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Vídeo resumo
Creta era conhecida no mundo antigo por não ter animais selvagens, e um poeta da própria ilha brincou que os habitantes supriam a falta. Paulo vai citar esse poeta. No estudo anterior, ele mandou Tito constituir presbíteros em cada cidade e descreveu o homem que serve para isso; o último traço da lista era ser capaz de “convencer os que contradizem” o ensino sadio (v. 9). O trecho de hoje começa com “Porque” e explica por que esse traço não é enfeite: em Creta havia muitos que contradiziam, e eles tinham saído na frente, já que os presbíteros só agora estavam sendo constituídos.
Nestes sete versículos, Paulo mostra que a igreja organizada com presbíteros fiéis precisa também de presbíteros capazes de calar o erro com a Palavra, porque há mestres que falam muito, ensinam por dinheiro, trocam a graça por regras humanas e afirmam conhecer a Deus enquanto o negam com a vida. O remédio não é força nem outra lista de regras: é a verdade dita com rigor, para que os que ouvem fiquem sadios na fé. As feras de Creta não se prendem com corda; prendem-se com a palavra fiel, e o povo que essa palavra purifica se reconhece não pelo que come, mas pelo que faz.
1. Muitos insubordinados, faladores e enganadores (Versículo 10)
Tito 1:10
“Porque existem muitos, especialmente os da circuncisão, que são insubordinados, falam coisas sem sentido e enganam os outros.”
Contexto Histórico e Cultural
O “Porque” amarra o versículo à lista de qualificações. Tito deve constituir homens apegados à palavra fiel porque há “muitos” que a contradizem, e a palavra “muitos” dá o tom de urgência: se já havia tantos logo depois da passagem do apóstolo, o trabalho dos presbíteros não podia esperar. Paulo os descreve em três traços.
“Insubordinados”, anypotaktos, é a mesma palavra que ele usou para os filhos do presbítero no v. 6; não se trata de rebeldia contra uma estrutura de igreja, que em Creta ainda não existia, mas de gente que não se sujeita ao evangelho pregado por Paulo e Tito e, por isso, à autoridade apostólica. “Falam coisas sem sentido” traduz mataiologos, o falador vão, cuja conversa não leva a nada; espremida, sobra pouco. “Enganam os outros” traduz phrenapatēs, o enganador de mentes, palavra que só aparece aqui no Novo Testamento: quem os ouvia esperava a verdade e recebia opinião humana.
Quem eram? “Especialmente os da circuncisão.” A expressão designa pessoas de origem judaica, e aqui, como em Gálatas 2.12 e Colossenses 4.11, judeus que haviam crido. Creta tinha uma colônia judaica antiga e numerosa; havia cretenses em Jerusalém no dia de Pentecostes (At 2.11), e uma igreja nascida nesse ambiente tinha crentes vindos da sinagoga.
É entre eles que Paulo localiza os mestres do erro: um grupo de dentro das igrejas, não o povo judeu. Eles não exigiam a circuncisão dos gentios, como os adversários de Gálatas; o problema deles, como os vv. 14-15 vão mostrar, eram fábulas e regras de pureza. “Especialmente” pode até significar “isto é”, e nesse caso Paulo estaria dizendo que os muitos insubordinados eram justamente os convertidos do judaísmo.
É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que Paulo era contra os judeus: ele era judeu, e levou Tito, grego incircunciso, a Jerusalém como prova de que a graça não exige a circuncisão (Gl 2.3). E não ensina que todo convertido do judaísmo seguia esse caminho; o alvo são os mestres que acrescentavam regras à graça, de onde quer que viessem.
Aplicação Para Hoje
Os três traços continuam servindo de alerta. O primeiro é a insubmissão: o mestre que não se sujeita a ninguém, que não aceita correção da liderança da igreja nem da Palavra, que sai e abre o próprio canal quando é confrontado. O segundo é a fala vazia: muita conversa, pouco texto bíblico, horas de pregação de que não se lembra uma frase da Escritura. O terceiro é o engano: a promessa de uma chave, de uma revelação, de um nível de espiritualidade que os outros não alcançaram. A igreja local não precisa adivinhar corações para reconhecer isso; precisa comparar o que se ensina com o ensino dos apóstolos.
