Série: 1 Timóteo • Estudo Bíblico

1 Timóteo 6.1-10: A piedade verdadeira aparece no trabalho e no dinheiro

"Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e atormentaram a si mesmos com muitas dores. 1 Timóteo 6:10"

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Vídeo resumo

Há dois lugares em que a fé costuma se esconder: no trabalho e no dinheiro. É fácil ser crente no culto de domingo; o difícil é ser crente na segunda-feira, diante do chefe, e no fim do mês, diante do extrato do banco. Paulo chega ao fim da carta a Timóteo tratando exatamente desses dois lugares. Ele já havia ensinado como a igreja de Éfeso deve tratar os idosos e os jovens, as viúvas e os presbíteros (5.1-25); falta o grupo talvez mais numeroso da igreja, o dos escravos, e falta a última palavra sobre os mestres que ensinavam outra doutrina (1.3; 4.1), agora com a revelação do que movia aqueles homens: dinheiro.

Nestes dez versículos, Paulo mostra que a piedade verdadeira se prova justamente onde a fé costuma se esconder. O escravo crente prega com o seu serviço antes de abrir a boca (vv. 1-2). O mestre que vende a piedade já a perdeu (vv. 3-5). O crente contente tem Cristo e acha que basta (vv. 6-8).

E quem põe o coração em ficar rico afunda e se fere com as próprias mãos (vv. 9-10). O problema nunca foi o dinheiro na mão; é o dinheiro no coração. E o Senhor que ensina tudo isso é aquele que se fez servo e se fez pobre por nós, para que o nosso trabalho e o nosso bolso pudessem pregar a sua glória.

1. Quem serve honra o seu senhor, e serve ainda melhor quando o senhor é irmão (Versículos 1 a 2)

1 Timóteo 6:1-2
“Todos os servos que estão debaixo de jugo considerem dignos de toda honra o próprio senhor, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam difamados. Também os que têm senhor crente não o tratem com desrespeito, porque é irmão; pelo contrário, trabalhem ainda mais, pois ele, que partilha do seu bom serviço, é crente e amado. Ensine e recomende estas coisas.”

Contexto Histórico e Cultural

Os historiadores calculam que metade da população do Império Romano era escrava. Ninguém virava escravo por causa da cor da pele; virava por guerra, por dívida ou por ter nascido de mãe escrava. Muitos eram instruídos, mas, diante da lei, não eram pessoas: eram propriedade. A palavra “jugo”, zygos, é a canga que se põe no pescoço do boi; Paulo sabe o peso que esses irmãos carregam.

O evangelho tinha alcançado muitos deles, e dentro da igreja local o escravo era igual ao homem livre (Gl 3.28). Daí nascia um problema: alguns concluíram que a liberdade em Cristo os livrava também do serviço, principalmente quando o dono da casa era da mesma igreja. “Se ele é meu irmão, não manda em mim.”

Paulo responde com a palavra que governa este trecho da carta: honra. A igreja honra as viúvas (5.3) e os presbíteros (5.17); o escravo crente honra o seu senhor. O motivo não é que a escravidão seja boa, mas que “o nome de Deus e a doutrina não sejam difamados”. É a frase de Isaías 52.5, que Paulo já tinha citado em Romanos 2.24: o mundo julga a Deus pelo comportamento do povo de Deus. O escravo preguiçoso e insolente fazia o seu senhor pagão concluir que o Deus dos cristãos estraga os servos.

No v. 2, o senhor crente ganha uma ordem a mais. “Não o tratem com desrespeito” traduz kataphroneō, olhar de cima para baixo, o mesmo verbo com que Paulo pediu que ninguém despreze a juventude de Timóteo (4.12). Pelo contrário, “trabalhem ainda mais”, porque quem recebe o serviço é “crente e amado”. E há uma beleza escondida: a palavra traduzida por “bom serviço”, euergesia, era a palavra do benfeitor, do homem rico que fazia um bem à cidade, e Paulo a aplica ao trabalho do escravo. Knight observa que Paulo transforma o serviço do escravo num ato de fazer o bem a outro, até mesmo ao seu senhor.

