Série: Novo Testamento • Estudo Bíblico

Tito 2.1-10: A vida que embeleza a sã doutrina

"Seja você mesmo um exemplo de boas obras. No ensino, mostre integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível, para que o adversário seja envergonhado, não tendo nada de mau a dizer a nosso respeito. Tito 2:7-8"

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Vídeo resumo

Paulo deixou Tito em Creta para pôr em ordem o que faltava e constituir presbíteros em cada cidade (1.5). O primeiro capítulo da carta descreveu que homens deviam ser esses presbíteros e, logo depois, que homens eram os mestres que contradiziam a sã doutrina: gente que arruinava famílias por lucro e que, no veredito com que o capítulo termina, “afirma que conhece a Deus, mas o nega por meio do que faz” (1.16). É nesse ponto que o nosso trecho começa. “Mas você”, diz Paulo a Tito, e com essas duas palavras ele põe o seu colaborador do lado oposto ao daqueles homens. Eles ensinavam o que não deviam e negavam a Deus com a vida; Tito vai ensinar o que combina com a sã doutrina, e a igreja de Creta vai mostrar com a vida que a doutrina é verdadeira.

Nestes dez versículos, Paulo percorre a casa inteira, dos homens de cabelos brancos aos escravos da cozinha, e pede a cada grupo a conduta que convém à doutrina sadia. A mensagem do trecho é esta: a sã doutrina não termina na boca de quem ensina. Ela forma pessoas sensatas em cada idade e em cada canto da casa, e essa vida, vista pelos de fora, cala a acusação contra o evangelho e torna bela a doutrina de Deus, nosso Salvador. Os falsos mestres negavam a Deus com as obras; os crentes de Creta vão adornar a doutrina de Deus com as obras.

1. Tito ensina a conduta que combina com a sã doutrina (Versículo 1)

Tito 2:1
“Mas você ensine o que está de acordo com a sã doutrina.”

Contexto Histórico e Cultural

O capítulo abre com duas palavras curtas, “Mas você”, e elas bastam para pôr Tito do lado oposto ao dos homens descritos nos versículos anteriores. Paulo usa a mesma expressão com Timóteo (1Tm 6.11), logo depois de descrever os falsos mestres de Éfeso, mas há uma diferença de tom. A Timóteo ele pede que enfrente os mestres do erro; a Tito ele pede que ensine a igreja, para que o próprio povo viva de modo diferente deles. Aos que contradiziam a doutrina, Tito devia repreender com rigor (1.13); à igreja, ele devia “falar”, que é o sentido literal do verbo traduzido por “ensine”. O verbo está numa forma que indica ação continuada: ensinar essas coisas é matéria regular da igreja, não sermão de ocasião.

O que Tito deve ensinar é “o que está de acordo com a sã doutrina”. O verbo que a NAA traduz por “está de acordo” é prepō, “convir”, “ser apropriado”. A lista que vem a seguir mostra o que convém: dos homens idosos aos escravos, tudo o que Paulo pede é conduta. Paulo sempre ligou doutrina e dever, e aqui ele diz, com uma palavra só, que existe um modo de viver que convém ao que cremos e outro que o desmente. “Sã” é a palavra da saúde, a mesma que já vimos em 1.9 e 1.13: a doutrina sadia é a que produz saúde na vida de quem a recebe, como o alimento certo produz saúde no corpo.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que a conduta produz a doutrina, nem que a lista do capítulo é uma lei pela qual alguém ganha o favor de Deus. A ordem do capítulo já é a mensagem: primeiro vem a conduta que convém (vv. 2-10) e depois vem o “Porque” do v. 11, que explica tudo: a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação, e é ela que “nos educa” para vivermos “de forma sensata, justa e piedosa” (vv. 11-12). A ética deste trecho é o fruto que a graça ensina, não a raiz que produz a graça.

Aplicação Para Hoje

Todo crente pode fazer a si mesmo a pergunta que o versículo faz à igreja de Creta: o que eu creio aparece no que eu faço? É possível ter a doutrina certa sobre a graça e tratar a esposa com dureza, crer na providência de Deus e viver angustiado com o extrato do banco, ensinar a verdade na escola dominical e mentir na declaração do imposto de renda. A resposta ao erro, em Creta, não era só refutar os falsos mestres; era uma comunidade inteira cuja vida desmentisse a deles. A melhor refutação de quem diz que o evangelho não muda ninguém é uma vida mudada.