E a igreja precisa de homens preparados antes que o erro chegue, não depois. Em Creta os falsos mestres saíram na frente; Paulo responde com presbíteros apegados à palavra fiel, não com medo. Cristo avisou que viriam “falsos profetas, vestidos de ovelhas” (Mt 7.15), e deu o critério: “pelos seus frutos vocês os conhecerão” (Mt 7.16). Os frutos desses mestres aparecem no versículo seguinte.
2. É preciso calá-los, porque arruínam famílias por lucro (Versículo 11)
Tito 1:11
“É preciso fazer com que se calem, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, com a intenção vergonhosa de ganhar dinheiro.”
Contexto Histórico e Cultural
“Fazer com que se calem” traduz epistomizō, tapar a boca, pôr uma mordaça; o verbo só aparece aqui no Novo Testamento e traz a imagem da fera que precisa ser contida. Como se faz isso? Paulo não pede ao governo nem à força que cale ninguém. O único instrumento que a carta nomeia é a palavra: refutar os que contradizem (v. 9), repreender com rigor (v. 13), e, para quem persiste, “evite a pessoa que provoca divisões, depois de admoestá-la uma ou duas vezes” (3.10). Calar o erro é refutá-lo em público, pela Palavra, dentro da igreja local; fora dela, o erro continua livre para falar, mas quem ensina na casa de Deus responde ao ensino apostólico.
Dois motivos justificam a mordaça. O primeiro: “andam pervertendo casas inteiras”. O verbo, anatrepō, é o de Jesus virando as mesas dos cambistas no templo (Jo 2.15); o falso ensino pega a fé de uma família e a vira de cabeça para baixo. As igrejas de Creta se reuniam em casas, de modo que arruinar uma família era arruinar uma parte da igreja, e o ensino de 1 Timóteo 4.3, que proibia o casamento e certos alimentos, dá uma ideia do estrago. O segundo motivo: “ensinando o que não devem, com a intenção vergonhosa de ganhar dinheiro”.
O problema é o conteúdo, não a falta de credenciais, e o motivo é o lucro. A expressão é a mesma que excluiu do presbitério o “ganancioso” do v. 7: o falso mestre é o avesso do presbítero. Creta tinha fama nisso; um historiador grego de dois séculos antes de Paulo escreveu que, entre os cretenses, nenhum lucro era considerado vergonhoso. E o mundo grego conhecia bem o mestre pago, o professor de retórica que vendia palavras.
É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não condena o sustento de quem serve: a mesma carta que diz “o trabalhador é digno do seu salário” (1Tm 5.18) condena quem faz da piedade fonte de lucro. O ganho é vergonhoso porque vem do erro e porque o dinheiro era o motivo de ensinar.
Aplicação Para Hoje
Wiersbe compara a falsa doutrina ao fermento: entra sem ser notada, cresce depressa e penetra por completo, e por isso o momento de enfrentá-la é o começo. Hoje o erro entra na casa pela tela: o vídeo que manda a família romper com a igreja, o ensino que proíbe o remédio em nome da fé, o visitante que chega ao estudo bíblico da sala para plantar outra doutrina. E o sinal do lucro continua o mesmo: a oferta que “destrava” a bênção, o curso que vende a revelação, o mestre que precisa de audiência. Quem serve pelo dinheiro ou pela admiração já está desqualificado antes de começar. A igreja local responde não com susto, mas com presbíteros que conhecem a Palavra o bastante para dizer, em público e com calma, onde está o erro; e com uma congregação que não dá audiência a quem a liderança já refutou.
Cristo é o contrário do mestre pago. “De graça receberam, de graça deem” (Mt 10.8), ele disse, e virou as mesas de quem fazia negócio na casa de oração. Mas Paulo ainda vai dar um nome ao caráter desses mestres, e vai buscá-lo num poeta da própria ilha.
3. Um profeta cretense descreveu o seu próprio povo (Versículo 12)
Tito 1:12
“Foi um dos cretenses, um próprio profeta deles, que disse: “Os cretenses são sempre mentirosos, feras terríveis, comilões preguiçosos.”
Contexto Histórico e Cultural
O poeta é Epimênides, vidente e poeta de Creta que viveu uns seis séculos antes de Paulo, tão famoso que os cretenses lhe ofereciam sacrifícios como a um deus. A obra de onde a frase saiu se perdeu, mas os escritores cristãos antigos a atribuem a ele. Por que os cretenses eram chamados de mentirosos?
