esse juízo é o tribunal de Cristo, que avalia as obras para galardão e não decide a salvação (2Co 5.10; 1Co 3.14-15). A mesma pressa que leva a condenar sem provas leva a nomear sem exame, e é desse outro lado do problema que Paulo trata em seguida.

6. Não tenha pressa para impor as mãos sobre alguém (Versículos 22 a 23)

1 Timóteo 5:22-23
“Não tenha pressa para impor as mãos sobre alguém. Não seja cúmplice dos pecados dos outros. Conserve-se puro. Não beba somente água; beba também um pouco de vinho, por causa do seu estômago e das suas frequentes enfermidades.”

Contexto Histórico e Cultural

O gesto de impor as mãos tem história. Moisés pôs as mãos sobre Josué, o seu sucessor, diante de toda a congregação e o investiu publicamente na liderança (Nm 27.18-23); a igreja o manteve na escolha dos sete (At 6.6), no envio de Barnabé e Saulo, o próprio Paulo, como missionários (At 13.3) e no reconhecimento do dom de Timóteo pelo presbitério (4.14). Em todos esses textos o gesto vem com oração e marca, diante de todos, alguém separado para uma tarefa; em nenhum a mão humana fabrica o dom ou a autoridade, que vêm de Deus. Aqui, numa seção sobre presbíteros, o gesto é o reconhecimento público de quem vai servir como presbítero; há quem leia a readmissão de quem foi disciplinado, prática que só aparece dois séculos depois de Paulo, e a aplicação à volta do presbítero disciplinado ao serviço é legítima, mas secundária.

“Não tenha pressa” fecha o que Paulo já pedira: o bispo não seja “recém-convertido” (3.6), e os diáconos “devem ser primeiramente experimentados” (3.10). A igreja não cria líderes; reconhece aqueles em quem Deus já trabalha. Woods diz que se impõem as mãos sobre aqueles sobre quem Deus já impôs as mãos.

“Não seja cúmplice dos pecados dos outros” explica o perigo. O verbo, koinōneō, é ter parte, o mesmo de 2Jo 11, onde quem dá boas-vindas ao falso mestre “se faz cúmplice das suas obras más”. Quem nomeia depressa partilha a responsabilidade pelo que vier; quem usou toda a precaução e ainda assim foi enganado não é culpado diante de Deus. A igreja não responde pelo que não podia ver; responde pelo que não quis esperar para ver.

“Conserve-se puro” fecha o versículo: Timóteo julga outros e precisa cuidar mais ainda de si. E essa pureza não é ascetismo, e Paulo o diz logo em seguida. O v. 23 interrompe a sequência, e a ponte é a palavra “puro”. O verbo hydropoteō quer dizer beber só água, no sentido de abster-se do vinho; Timóteo parece ter decidido abster-se por completo, talvez para se distinguir dos falsos mestres, que exigiam abstinência “de alimentos que Deus criou” (4.3), e Paulo não quer que ele leia a ordem de pureza como aprovação dessa dieta.

O conselho era o da medicina do tempo: Hipócrates, o médico grego de quatro séculos antes de Cristo, e outros depois dele receitavam vinho para males do estômago, e a água das cidades era muitas vezes insegura. Paulo dosa a receita, “um pouco de vinho”, quantidade de remédio. Ele não curou Timóteo; receitou-lhe um remédio. O versículo não foi escrito para resolver o debate sobre a bebida; mostra que o vinho em si não contamina, que cuidar do corpo com meios comuns não é falta de fé, e que a Escritura condena a embriaguez (Ef 5.18), não o remédio.

Aplicação Para Hoje

A pressa na escolha de líderes é a origem de muitos escândalos. Conversão recente, dom vistoso, facilidade de palavra ou necessidade urgente de alguém para a função não justificam pular etapas. O caráter leva tempo para crescer e para aparecer, e o que se observa é a vida inteira: a família, o trabalho, o trato com o dinheiro, a reação quando contrariado. Quando faltam homens provados, é melhor deixar a vaga aberta do que preenchê-la às pressas; uma função vazia incomoda menos do que um líder sem caráter.

Para a igreja local, o v. 22 é prevenção: a melhor disciplina é a que nunca precisa acontecer porque a escolha foi feita com cuidado. E o v. 23 guarda a igreja de outro erro: medir a santidade pela abstinência. A abstinência pode ser escolha sábia e caridosa, “é bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve um irmão a tropeçar” (Rm 14.21), mas nunca regra imposta como medida de piedade. Só um foi inteiramente puro, e é a justiça dele que cobre o presbítero e a igreja; a pureza que se pede ao líder é fruto da vida em Cristo, não condição para ser aceito por Deus. E a paciência de que Paulo fala tem uma razão, que os dois últimos versículos explicam.