Para a igreja local, o versículo define o alvo do ensino. Os presbíteros e todos os que ensinam devem chegar à vida das pessoas: ao casamento, ao trabalho, à língua, ao dinheiro. Uma série de estudos que percorre a doutrina inteira e nunca chega à cozinha e ao escritório não cumpriu o que Tito 2 manda. Essa doutrina tem um centro: a graça “se manifestou” em Cristo, que deu a si mesmo por nós (v. 14). É por causa dele que a doutrina é sadia, e é a partir dele que Paulo começa a percorrer a casa, pelos mais velhos.

2. Os homens idosos, sadios na fé, no amor, na perseverança (Versículo 2)

Tito 2:2
“Quanto aos homens idosos, que sejam moderados, respeitáveis, sensatos, sadios na fé, no amor e na perseverança.”

Contexto Histórico e Cultural

A palavra traduzida por “homens idosos” não é a palavra “presbíteros” de 1.5. Paulo teve o cuidado de usar outro termo: ele fala dos homens de mais idade da igreja, tenham cargo ou não. Era sobretudo dentre esses homens que os presbíteros seriam escolhidos, e por isso a lista se parece com a de 1.6-9. Que idade tinham?

O texto não diz. Fílon, um filósofo judeu de Alexandria que viveu no tempo de Jesus, usa a palavra para homens de cinquenta anos para cima. Paulo, porém, está falando a todos os adultos da igreja, e “idosos” e “jovens” são termos relativos, um grupo em relação ao outro, como em 1Tm 5.1-2, em que os mais velhos são tratados como pais e os mais novos como irmãos.

Paulo pede quatro coisas. “Moderados” traduz nēphalios, a palavra da sobriedade quanto ao vinho e, por extensão, da cabeça clara. Creta tinha fama no assunto: há epitáfios da ilha que tratam a bebedeira quase como virtude.

“Respeitáveis” é a palavra usada para os diáconos em 1Tm 3.8: um porte que inspira respeito, o que não quer dizer um velho carrancudo que nunca ri. “Sensatos” traduz sōphrōn, a virtude do juízo são e do domínio de si, e essa palavra atravessa o trecho inteiro: Paulo a pede aos idosos aqui, às jovens no v. 5, aos rapazes no v. 6, e no v. 12 diz que é a graça que nos educa a viver de forma sensata. Era uma virtude que os gregos admiravam; Paulo usa a língua moral que os cretenses conheciam, mas muda a fonte dela, que é a graça, e o fim dela, que é a honra da palavra de Deus.

O quarto traço é o mais cristão de todos: “sadios na fé, no amor e na perseverança”. É a tríade de fé, esperança e amor (1Ts 1.3), com a perseverança no lugar da esperança, porque os mais velhos precisam ser animados a perseverar até o fim. “Na fé” aqui não é só o conteúdo que se crê, mas a confiança pessoal em Deus, que se alimenta desse conteúdo: um homem pode saber a doutrina de cor e ter a confiança doente.

É preciso dizer o que o versículo não ensina: a perseverança é virtude a cultivar, não condição da salvação. O idoso que deixa de perseverar não perde a vida eterna, que Cristo garantiu; perde a utilidade, o testemunho e o galardão que ainda podia ganhar. A prova própria dessa idade, quando os filhos já saíram de casa e a reputação já está feita, é se o homem vai continuar correndo ou vai parar.

Aplicação Para Hoje

A aposentadoria não aposenta o crente. Com a idade, a tendência é endurecer nos próprios caminhos, e o versículo pergunta a quem tem cabelos brancos em que ele está endurecendo: na queixa, na desconfiança dos mais novos, no apego aos hábitos, ou na fé, no amor e na perseverança. O avô que leva os netos para a reunião da igreja, o irmão aposentado que visita os doentes do bairro, o homem de setenta anos que ainda abre a Bíblia com um casal recém-casado estão fazendo exatamente o que Paulo pede. Perseverar não é esperar a hora de partir; é enfrentar os desafios que ainda vêm, inclusive os da velhice, com a cabeça clara e o coração confiante.