Eles diziam guardar na ilha o túmulo de Zeus, o deus principal dos gregos, e um deus que morreu não é deus; a fama era tanta que o grego formou um verbo com o nome da ilha, “bancar o cretense”, que significava mentir. “Feras terríveis” é a palavra dos animais selvagens aplicada a gente de natureza bestial, com a piada do próprio Epimênides sobre uma ilha sem feras. “Comilões preguiçosos” é, ao pé da letra, “ventres preguiçosos”, gente que gosta de comer sem trabalhar.
Paulo cita um pagão. Ele fez o mesmo em Atenas, com um verso sobre Deus (At 17.28), e em Corinto, com um provérbio sobre as más companhias (1Co 15.33). Citar não é endossar: a Escritura pode citar uma fonte não inspirada sem fazer dela autoridade, e o aval que Paulo vai dar no v. 13 vale para esta frase, não para a religião de Epimênides. “Profeta” é o título que os cretenses lhe davam, não um título de Deus. Os três traços do verso são o retrato dos mestres dos vv. 10-11: mentem e enganam, agem como feras rebeldes, vivem de lucro sem trabalhar.
É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que todo cretense era assim, nem autoriza uma frase sobre povos de hoje. Se valesse para cada cretense, valeria para os crentes de Creta e para o próprio Epimênides, e a frase se desmentiria. Knight observa que Paulo não está fazendo um insulto étnico; está descrevendo com precisão como o pecado que afeta toda a raça humana se mostrava naquele grupo. O mesmo Paulo que cita o verso manda constituir presbíteros cretenses (v. 5).
Aplicação Para Hoje
Há duas lições aqui, e elas parecem opostas. A primeira: o crente não deve ser ingênuo. Paulo conhecia a cultura em que a igreja vivia, com a fama de mentira, de violência e de preguiça, e preparou Tito para ela. A igreja local de hoje também precisa conhecer o terreno: a cidade onde a corrupção é regra, o bairro onde a violência é normal, o meio profissional onde mentir faz parte do jogo.
A segunda lição corrige a primeira: a igreja não tem direito a estereótipo. A piada sobre o nordestino, o carioca, o pobre, o rico, o imigrante não cabe na boca de quem prega Tito, porque o evangelho forma presbíteros justamente onde a fama é pior. Os cretenses que ouviram as grandezas de Deus na própria língua em Pentecostes vieram da mesma ilha do verso.
A fama de Creta era um deus morto e enterrado. A mensagem de Paulo era um Deus que não pode mentir, como ele disse na saudação (v. 2), e um Salvador que morreu e não ficou no túmulo. É com essa verdade que ele manda Tito tratar os cretenses, e o v. 13 diz como.
4. Repreenda com rigor, para que fiquem sadios na fé (Versículo 13)
Tito 1:13
“Este testemunho é verdadeiro. Portanto, repreenda-os severamente, para que sejam sadios na fé”
Contexto Histórico e Cultural
“Este testemunho é verdadeiro.” Paulo não apenas cita; endossa. A citação sozinha não garantiria a verdade do dito; o que a garante é o juízo do apóstolo, e só para a frase citada e para o caráter que os falsos mestres encarnavam, como mostra o “portanto” que vem logo depois. Depois do diagnóstico, a ordem: “repreenda-os severamente”. O verbo é o do v. 9, “convencer os que contradizem”, agora posto em prática; Tito age com os presbíteros que está constituindo, e não acima deles. “Severamente”, apotomōs, vem de “cortar”, como um corte de faca, e no Novo Testamento só reaparece em 2 Coríntios 13.10, onde Paulo usa o rigor da sua autoridade “para edificação e não para destruição”.
Quem deve ser repreendido? O pronome “os” abrange os muitos do v. 10 que estão dentro das igrejas e ainda podem ser corrigidos, os que falam e os que ouvem; o v. 14 vai distinguir deles os autores das regras, “gente que se desvia da verdade”. E o alvo é o que muda tudo: “para que sejam sadios na fé”.