É preciso dizer o que os versículos não ensinam. Eles não ensinam que a escravidão agrada a Deus. Paulo funda o casamento na criação (2.13), mas nunca funda a escravidão em nada; põe o sequestrador de homens entre os transgressores da lei (1.10); diz ao escravo que aproveite a liberdade se puder (1Co 7.21); e manda Filemom, dono de um escravo chamado Onésimo, recebê-lo “não como escravo, mas como irmão amado” (Fm 16). Por que então não pregou a abolição?

Porque a missão da igreja era o evangelho, e não a reforma da sociedade; uma igreja de escravos revoltados teria sido esmagada, e o nome de Deus, difamado. O evangelho mudou corações, e os corações mudados, com o tempo, acabaram com a escravidão. A honra também tem um limite: se o senhor mandar pecar, vale a regra dos apóstolos, “importa obedecer a Deus e não aos homens” (At 5.29).

Aplicação Para Hoje

Nenhum de nós é escravo. O empregado brasileiro tem carteira assinada, direitos garantidos e a porta aberta para pedir demissão; se Paulo pediu honra a quem não podia sair, quanto mais a quem pode. O crente prega no trabalho antes de abrir a boca: bate o ponto na hora, não faz corpo mole no home office, não fala mal do chefe no grupo de WhatsApp. A firma é o púlpito que o crente não escolheu, e o colega descrente lê o evangelho no modo como ele trabalha.

E quando o patrão é irmão da igreja? Aí a tentação é a de Éfeso: chegar atrasado porque “ele entende”, pedir vantagem porque “somos irmãos”. Paulo manda trabalhar ainda mais, porque o fruto do seu trabalho vai para alguém que Cristo amou. O patrão crente também tem o seu versículo: deve tratar o empregado sabendo que ambos têm o mesmo Senhor no céu (Ef 6.9; Cl 4.1), e o salário atrasado clama aos ouvidos de Deus (Tg 5.4).

Tudo isso nasce de quem Cristo é. O Senhor da glória disse: “eu estou entre vocês como quem serve” (Lc 22.27), tomou a forma de servo (Fp 2.7) e, quando o insultavam, não revidava (1Pe 2.23). E ele nos comprou: “vocês foram comprados por preço” (1Co 6.20), tirados do mercado do pecado, onde éramos escravos (Rm 6.17-18). Quem foi comprado por esse preço serve ao chefe da terra como quem serve ao Senhor do céu. “Ensine e recomende estas coisas”, diz Paulo a Timóteo; e logo acrescenta o que acontece quando alguém ensina outra coisa.

2. As sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo são a medida de todo ensino (Versículo 3)

1 Timóteo 6:3
“Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino segundo a piedade,”

Contexto Histórico e Cultural

O fim do v. 2 é a dobradiça entre o que Timóteo deve ensinar e quem ensina o contrário. “Ensina outra doutrina” traduz um único verbo, heterodidaskaleō, o mesmo da primeira linha da carta, quando Paulo mandou Timóteo “ordenar a certas pessoas que não ensinem outra doutrina” (1.3): a carta começa e termina com o mesmo verbo e com os mesmos homens. Paulo não dá nome a eles, mas dá a Timóteo um teste duplo para reconhecê-los.

O primeiro teste é a fonte. O falso mestre “não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo”. “Sãs” traduz hygiainō, ser saudável, uma palavra de médico; é a que Jesus usou ao dizer que “os sãos não precisam de médico” (Lc 5.31). Paulo gosta dela para falar de doutrina (1.10; 2Tm 1.13; Tt 2.1): a doutrina certa faz bem à alma, e a errada adoece.

As palavras são “de nosso Senhor Jesus Cristo”, quer ele as tenha dito com a própria boca, quer as tenha dado por meio dos seus apóstolos (Jo 16.13-14); a origem e a autoridade são dele, e por isso o título vem completo, como sempre que a carta fala de autoridade (1.12; 5.21; v. 14). O segundo teste é o fruto: “o ensino segundo a piedade”. Piedade, eusebeia, é a palavra-chave desta carta (2.2; 3.16; 4.7-8), a vida vivida com reverência diante de Deus. Doutrina sadia produz vida piedosa; ensino que não produz piedade está condenado pelo próprio resultado.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que toda divergência entre irmãos é “outra doutrina”: o assunto aqui é o evangelho, as palavras do Senhor, e não a cor do tapete nem a ordem do culto. E não ensina que basta um bom resultado para aprovar um ensino: um ensino que “funciona”, mas contradiz as palavras do Senhor, é reprovado no primeiro teste.