Para a igreja local, o versículo lembra que os mais velhos têm trabalho. Tito, um homem mais novo, devia tratá-los com honra, “como você faria com o seu pai” (1Tm 5.1), e ao mesmo tempo ensiná-los. E a tríade aponta para Cristo: a fé confia nele, o amor nasce do amor com que ele nos amou, e a perseverança olha para ele, “o Autor e Consumador da fé” (Hb 12.2), que perseverou até a cruz. Quem persevera até o fim não o faz por teimosia, mas porque olha para quem já chegou.

3. As mulheres idosas, reverentes e mestras do bem (Versículo 3)

Tito 2:3
“Do mesmo modo, quanto às mulheres idosas, que tenham conduta reverente, não sejam caluniadoras, nem escravizadas a muito vinho. Que sejam mestras do bem,”

Contexto Histórico e Cultural

“Do mesmo modo” liga as idosas aos idosos: delas se espera o mesmo que deles, e mais alguma coisa. Não se trata das viúvas inscritas de 1Tm 5.9, com os seus sessenta anos; a instrução vale para todas as mulheres mais velhas da igreja. O primeiro traço é a “conduta reverente”.

A palavra é hieroprepēs, formada de “sagrado” e do verbo “convir” do v. 1: é o porte que convém a quem serve num templo. Paulo não está dizendo que as idosas devam viver no templo; está dizendo que devem levar para a vida comum, para a cozinha, para a feira, para a conversa com a vizinha, o porte de quem pertence a Deus. O santuário da idosa cristã é a vida de todo dia.

Vêm dois traços negativos. “Não sejam caluniadoras”: o adjetivo é o mesmo que, usado como substantivo, designa o diabo, o acusador. Quem calunia e espalha a fofoca faz o trabalho dele. O curioso é que esse vício costuma nascer de uma virtude: a preocupação com as pessoas, quando não é vigiada, degenera em comentário sobre as pessoas.

Dean descreve a forma mais comum dessa degeneração entre crentes: a fofoca vestida de pedido de oração, “precisamos orar por fulana, porque você sabe o que o marido dela anda fazendo”. “Nem escravizadas a muito vinho”: a forma do verbo indica não um excesso ocasional, mas um estado de escravidão, e Creta, como já vimos, admirava os bons bebedores. O texto condena a escravidão ao vinho, não o uso: não autoriza uma regra de abstinência imposta à igreja. A liberdade cristã acaba onde começa qualquer domínio que não seja o de Cristo.

O quarto traço é positivo: “que sejam mestras do bem”. A palavra é kalodidaskalos, “que ensina o que é bom”, um termo que Paulo talvez tenha cunhado. As idosas ensinam: é ordem, não concessão, e o v. 4 diz para quem elas ensinam: para as jovens. É preciso dizer o que o versículo não ensina.

Ele não contradiz 1Tm 2.12, em que Paulo veda à mulher ensinar e exercer autoridade sobre homens na igreja reunida. O ensino de que Tito 2 fala é outro: prático, de mulher para mulher, em casa e nos encontros de mulheres, e por isso mesmo é a Escritura aplicada à vida da casa, transmitida pela vida e pela palavra. E também não permite dizer que a mulher não tem ministério de ensino nenhum.

Aplicação Para Hoje

O versículo pressupõe uma igreja em que mulheres de idades diferentes se conhecem. A irmã de sessenta anos que convida a de vinte e cinco para um café, ora com ela e lhe conta o que aprendeu com a Escritura e com os próprios erros está sendo “mestra do bem”. A jovem cujo marido sai de casa às cinco da manhã e volta às nove da noite, a que vê o marido desempregado há um ano e sem ânimo para nada, a mãe que sabe que precisa disciplinar os filhos e não sabe como: todas elas precisam de uma mulher mais velha que já passou por isso. Nada disso é cargo, programa ou departamento. É amizade com propósito.

Para a igreja local, a pergunta é dupla: as irmãs mais velhas sabem que esse ensino lhes foi confiado, e as mais novas sabem a quem recorrer? A liderança da igreja pode favorecer esses encontros sem criar função nenhuma e sem tirar das irmãs a iniciativa. E a língua é o ponto em que o versículo chega a Cristo. A mesma boca que pode acusar é chamada a ensinar o bem, e quem tem em Cristo um Advogado junto ao Pai (1Jo 2.1), e não um acusador, não precisa ser acusador de ninguém. O conteúdo desse ensino é o que os versículos seguintes descrevem.