É a palavra de médico que percorre estas cartas, a mesma do “ensino sadio” do v. 9, e aqui ela diz que a repreensão é remédio, não castigo. Ela fere para curar, como o bisturi: corta o erro para salvar o doente. “A fé”, com artigo, é o conteúdo crido; ser sadio na fé é ter o ensino certo sobre ela, e o mesmo “sadios na fé” volta em 2.2 para os idosos: é o estado normal da igreja, não um ideal raro.
É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que rigor é aspereza de temperamento. O servo do Senhor deve ser “brando para com todos”, corrigindo “com mansidão os que se opõem a ele” (2Tm 2.24-25). A firmeza está no conteúdo, que não se negocia; a mansidão está no espírito de quem corrige, que busca a restauração. Quem repreende com rigor e não deseja a cura do repreendido trocou o alvo de Paulo.
Aplicação Para Hoje
A igreja de hoje tende a errar para um dos lados. Ou tolera tudo, com medo de parecer dura, e deixa o fermento agir; ou repreende sem desejar a cura, e transforma a correção em vitória sobre o irmão. O versículo fecha as duas portas. Antes de corrigir alguém, o crente pergunta: eu quero que ele fique bem, ou quero ter razão?
A mãe que confronta o filho adolescente, o presbítero que chama o irmão que anda ouvindo um ensino estranho, a amiga que avisa a outra sobre o grupo em que entrou, todos têm o mesmo alvo: que o outro se torne sadio. A igreja local segue a ordem de Paulo: refutar com a Palavra, admoestar uma e duas vezes, e só então afastar-se de quem insiste em dividir (3.10). Nenhum passo pula o anterior.
O modelo da repreensão que cura é Cristo, que disse a verdade a Pedro depois da negação, a Tomé depois da dúvida e aos dois discípulos desanimados no caminho de Emaús, e nenhum deles saiu destruído; saíram restaurados. O alvo da repreensão é a saúde; o versículo seguinte diz de que é preciso se afastar para tê-la.
5. Longe das fábulas judaicas e dos mandamentos de homens (Versículo 14)
Tito 1:14
“e não se ocupem com fábulas judaicas, nem com mandamentos de gente que se desvia da verdade.”
Contexto Histórico e Cultural
Ser sadio na fé exige não dar atenção a duas coisas. A primeira são as “fábulas judaicas”, mythos, palavra que no Novo Testamento aparece sempre contraposta à verdade (1Tm 1.4; 4.7; 2Tm 4.4; 2Pe 1.16). Pela ligação com as “genealogias” de 1 Timóteo 1.4 e de 3.9, eram histórias inventadas a partir das genealogias do Antigo Testamento, lendas em torno de personagens menores, apresentadas como conhecimento especial. Só aqui Paulo as chama de “judaicas”, e nenhum judeu chamaria as próprias tradições de fábulas; o rótulo é de Paulo, que julga essas histórias pelo critério da verdade, e não um juízo sobre o judaísmo.
A segunda coisa são os “mandamentos de gente”, regras humanas. A expressão vem de Isaías 29.13, onde o temor do povo para com Deus consistia “só em mandamentos ensinados por homens”; Jesus a aplicou às tradições dos fariseus (Mc 7.7), e Paulo a usou contra o ascetismo de Colossos, uma cidade vizinha de Éfeso, “preceitos e doutrinas dos homens” (Cl 2.22). Nos três textos, os mandamentos humanos são o que se põe no lugar da obediência a Deus. Em Creta, como o v. 15 vai mostrar, eram regras de pureza de raiz judaica, ampliadas e impostas como caminho de santidade; o único exemplo concreto que estas cartas dão é o de 1 Timóteo 4.3, proibir o casamento e exigir abstinência de alimentos. Quem impunha essas regras eram homens “que se desviam da verdade”, um afastamento em curso; o que eles abandonavam não era uma escola, mas o evangelho da salvação pela graça, que contradiz toda forma de regulamento religioso.
É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que ensinar os mandamentos da Escritura é legalismo: legalismo é fazer de uma regra, dada ou inventada, a causa da bênção ou a medida da espiritualidade. E não ensina que a Igreja está sob as leis alimentares de Moisés: Jesus “considerou puros todos os alimentos” (Mc 7.19), e Pedro ouviu em Jope, uma cidade do litoral, “não considere impuro aquilo que Deus purificou” (At 10.15). A Igreja não é Israel.