Aplicação Para Hoje

O crente tem em mãos a mesma régua de Timóteo. Diante do pregador do YouTube, da “profecia” que circula no grupo da família, do livro que o colega recomendou, a pergunta é dupla: isso concorda com as palavras do Senhor? isso produz piedade em quem crê? Isaías já tinha a mesma medida: “À lei e ao testemunho!” (Is 8.20). Se um ensino nos deixa mais orgulhosos, mais briguentos ou mais apegados ao dinheiro, ele já se denunciou, por mais versículos que cite. A igreja local tem a mesma responsabilidade, e por isso os presbíteros existem: vigiar o que se ensina, do púlpito à classe de crianças, porque a doutrina doente adoece a igreja inteira, e doutrina sadia a cura.

A medida de todo ensino é uma Pessoa. As palavras são “de nosso Senhor Jesus Cristo”, e ele mesmo disse: “as palavras que eu lhes disse são espírito e vida” (Jo 6.63). Quando muitos o abandonaram, Pedro respondeu por nós: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna” (Jo 6.68). Quem rejeita essas palavras não fica neutro; vira o que o versículo seguinte descreve.

3. O mestre que vende a piedade está cheio de si, doente de discussões e vazio da verdade (Versículos 4 a 5)

1 Timóteo 6:4-5
“esse é orgulhoso e não entende nada, mas tem um desejo doentio por discussões e brigas a respeito de palavras. É daí que nascem a inveja, a provocação, as difamações, as suspeitas malignas e as polêmicas sem fim da parte de pessoas cuja mente é pervertida e que estão privadas da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro.”

Contexto Histórico e Cultural

Paulo descreve o falso mestre de dentro para fora. “Orgulhoso” traduz typhoō, estar cheio de fumaça, a mesma palavra do recém-convertido que não pode ser presbítero (3.6): o homem inchado de si, sem nada dentro, que por isso “não entende nada” (1.7). O vazio se preenche com um “desejo doentio”: diante das palavras sadias do v. 3, aqui está o homem doente, com fome de “discussões e brigas a respeito de palavras”, guerras em que as palavras são as armas.

A doença se espalha pela igreja em cinco sintomas: inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas e “polêmicas sem fim”, um atrito constante, como duas peças que se esfregam até esquentar. É uma sequência que vai do erro doutrinário à ruína moral: quem rejeita as palavras do Senhor adoece, quem adoece briga, e quem briga acaba com “a mente pervertida” e “privado da verdade”. Esses homens tiveram contato com a verdade e a perderam.

No fim vem a revelação do motivo: eles supõem “que a piedade é fonte de lucro”. Lucro, porismos, é meio de ganhar a vida: para eles, a religião era uma profissão rentável, e Éfeso conhecia bem esse comércio. Uns vinte anos antes desta carta, um governador romano publicou um decreto na cidade censurando quem vendia cargos de sacerdote como quem vende em leilão. E Lucas conta que Demétrio, um ourives de Éfeso que fabricava nichos de prata de Ártemis, a deusa da cidade, reuniu os colegas dizendo “deste ofício vem a nossa prosperidade” (At 19.24-25). Os falsos mestres tinham aprendido com a cidade, não com Cristo.

É preciso dizer o que os versículos não ensinam. Eles não ensinam que é pecado viver do ensino da Palavra: Paulo acabou de dizer que “o trabalhador é digno do seu salário” (5.17-18). Ele mesmo abriu mão do sustento em Éfeso e na cidade de Tessalônica, para que ninguém o acusasse de ganância (1Ts 2.5, 9; At 20.33-35). A diferença não está no dinheiro, mas no motivo: um serve e é sustentado; o outro serve para ser sustentado. Algumas traduções trazem no fim do v. 5 “afasta-te desses”; a frase não está nos melhores manuscritos, mas o princípio aparece no v. 11 e em 2 Timóteo 3.5.