4. As idosas ensinam as jovens a amar marido e filhos (Versículos 4 a 5)

Tito 2:4-5
“a fim de instruírem as jovens recém-casadas a amar o marido e os filhos, a serem sensatas, puras, boas donas de casa, bondosas, sujeitas ao marido, para que a palavra de Deus não seja difamada.”

Contexto Histórico e Cultural

O verbo traduzido por “instruírem” é sōphronizō, da mesma família da sensatez que atravessa o trecho: formar o juízo pela instrução e pelo exemplo. “As jovens recém-casadas” é, no grego, apenas “as jovens”; a NAA explicita o que o contexto supõe, porque naquela cultura quase toda jovem era casada. Por que Paulo entrega essa tarefa às idosas, e não a Tito? Por prudência, porque um obreiro jovem não deve ser o conselheiro íntimo das moças, e porque quem já viveu o casamento e a maternidade ensina o que um homem não ensina.

A lista começa pelo amor. “Amar o marido” traduz philandros, e “amar os filhos” é a palavra irmã; as duas eram termos de louvor da boa esposa, gravados em lápides da época. Num mundo de casamentos arranjados, pedir que a esposa amasse o marido não era formalidade. E este é o único lugar do Novo Testamento em que o amor da esposa ao marido aparece como matéria de ensino; nas outras cartas, a ordem de amar é dada ao marido (Ef 5.25; Cl 3.19). O amor se aprende, e o amor aos filhos é o que educa, não o que mima.

Seguem “sensatas”, a mesma virtude pedida aos idosos, e “puras”, a pureza moral que inclui a fidelidade conjugal. “Boas donas de casa” traduz oikourgos, “que trabalha em casa”; o contrário dela é a jovem viúva de 1Tm 5.13, que aprende “a viver ociosa, andando de casa em casa”. É preciso dizer o que a palavra não ensina: ela não proíbe o trabalho fora de casa. A mulher de Provérbios 31 compra terras e vende o que produz (Pv 31.16, 24), e Lídia, a primeira convertida de Filipos, era “vendedora de púrpura” (At 16.14). A casa é a esfera primeira de responsabilidade da jovem esposa e mãe, e a decisão sobre o trabalho fora é do casal diante de Deus.

O último traço é o que mais incomoda hoje: “sujeitas ao marido”. O verbo é hypotassō, “pôr-se debaixo”, e a forma usada indica ato voluntário: “sujeitando-se”. O grego diz “aos seus próprios maridos”: não se trata de mulher sujeita a homem, mas de esposa sujeita ao seu marido. Mounce observa que Paulo não permite ao marido exigir a sujeição, mas instrui a esposa a dá-la. Paulo funda essa ordem na criação (1Tm 2.13) e na relação de Cristo com a igreja (Ef 5.22-24), não no costume da época, e por isso ela vale hoje.

Mas ela tem limites: “É mais importante obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29), e a sujeição nunca cobre ordem para pecar nem violência. E não é inferioridade: a esposa é “coerdeira da mesma graça da vida” (1Pe 3.7). A finalidade cobre a lista inteira: “para que a palavra de Deus não seja difamada”. A frase ecoa Isaías, que ouviu de Deus que o seu nome era blasfemado por causa do seu povo (Is 52.5; Rm 2.24). Kent resume o que está em jogo: o mundo costuma julgar a religião não pelas suas doutrinas, mas pelos efeitos nos seus adeptos.

Aplicação Para Hoje

Os vizinhos nunca leram a carta a Tito, mas veem como a jovem esposa fala do marido, como trata os filhos, como responde ao marido que não crê. O que eles veem é um argumento a favor da palavra de Deus ou um motivo para falar mal dela. No caso da esposa de marido descrente, Pedro diz que ela pode ganhá-lo “sem palavra alguma” (1Pe 3.1-2): a conduta abre a porta, mas o que salva é o evangelho que, pela porta aberta, ela um dia anuncia. E é preciso dizer com clareza o que a sujeição não pede: a irmã ameaçada pode sair de casa, buscar os presbíteros e recorrer à autoridade civil (Rm 13.3-4), e isso não é rebeldia. O marido que cobra sujeição pela força já desobedeceu ao que Ef 5.25 lhe manda.