Aplicação Para Hoje
As regras humanas raramente parecem perigosas; parecem zelo. A lista de roupas, de dias, de comidas, de costumes, de programas de televisão que a Bíblia não proíbe, quando passa a medir quem é espiritual, toma o lugar da graça, e o evangelho vira um código de conduta. O crente pode ter convicções pessoais e deve guardá-las; o que não pode é transformar a convicção em evangelho e impô-la à família e à igreja.
E as fábulas também têm forma moderna: a leitura que procura sentidos escondidos atrás do sentido claro, o código numérico, a genealogia espiritual que explica tudo. Quando o sentido claro da Escritura faz sentido, não se procure outro. A liderança da igreja faz bem em revisar, de tempos em tempos, o que exige dos membros e de onde cada exigência vem: da Escritura ou do costume.
A verdade de que esses homens se desviavam tem um resumo na própria carta: Deus “nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia” (3.5). Toda religião de regras é uma tentativa de acrescentar alguma coisa à obra terminada na cruz. Contra ela, Paulo enuncia um princípio.
6. Todas as coisas são puras para os puros (Versículo 15)
Tito 1:15
“Todas as coisas são puras para os puros; mas, para os impuros e descrentes, nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas.”
Contexto Histórico e Cultural
A frase tem forma de máxima, mas o conteúdo não é novo; é o ensino de Jesus que a Igreja já conhecia: “Não existe nada fora da pessoa que, entrando nela, possa contaminá-la; mas o que sai da pessoa é o que a contamina” (Mc 7.15). Paulo o repete em Romanos, “nada é impuro em si mesmo” (Rm 14.14), e em 1 Timóteo, “tudo o que Deus criou é bom” (1Tm 4.4). A palavra “puro”, katharos, aparece três vezes no versículo e não sempre no mesmo sentido: “todas as coisas são puras” fala de pureza ritual, do alimento e do que se toca; “para os puros” fala de pureza moral, dos que foram purificados pela fé em Cristo. É a linguagem da própria carta: Cristo se deu “a fim de nos remir de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu” (2.14). Pedro disse o mesmo no concílio de Jerusalém: Deus purificou o coração dos gentios “por meio da fé” (At 15.9).
A segunda metade inverte a primeira. “Impuros” traduz miainō, manchar, contaminar, num estado já consumado; e “descrentes”, apistos, é palavra forte: quem não crê em Cristo. Esses mestres buscavam pureza fora dele, nas próprias regras, e isso mostrava que não haviam confiado nele para ser purificados. Para eles, “nada é puro”, pelo raciocínio do profeta Ageu, que viveu no tempo da reconstrução do templo: o impuro torna impuro tudo o que toca (Ag 2.13-14).
E Paulo diz onde está a contaminação: “a mente e a consciência”. Ela não vem de fora para dentro, do prato para o homem, como eles ensinavam; vem de dentro para fora, como Jesus ensinou. Dean diz que essa mente funciona ao contrário: o que é bom, para eles é mau, e o que é mau, para eles é bom. Não são os alimentos que contaminam os mestres; são os mestres que contaminam os alimentos.
É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não é licença. “Todas as coisas” são as coisas que Deus criou para serem recebidas com gratidão, não o pecado que a própria carta condena (2.12; 3.3); a diferença entre a arte e a pornografia não está nos olhos de quem vê. A liberdade do versículo é liberdade diante de regras humanas, não diante da vontade de Deus. E o versículo não ataca o irmão de consciência fraca de Romanos 14, que tem escrúpulo e pede paciência; ataca o mestre que tem regras e as impõe a todos.
Aplicação Para Hoje
A pureza começa por dentro, e a disciplina cristã também: pelo que se pensa e se admite no coração, à luz da Palavra (Fp 4.8), e não pela vigilância do prato alheio. O crente de hoje precisa distinguir três pessoas que se parecem. O irmão fraco, sincero e mal informado, que não come carne de porco por consciência: ele deve seguir a consciência, e o forte não a atropela, nem serve a ele no churrasco o que o faria tropeçar. O irmão forte, que sabe que tudo é puro e desfruta com gratidão.
E o legalista, que chegou às suas convicções e quer impô-las a todos como caminho de pureza. Com o primeiro, paciência e ensino; com o segundo, liberdade; com o terceiro, a refutação do v. 9. A igreja local acolhe a consciência sensível e refuta o mestre da dieta, e não confunde um com o outro.