Aplicação Para Hoje

Quem vende a piedade já a perdeu. O erro do v. 5 tem nome hoje: a teologia da prosperidade, que reduz Deus a uma fórmula e transforma a fé numa máquina de fazer dinheiro. “Determine”, “sacrifique mil reais para destravar a bênção”, “Deus quer você rico”.

As promessas de Deuteronômio 28 foram feitas à nação de Israel debaixo da lei, não são contrato com o crente de hoje; a nossa bênção é “toda bênção espiritual nas regiões celestiais” (Ef 1.3), e a promessa que Paulo faz ao piedoso é perseguição (2Tm 3.12). Os sintomas de Paulo continuam valendo: onde um ensino produz inveja, briga, difamação, suspeita e polêmica sem fim, o crente deve desconfiar, mesmo que o pregador tenha milhões de seguidores; e o crente que vive de polêmica nas redes sociais pode se olhar no mesmo espelho. A igreja local, por sua vez, cuida do seu ensino e das suas finanças com transparência, para que ninguém possa dizer que ali a piedade é negócio.

Cristo é o contrário de tudo isso. Entrou no templo e expulsou os que faziam da casa de oração um covil de ladrões (Mt 21.13), e mandou os discípulos: “de graça receberam, de graça deem” (Mt 10.8). Mas Paulo não termina na denúncia: por ironia, os falsos mestres estavam meio certos, e a piedade é mesmo um grande lucro.

4. Grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento (Versículo 6)

1 Timóteo 6:6
“De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento.”

Contexto Histórico e Cultural

Paulo pega a palavra dos falsos mestres e a vira do avesso. Eles diziam que a piedade é fonte de lucro; Paulo responde que a piedade é “grande fonte de lucro”, desde que venha “com o contentamento”. Eles estavam, por assim dizer, parcialmente certos: há lucro na piedade, só que não o lucro que eles imaginavam. A palavra traduzida por contentamento, autarkeia, significa suficiência, e era a virtude favorita dos filósofos estoicos, os mestres gregos que ensinavam a não depender de nada nem de ninguém. O exemplo famoso era Diógenes de Sinope, filósofo que viveu quatro séculos antes de Paulo e morava num tonel, para provar que não precisava de nada.

Paulo toma a palavra e troca a fonte. Em Filipenses ele usa a mesma raiz: “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação”, e diz de onde vem a força: “tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13); e, quando pediu que o espinho fosse tirado, ouviu: “a minha graça te basta” (2Co 12.9). Fee resume: a verdadeira suficiência não é autossuficiência, mas suficiência em Cristo.

O estoico se bastava a si mesmo e morria sozinho; o cristão não se basta, mas tem a quem recorrer. A ênfase da frase está na piedade, e o contentamento vem com ela: é a piedade que produz contentamento, porque quem tem a Deus deixa de precisar de tudo o mais para ser feliz. Wiersbe diz que o verdadeiro contentamento vem da piedade no coração, não da riqueza na mão.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina voto de pobreza: Paulo já condenou os que proibiam alimentos como se o pouco fosse mais santo (4.3), e logo vai falar aos ricos sem mandá-los dar tudo (vv. 17-19). Nem ensina a indiferença fria dos estoicos, que fingiam não precisar de nada. O cristão contente não finge: quando falta o dinheiro do aluguel, quando o emprego acaba ou a doença chega, ele sente a falta de verdade e ora por ela. A diferença é que ele não se desespera, porque sabe que o Pai conhece as suas necessidades (Mt 6.32) e descansa nele, confiando que receberá o que precisa, no tempo e na medida que Deus decidir.

Aplicação Para Hoje

Contentamento não é ter o bastante; é ter Cristo e achar que basta. Quem nunca aprendeu a ser contente ganhando pouco não vai aprender ganhando muito, porque o descontentamento não mora no salário, mora no coração. O brasileiro conhece a frase “o próximo aumento vai resolver” e sabe que nunca resolve; o carro novo envelhece no segundo mês, e o apartamento maior fica pequeno quando o vizinho compra um maior.