Para a igreja local, o versículo pede que se ensinem as duas coisas juntas, a ordem e os seus limites. E o lar não se sustenta por esforço. A fonte é a graça que educa a viver de forma sensata (v. 12), e o modelo da sujeição voluntária é a humildade do Filho, que, sendo igual ao Pai, se fez obediente até a morte (Fp 2.6-8). Quem se sujeita por amor não está abaixo de ninguém; está no caminho que Cristo percorreu. É a mesma sensatez que Paulo vai pedir, em seguida, aos rapazes.

5. A sensatez é a única virtude pedida aos mais jovens (Versículo 6)

Tito 2:6
“Do mesmo modo, quanto aos mais jovens, exorte-os para que, em todas as coisas, sejam moderados.”

Contexto Histórico e Cultural

Para os rapazes, Paulo troca o verbo. No v. 1 Tito devia “falar”; aqui ele deve “exortar”, um verbo mais forte, o mesmo que descreve o presbítero capaz de “exortar pelo reto ensino” (1.9). E o conteúdo da exortação cabe numa palavra só: que sejam “moderados”. A NAA usou “moderados” no v. 2 para a palavra da sobriedade; aqui a palavra é o verbo da sensatez, o mesmo “sensatos” pedido aos idosos e às jovens. É a virtude do juízo são e do domínio de si, e para os rapazes ela é pedida sozinha porque é abrangente: quem tem a cabeça no lugar tem, em princípio, todas as outras.

Quem são os “mais jovens”? Na linguagem da época, o termo costumava indicar homens de vinte e poucos anos, mas, como já vimos, “idosos” e “jovens” são termos relativos. Há quem ligue “em todas as coisas” ao versículo seguinte, à ordem a Tito; o sentido não muda: o jovem deve ser sensato em tudo, e Tito, modelo em tudo. Os rapazes são exortados pelo próprio Tito, que estava perto deles em idade.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Sensatez não é frieza, nem falta de entusiasmo, nem velhice precoce. É o juízo que governa os impulsos, numa ilha em que o poeta local dizia que os seus habitantes eram “feras terríveis” (1.12). E não é conquista do esforço: é a graça de Deus que “nos educa” para viver de forma sensata (v. 12).

Aplicação Para Hoje

Onde o rapaz de hoje precisa de sensatez “em todas as coisas”? No dinheiro, quando o cartão oferece parcelar o que ele não pode pagar. Na internet, no que ele vê quando ninguém está vendo.

No namoro, em que a pureza é tratada como atraso. Nas palavras, na resposta atravessada que ele digita no grupo e não pode mais apagar. Paulo não dá ao jovem uma lista de regras para cada caso; dá-lhe uma cabeça formada pela Palavra, que decide em cada caso.

Para a igreja local, o versículo pede homens próximos dos rapazes, como Tito era. Quando um jovem vê um irmão um pouco mais velho que vive o que ensina, a exortação pega. A liderança da igreja faz bem em pôr os rapazes ao lado de homens que os conheçam pelo nome. E a sensatez tem um rosto.

Jesus, no deserto, diante de cada proposta do tentador, respondeu com a cabeça no lugar e a Palavra na boca (Mt 4.1-11). Ele é o homem sensato por excelência, e o que ele foi, a graça forma em quem crê nele. O caminho para essa formação é a exortação de quem dá o exemplo, como mostram os versículos seguintes.

6. O exemplo de Tito deixa o adversário sem acusação (Versículos 7 a 8)

Tito 2:7-8
“Seja você mesmo um exemplo de boas obras. No ensino, mostre integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível, para que o adversário seja envergonhado, não tendo nada de mau a dizer a nosso respeito.”

Contexto Histórico e Cultural

Ao falar dos rapazes, Paulo se lembra de um rapaz em particular, o próprio Tito. “Você mesmo” é enfático. A palavra traduzida por “exemplo” é typos, a marca deixada por um cunho ou por um molde: Tito deve ser o molde em que os outros são formados. E o exemplo é “de boas obras”, justamente aquilo para que os falsos mestres eram “reprovados” (1.16).