Quem purifica é Cristo, com o próprio sangue, não a regra com a própria lista. E quem foi purificado por ele pode olhar para a mesa sem medo. Mas os mestres de Creta diziam conhecer esse Deus, e o v. 16 dá o veredito.
7. Afirmam conhecer a Deus, mas o negam pelas obras (Versículo 16)
Tito 1:16
“Afirmam que conhecem a Deus, mas o negam por meio do que fazem; é por isso que são abomináveis, desobedientes e reprovados para qualquer boa obra.”
Contexto Histórico e Cultural
“Afirmam”, homologeō, é declarar em público: conhecer a Deus era o orgulho dos judeus diante dos pagãos, como Paulo descreve em Romanos 2.17. Esses mestres falavam como crentes, e talvez exibissem uma espiritualidade mais alta que a dos líderes fiéis; Paulo enxergou através da fachada. “Mas o negam por meio do que fazem”: o verbo é o de 1 Timóteo 5.8, onde quem não cuida dos seus “negou a fé”.
Quais obras? O ascetismo que rejeita o que Deus deu, e a vida inteira de rebeldia (v. 10) e ganância (v. 11). Mounce chama este de o versículo-dobradiça da carta inteira, porque o resto dela vai tratar das boas obras que esses mestres não tinham.
O veredito vem em três palavras. “Abomináveis” é da família da “abominação” que no Antigo Testamento é o detestável a Deus, sobretudo a idolatria; a ironia é que quem encontrava abominação em cada prato era, ele mesmo, abominável. “Desobedientes” são os que não se deixam persuadir: obedecem a mandamentos de homens e desobedecem a Deus. “Reprovados”, adokimos, é a palavra do metal que não passou no teste, da moeda falsa, do soldado que falhou, da pedra que os construtores marcavam e punham de lado; aqui, reprovados “para qualquer boa obra”, justamente no que Deus espera do seu povo, porque Cristo purificou para si um povo “dedicado à prática de boas obras” (2.14). O teste foi a vida, e eles foram reprovados.
É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não é um teste para o crente medir a própria salvação, como se a falta de obras provasse que nunca creu. É um diagnóstico dado a Tito para reconhecer mestres pela vida pública, como Jesus mandou reconhecer os falsos profetas pelos frutos (Mt 7.15-20).
O núcleo dos mestres de Creta eram “descrentes” (v. 15), incrédulos que professavam conhecer a Deus. O crente pode viver de modo carnal (1Co 3.1-3) e ser “desqualificado” do prêmio (1Co 9.27) sem perder a vida eterna, que repousa na promessa recebida pela fé (Jo 5.24). As obras não provam a salvação de ninguém; são o que Deus espera de quem já foi salvo.
Aplicação Para Hoje
A igreja local observa num mestre o que Jesus mandou observar: os frutos. Os presbíteros não precisam adivinhar corações; comparam o ensino com a sã doutrina e a vida com o ensino. O pregador que vive do que denuncia, o mestre cujo lar desmente o púlpito, o influenciador religioso cujas finanças ninguém pode ver: a profissão de boca não basta. Mas o crente que ouve este versículo não deve sair do culto contando obras para saber se é salvo.
A pergunta certa é a do começo da carta (v. 2): Deus mente? Quem creu em Cristo “tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24). O mesmo texto que desmascara o falso mestre chama o salvo às boas obras para as quais Cristo o purificou, e a falta delas custa utilidade e galardão, não a salvação.
Voltamos às feras de uma ilha sem feras. Paulo não as prendeu com corda, nem com decreto, nem com outra lista de regras; mandou presbíteros apegados à palavra fiel refutá-las, repreender com rigor para curar e ensinar que a pureza vem de dentro, de um coração purificado pela fé. O que separa o crente do falso mestre não é uma virtude própria: “nós também, no passado, éramos insensatos, desobedientes” (3.3), e foi a misericórdia de Deus que nos salvou. Quem ainda não creu precisa saber que nenhuma regra purifica, e que Cristo purifica de graça quem nele crê. E quem creu, e talvez tenha se deixado levar por fábulas ou por regras, pode voltar à palavra sadia: ela não foi feita para prender, mas para curar.
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Referências Bibliográficas
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