A piedade quebra esse ciclo por dentro. O crente que acorda e agradece pelo que tem, que faz as contas do mês sem azedume e que não mede o próprio valor pela marca do celular está vivendo o v. 6. A igreja local também precisa dessa medida: a bênção de uma igreja não se mede pelo tamanho do templo nem pela arrecadação, mas pela piedade dos seus membros, e uma igreja pequena e contente é mais rica do que um salão cheio de gente ansiosa.

A fonte do contentamento tem nome. “Vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que, pela sua pobreza, vocês se tornassem ricos” (2Co 8.9). Quem foi enriquecido assim pode olhar para a vitrine sem fome. E por que o crente pode viver contente com o que tem? Paulo responde olhando para o berço e para o túmulo.

5. Nada trouxemos para o mundo e nada levaremos dele; tendo sustento e roupa, estejamos contentes (Versículos 7 a 8)

1 Timóteo 6:7-8
“Porque nada trouxemos para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.”

Contexto Histórico e Cultural

O v. 7 é um provérbio que os leitores de Paulo conheciam de cor. Jó, o homem que perdeu filhos, bens e saúde num só dia, disse ao ficar sem nada: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei” (Jó 1.21), e Eclesiastes diz o mesmo (Ec 5.15). O salmista avisa ao rico que, “quando morrer, nada levará consigo” (Sl 49.17).

E Jesus contou a história do fazendeiro que encheu os celeiros e morreu naquela noite (Lc 12.20). O bebê nasce sem bolso, e o morto é vestido pelos outros. A conclusão é a mordomia: nada do que temos é nosso; é de Deus, que nos confiou tudo por um tempo.

O v. 8 desce ao concreto. “Sustento” e “com que nos vestir” são alimentos e coberturas, e a segunda palavra inclui tanto a roupa quanto o teto. É a lista de Jesus no Sermão do Monte, quando mandou não andar ansiosos pelo que comer nem pelo que vestir (Mt 6.25). A ansiedade é uma idolatria discreta, porque confia mais na provisão do que no Provedor, e é exatamente o oposto do contentamento.

“Estejamos contentes” vem do verbo bastar, a mesma raiz da palavra do v. 6; Paulo fecha o círculo. A frase tem a forma de uma promessa e o peso de uma ordem: com isso, nós nos daremos por satisfeitos. Um sábio chamado Agur, em Provérbios 30, tinha pedido a mesma coisa a Deus: nem pobreza nem riqueza, só o pão de cada dia (Pv 30.8). E Hebreus resume: “Sejam contentes com o que têm, porque ele disse: De maneira alguma o deixarei” (Hb 13.5).

É preciso dizer o que os versículos não ensinam. Eles não proíbem ter mais do que comida e roupa; no v. 17 Paulo dirá que Deus “nos dá todas as coisas em abundância para delas desfrutarmos”. O que passa do necessário é recebido com gratidão, mas nunca tratado como necessário, porque o contentamento se perde quando o supérfluo vira indispensável.

Aplicação Para Hoje

No velório sempre alguém pergunta quanto o falecido deixou, e a resposta é sempre a mesma: tudo. A família que briga no inventário briga por aquilo que o morto não pôde levar e que ela também não levará. Esse pensamento desarma o consumo: a parcela em doze vezes, a promoção que “não dá para perder”, o cartão que paga o que o salário não paga. O teste do v. 8 é simples.

Tem o que comer hoje? Tem roupa no corpo e um teto sobre a cabeça? Então tem aquilo com que Paulo mandou que nos déssemos por satisfeitos, e tudo o mais é presente. A igreja local vive esses versículos de dois jeitos: garantindo que nenhum irmão fique sem o básico, porque de nada vale dizer “aqueça-se e alimente-se” sem dar o necessário (Tg 2.15-16), e dando ao mundo um testemunho de simplicidade.

Jesus viveu o v. 8 por inteiro. “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9.58). Morreu sem nada: até a sua roupa foi repartida pelos soldados ao pé da cruz (Jo 19.23-24). Saiu do mundo sem levar coisa alguma, para que nós pudéssemos entrar no céu levando tudo o que importa. Quem recusa esse contentamento e põe o coração em ficar rico entra na trilha que Paulo descreve a seguir.