Tito era delegado de Paulo, deixado na ilha por um tempo (1.5; 3.12); as instruções destes versículos são pessoais, dadas a ele, mas valem por extensão para todo irmão que ensina. Wiersbe observa que Paulo escreveu mais sobre Tito como exemplo do que sobre Tito como exortador. O exemplo vem antes da palavra.

O campo especial do exemplo de Tito é o ensino, e Paulo pede três coisas. “Integridade” é uma palavra rara que significa “sem corrupção”: pureza de motivo. “Reverência” é a seriedade, o mesmo grupo de palavras do “respeitáveis” pedido aos idosos no v. 2. E “linguagem sadia e irrepreensível” passa do modo de ensinar ao conteúdo: “sadia” é de novo a palavra da saúde, e “irrepreensível” vem da linguagem dos tribunais, “nada conhecido contra”.

Irrepreensível não quer dizer que ninguém vai criticar. Paulo mesmo diz que “todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12), e um evangelho que nunca é condenado por ninguém provavelmente não é o evangelho dos apóstolos. O alvo é outro: que nenhuma acusação justa encontre apoio.

“O adversário” é quem quer que se oponha: em primeiro lugar, os que contradiziam a sã doutrina em Creta (1.9-16), sem excluir o crítico de fora, que observa a igreja. Não é o diabo, como alguns antigos pensaram, porque o diabo não se envergonha. “Envergonhado” pode ser o silêncio de quem não achou o que dizer, e esse silêncio pode ser o começo do arrependimento (2Ts 3.14-15). E o que se protege não é só Tito: “a nosso respeito” abrange Paulo, a igreja de Creta e todos os cristãos. A má conduta de qualquer crente, e sobretudo de quem ensina, atinge a todos.

Aplicação Para Hoje

Para quem ensina na igreja local, os presbíteros, os professores da escola dominical, quem dirige um estudo bíblico em casa, os versículos dizem que se responde por três coisas: pelo que se diz, pelo modo como se diz e pela vida que se leva. O irmão que prega no domingo e humilha a esposa na segunda, o que ensina sobre honestidade e sonega, o que fala de mansidão e explode no trânsito dá ao adversário exatamente o que ele procurava. E ele não prejudica só a si mesmo: quando um líder cai, o bairro inteiro fala mal da igreja, e a palavra de Deus é difamada por causa dele.

A acusação contra o evangelho será inevitável, porque o evangelho julga o pecado do mundo; o que a igreja pode fazer é viver de tal modo que a acusação não tenha base. E há um só mestre que cumpriu esses versículos por inteiro. Jesus perguntou aos seus adversários quem deles o convencia de pecado, e ninguém respondeu (Jo 8.46); Pilatos, depois de o interrogar, não encontrou nele crime algum. O adversário ficou sem nada de mau a dizer a respeito dele, e foi esse homem sem acusação que levou sobre si a acusação que pesava contra nós. Quem ensina em nome dele tem nele o modelo e a graça para imitá-lo.

7. Os servos fiéis manifestam a beleza da doutrina (Versículos 9 a 10)

Tito 2:9-10
“Quanto aos servos, que sejam, em tudo, obedientes ao seu senhor, dando-lhe motivo de satisfação. Que não sejam respondões, nem furtem, mas que deem prova de toda a fidelidade, a fim de que, em todas as coisas, manifestem a beleza da doutrina de Deus, nosso Salvador.”

Contexto Histórico e Cultural

A NAA diz “servos”, mas a palavra grega é “escravos”, e não deve ser suavizada: o servo serve por escolha, o escravo é propriedade de outro. Eles eram parte da igreja de Creta, e Paulo fala diretamente a eles, não aos senhores para que repassassem a ordem; isso trata o escravo como pessoa com consciência. “Obedientes” traduz o mesmo verbo “sujeitar-se” do v. 5, de novo como ato voluntário, e “em tudo” tem o limite de sempre: em tudo o que o escravo cristão pode fazer sem pecar (At 5.29).