7. Pecados e boas obras aparecem, cedo ou tarde (Versículos 24 a 25)

1 Timóteo 5:24-25
“Os pecados de alguns são notórios, mesmo antes do juízo, mas os de outros só se manifestam mais tarde. Do mesmo modo também as boas obras se evidenciam e aquelas que ainda não são manifestas não poderão ficar escondidas.”

Contexto Histórico e Cultural

Os dois versículos retomam o v. 22 e dão a razão da paciência. “Notórios” traduz prodēlos, evidente de antemão. Alguns pecados vão à frente do homem, como mensageiros que chegam antes dele anunciando a culpa; outros vêm atrás e só se mostram com o tempo e o exame. O “juízo” aqui é, em primeiro lugar, o exame que a igreja faz do candidato: para Deus todos os pecados já são evidentes, e o que Paulo quer é que Timóteo veja o que pode ser visto.

Ao fundo está o juízo divino, para quem nada fica escondido (1Co 4.5). Há quatro grupos de homens: os claramente inaptos, os que o exame revela inaptos, os claramente aptos e os que o exame revela aptos. O pecado oculto é a preocupação real de Paulo e a razão de não impor as mãos depressa.

O v. 25 é o contrapeso. “Do mesmo modo” as boas obras também têm dois ritmos: umas são evidentes, e as que “ainda não são manifestas não poderão ficar escondidas”. Esperar também permite descobrir homens dignos que não chamavam atenção, o servo fiel e discreto que ensina, visita e serve sem buscar plateia.

O exame paciente afasta o indigno e também encontra o digno que ninguém notava. E, para o crente, o juízo que está ao fundo é o tribunal de Cristo, que avalia as obras para galardão e não decide a salvação (1Co 3.14-15); quando o Senhor vier, “trará à plena luz as coisas ocultas das trevas”, e “cada um receberá o seu louvor da parte de Deus” (1Co 4.5). Boas obras escondidas não se perdem.

Aplicação Para Hoje

Para o irmão cujo serviço ninguém nota, o v. 25 é consolo: a aula preparada para três alunos, a visita que ninguém soube, o dinheiro dado sem recibo, nada disso fica escondido para quem importa. Jesus manda que a luz brilhe diante dos outros, para que vejam as boas obras e glorifiquem o Pai (Mt 5.16), e os crentes dedicados não servem para serem vistos, mas o que fazem acaba visto. E para o irmão que esconde um pecado, o v. 24 é aviso: ele vem atrás, e chega.

Para a igreja local, os dois versículos tiram o medo de quem precisa escolher presbíteros. A tarefa não é impossível: quanto melhor a igreja conhecer os seus possíveis presbíteros, na família, no trabalho e na reunião, menos surpresas eles trarão depois, e o tempo de observação é o melhor amigo de uma boa escolha. O trecho começou com a honra devida aos que presidem bem e termina com as boas obras que ninguém viu, e os dois extremos se encontram num só Senhor.

Cristo é o Supremo Pastor, que serve, julga e revela; os presbíteros pastoreiam o rebanho dele e um dia receberão dele “a coroa da glória, que nunca perde o seu brilho” (1Pe 5.4). Se você ainda não creu, saiba que o Juiz diante de quem tudo isso se faz é também o Salvador que morreu pelos seus pecados e ressuscitou; creia nele, e passe a pertencer ao rebanho que ele comprou com o próprio sangue. Se você creu e caiu, ou foi caluniado, ou julgou um irmão com pressa, volte a esse Pastor: ele restaura o osso quebrado com paciência, e nenhuma obra boa feita para ele se perde.

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Referências Bibliográficas

• DEAN JR., Robert.

• WOODS, Andrew M. Lições em spiritandtruth.org: Ecclesiology 40, 41, 42 (2018) e 51 (2019); Acts 34 e 35 (2024), 82 (2025); 1 Thessalonians 25 (2023); 2 Thessalonians 42 (2024); 2 Timothy 1 e 14 (2015), 30 (2016); Angelology 7 (2019).

• WIERSBE, Warren W. Be Faithful: 1 & 2 Timothy, Titus, Philemon. Colorado Springs: David C. Cook.

• GUZIK, David. Enduring Word Commentary: 1 Timothy 5. enduringword.com.

• CONSTABLE, Thomas L. Notes on 1 Timothy. Edição de 2026.

• McGEE, J. Vernon. Thru the Bible — resumo do Bible Companion para 1 Timóteo.

• VINE, W. E. Expository Dictionary of New Testament Words (verbetes “Lay” e “Prejudice”).

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• STRAUCH, Alexander. Biblical Eldership. Colorado Springs: Lewis and Roth; The New Testament Deacon; The Mentor’s Guide to Biblical Eldership (lição 8).

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