6. Quem quer ficar rico cai em tentação, em armadilha e afunda na ruína (Versículo 9)

1 Timóteo 6:9
“Mas os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos insensatos e nocivos, que levam as pessoas a se afundar na ruína e na perdição.”

Contexto Histórico e Cultural

Repare em quem Paulo descreve: não “os ricos”, que vão receber a sua palavra nos vv. 17-19, mas “os que querem ficar ricos”, os que decidiram pôr a vida a serviço do enriquecimento. A expressão lembra a dos que “querem ser mestres da lei” (1.7); são os mesmos homens, agora vistos pelo bolso. Paulo descreve uma queda em etapas.

Primeiro, “tentação”: a quem põe o coração na riqueza se abrem tentações que os outros nem conhecem. Depois, “armadilha”, o laço do caçador, que nas outras duas vezes em que aparece nestas cartas é o laço do diabo (3.7; 2Tm 2.26). Depois, “muitos desejos insensatos e nocivos”: a vontade de ficar rico gera outras vontades, insensatas, que ferem quem as alimenta.

O fim da trilha é um naufrágio. “Afundar” traduz bythizō, o verbo que Lucas usou para os barcos de Pedro que quase afundaram de tão cheios de peixes (Lc 5.7). O barco não afunda por falta, mas por excesso; e Paulo já tinha falado dos que “naufragaram na fé” (1.19).

“Ruína e perdição” são duas palavras pesadas. A primeira pode descrever a destruição nesta vida, como quando Paulo entrega um pecador “para a destruição da carne” para que o espírito seja salvo (1Co 5.5); a segunda é a palavra comum da perdição eterna. Juntas, elas dizem que a trilha do dinheiro arruína a vida de quem crê e perde para sempre quem nunca creu.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que é pecado prosperar pelo trabalho honesto: Provérbios elogia a mão diligente e condena a preguiça. O alvo é o coração que faz da riqueza a meta da vida.

Aplicação Para Hoje

A prova mais dura da fé não é a da pobreza; é a da prosperidade. Muito crente passou pela pobreza firme e caiu quando o dinheiro chegou. O v. 9 tem endereço no Brasil de hoje: as apostas online, que já levaram o dinheiro do aluguel de muita família crente; a pirâmide financeira com nome de “investimento” apresentada por um irmão da igreja; a “renda extra” que vira vício e consome as noites. As tentações são específicas: quem nunca mentia começa a mentir no imposto, quem nunca faltava ao culto troca o domingo pelo plantão que paga dobrado, quem era generoso passa a achar que o dízimo é um gasto. A igreja local precisa de homens provados nessa área, e por isso Paulo exigiu que o presbítero fosse “não apegado ao dinheiro” (3.3) e que o diácono não fosse “cobiçoso de lucro desonesto” (3.8): quem cuida do caixa da igreja precisa ter passado no teste do v. 9.

Cristo passou por ele: Satanás lhe mostrou todos os reinos do mundo, e ele recusou com a Escritura (Mt 4.8-10). O mesmo Senhor disse: “Ninguém pode servir a dois senhores. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24).

E é ele quem tira do laço quem já caiu, para que “se desprendam das armadilhas do diabo” (2Tm 2.26). Por que o desejo de ficar rico é tão perigoso? Paulo responde nomeando a raiz.

7. O amor ao dinheiro é raiz de todos os males e já desviou alguns da fé (Versículo 10)

1 Timóteo 6:10
“Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e atormentaram a si mesmos com muitas dores.”

Contexto Histórico e Cultural

Este é provavelmente o versículo mais citado errado da Bíblia. Ele não diz que o dinheiro é a raiz de todos os males; diz que “o amor ao dinheiro” é. A palavra é philargyria, amor à prata. Dinheiro é moralmente neutro: Abraão e Jó foram ricos e piedosos, e Lídia, a vendedora de púrpura de Atos 16, hospedou a igreja de Filipos na sua casa.