Seguem quatro traços. “Dando-lhe motivo de satisfação” usa uma palavra que, em todo o Novo Testamento, descreve o que agrada a Deus; o escravo agrada ao senhor porque, na verdade, serve a Cristo (Ef 6.6-7). “Não sejam respondões” usa o verbo dos que “contradizem” a doutrina em 1.9: o escravo cristão não deve ser, diante do senhor, o que os falsos mestres eram diante da verdade.

“Nem furtem” traduz nosphizomai, “pôr de lado para si”, desviar; o verbo só volta a aparecer no caso de Ananias, o homem que em Atos 5 vendeu um campo e reteve para si parte do dinheiro, mentindo à igreja (At 5.2-3). A tentação estava à mão, porque os escravos faziam as compras e cuidavam dos bens da casa. Por fim, “toda a fidelidade”: aqui a palavra “fé” significa fidelidade, confiabilidade, como no fruto do Espírito (Gl 5.22).

A finalidade é a mais bela do trecho: “que manifestem a beleza da doutrina de Deus, nosso Salvador”. O verbo é kosmeō, “pôr em ordem” e daí “adornar”. “Deus, nosso Salvador” é aqui o Pai, como em 1.3; três versículos adiante, Paulo dará o mesmo título a Jesus Cristo (v. 13). É preciso dizer duas coisas que o versículo não ensina. Primeiro, Paulo não aprova a escravidão.

A Lei punia com a morte quem raptasse alguém para vendê-lo (Êx 21.16), Paulo aconselha o escravo a aproveitar a chance de ficar livre (1Co 7.21) e pede que Onésimo, o escravo fugido que ele devolve a Filemom, seja recebido “como irmão caríssimo” (Fm 16). Em Tito, ele regula a conduta do crente numa situação que o crente não escolheu, e regular não é aprovar: Moisés permitiu o divórcio “por causa da dureza do coração”, “mas não foi assim desde o princípio” (Mt 19.8). Segundo, adornar não é provar. As boas obras não provam a salvação de ninguém; a salvação vem “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia” (3.5). As obras são o adorno que Deus espera de quem já foi salvo.

Aplicação Para Hoje

Hoje não há escravos entre nós, mas há empregados, e a aplicação é por analogia, com a diferença dita. O escravo de Creta não escolheu o senhor nem podia sair; o empregado de hoje assinou um contrato e pode deixá-lo, e buscar a Justiça do Trabalho diante de um direito violado não é rebeldia. O que passa de um caso ao outro é o caráter: nenhuma resposta atravessada ao chefe, nenhum desvio, do material de escritório ao tempo pago, e a desculpa de sempre, “eles me devem isso”, não vale. O crente confiável numa obra, numa cozinha, num escritório, faz com que o patrão e os colegas vejam o evangelho como algo belo. E o detalhe mais comovente do versículo é que o ornamento vem do lugar mais baixo da casa: quem não tinha nada, nem a própria liberdade, podia embelezar a doutrina de Deus.

Para a igreja local, isso significa valorizar o testemunho do irmão porteiro e da irmã diarista tanto quanto o do empresário. E tudo isso está pendurado no “Porque” do versículo seguinte: “Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos” (v. 11). A beleza que o escravo mostra não é a de uma moral; é a de um Salvador, que “deu a si mesmo por nós, a fim de nos remir de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, dedicado à prática de boas obras” (v. 14). Quem ainda não creu precisa saber que a ordem é essa: primeiro Cristo salva de graça, depois a vida muda; ninguém adorna uma doutrina que ainda não recebeu, e recebê-la é crer no Salvador que morreu e ressuscitou.

E quem creu e caiu, quem pela vida deu ao vizinho motivo para falar mal da palavra de Deus, não deixou de ser filho: volte para o Pai, que a graça que salvou é a mesma que educa. Os falsos mestres de Creta negavam a Deus com as obras. Os crentes, dos idosos aos escravos, adornam a doutrina de Deus com as obras, e isso quer dizer o seguinte: a nossa vida não torna o evangelho verdadeiro, porque ele já é verdadeiro sem nós, mas faz com que os de fora, olhando para ela, vejam que o evangelho de Deus, nosso Salvador, é belo, e queiram ouvi-lo.

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Referências Bibliográficas

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• Bíblia Sagrada, Nova Almeida Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. Texto grego: SBLGNT, com a análise morfológica do MorphGNT.

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