O que arruína é o amor ao dinheiro. Paulo cita um provérbio que os gregos já repetiam, “o amor ao dinheiro é a cidade-mãe de todos os males”, e troca a cidade pela raiz, que fica escondida e alimenta tudo o que aparece. E “todos os males” quer dizer males de toda espécie: não que cada pecado nasça do dinheiro, mas que não existe pecado que não possa ser cometido por dinheiro. Mentira, roubo, adultério, traição, assassinato: todos já foram comprados.

A segunda metade do versículo volta a Éfeso. “Alguns” são os mesmos homens do v. 3, e Paulo descreve o que lhes aconteceu com dois verbos. “Se desviaram da fé” traduz apoplanaō, ser levado a vagar para longe do caminho.

E “atormentaram a si mesmos” é uma palavra brutal, transpassar-se, como quem se atira sobre uma lança; ninguém os feriu, eles se feriram. As “muitas dores” são as desta vida: a consciência que acusa, a família destruída pela ganância, as amizades vendidas, o nome perdido. Paulo tinha um exemplo perto de si: Demas, companheiro de trabalho citado com carinho em duas cartas (Cl 4.14; Fm 24), acabou assim: “Demas me abandonou, porque amou o presente século” (2Tm 4.10).

É preciso dizer o que o versículo não ensina. “Desviar-se da fé” não é uma sentença de perdição sobre todo crente que amou o dinheiro; é a descrição de uma trajetória. O homem que nunca creu e fez da religião negócio caminha para a perdição do v. 9. O crente que se deixa levar pelo amor ao dinheiro sofre ruína real nesta vida e prejuízo no tribunal de Cristo, mas não é arrancado da mão do Senhor (Jo 10.28; Rm 8.38-39), porque “se somos infiéis, ele permanece fiel” (2Tm 2.13). Dean diz que a realidade final é o que acontece no tribunal de Cristo, e não o que acontece na conta bancária.

Aplicação Para Hoje

O problema não é o dinheiro na mão; é o dinheiro no coração. A Bíblia chama a avareza de idolatria (Cl 3.5), porque o amor ao dinheiro ocupa o lugar que é de Deus: nele se confia, dele se espera a segurança, a ele se sacrifica o resto. O teste é honesto: o que você faria por dinheiro? Mentiria num contrato? Sonegaria?

Deixaria de falar com o irmão por causa da herança? Cada “sim” é uma raiz. O Brasil está cheio de famílias que não se falam por causa de um terreno e de igrejas feridas por um sócio que deu o calote num irmão. E há uma palavra a quem já se feriu: Demas se perdeu de vista, mas Pedro, que negou o Senhor por medo, voltou; e João escreve que, “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar” (1Jo 1.9). As muitas dores não precisam ser o fim da história.

Voltamos aos dois lugares em que a fé costuma se esconder. No trabalho, Cristo foi o Servo que não escondeu nada: lavou os pés dos discípulos e obedeceu até a morte. No dinheiro, foi o rico que se fez pobre. E, no fim, foi vendido por trinta moedas de prata, que era o preço de um escravo (Êx 21.32), por Judas, o discípulo que guardava a bolsa e amou o que havia dentro dela, e que, atormentado por muitas dores, pôs fim à própria vida. Jesus deixou que o vendessem pelo preço de um escravo para comprar a nossa liberdade.

Quem ainda não creu precisa saber disto: ninguém leva nada deste mundo, mas a vida eterna é dada de graça em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 6.23). E quem crê pode levar a fé justamente para os dois lugares em que ela costuma sumir: para o trabalho de amanhã e para o extrato do banco. No trabalho, a fé aparece quando ele serve ao chefe com honra, porque na verdade serve a Cristo, que já pagou o preço da sua liberdade. Diante do dinheiro, a fé aparece quando ele vive contente com o que tem, porque o mesmo Cristo que o comprou é quem lhe dá o que ele precisa, e ter a Cristo é ter o suficiente. Isso é a piedade com o contentamento, e esse é o grande lucro que Paulo prometeu.

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Referências Bibliográficas

• DEAN JR., Robert.

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• WIERSBE, Warren W. Be Faithful: 1 & 2 Timothy, Titus, Philemon. Colorado Springs: David C. Cook.

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Vídeo de Aprofundamento


Exercícios de Fixação

Teste seu conhecimento. Leia a pergunta, tente responder mentalmente e clique para conferir.

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