Série: Novo Testamento • Estudo Bíblico

Romanos 13:8-14: A dívida que não se quita e a hora de despertar

"Não fiquem devendo nada a ninguém, exceto o amor de uns para com os outros. Pois quem ama o próximo cumpre a lei. Romanos 13:8"

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Em Romanos 13.8-14, Paulo fecha a seção prática da carta com duas ordens: pagar todas as dívidas, menos a única que nunca se quita, e acordar, porque o dia está chegando. A carta foi escrita de Corinto, por volta de 57 d.C., no começo do reinado de Nero, antes do incêndio de Roma e da perseguição. Paulo escreve a congregações domésticas onde judeus e gentios convivem com alguma tensão, e escreve numa cidade em que os banquetes noturnos, com bebida, sexo e briga, eram o entretenimento normal.

Os vícios do versículo 13 não são uma lista abstrata: descrevem o que acontecia nas ruas de Roma depois que escurecia. O trecho vem logo depois da passagem sobre o governo. O versículo 7 manda pagar a todos o que lhes é devido, imposto, tributo, respeito e honra; o versículo 8 abre com o mesmo verbo, “não fiquem devendo”, e fecha o assunto das obrigações para abrir o assunto da única obrigação que não se fecha.

A passagem tem duas partes. Os versículos 8 a 10 tratam do amor como cumprimento da lei, e formam uma moldura: “cumpre a lei” no começo, “o cumprimento da lei” no fim, e no meio os mandamentos que protegem o próximo. Os versículos 11 a 14 dão o motivo de tudo o que Paulo mandou desde o capítulo 12: a hora. Não é moralismo; é coerência com o relógio de Deus.

E há uma história por trás dos dois últimos versículos. Foi lendo Romanos 13.13-14, num jardim em Milão, no ano 386, que Agostinho se converteu. Ele ouviu uma criança cantar “toma e lê”, abriu a carta ao acaso e caiu exatamente nestas palavras. Voltaremos a isso no fim.

1. A única dívida que não se quita (Versículo 8)

Romanos 13:8
“Não fiquem devendo nada a ninguém, exceto o amor de uns para com os outros. Pois quem ama o próximo cumpre a lei.”

Contexto Histórico e Cultural

O grego traz uma dupla negação, “a ninguém, nada”, com as duas palavras quase idênticas e postas antes do verbo, para chamar a atenção do ouvinte. O verbo está no presente, que descreve um modo de vida e não um ato isolado. O primeiro sentido é o mais óbvio: fechar as contas. O versículo 7 acabou de falar de tributo e imposto, e os cristãos dos primeiros séculos leram o versículo 8 na continuidade dele, como parte das obrigações para com as autoridades e para com todos.

Mas a frase é mais ampla do que dinheiro, porque no versículo 7 também se deve respeito e honra, e porque no pensamento judaico dívida e pecado eram intercambiáveis. Na oração do Senhor, Jesus manda pedir perdão pelas “dívidas” (Mateus 6.12), e dois versículos depois explica com outra palavra, “transgressões”. Não ficar devendo nada a ninguém alcança, portanto, tudo o que se deve a alguém: o dinheiro, o prazo prometido, o respeito, a reparação de uma ofensa.

O versículo não proíbe tomar emprestado. Jesus mandou não virar as costas a quem pede emprestado (Mateus 5.42), e o Salmo 37.21 diz que o ímpio é o que toma emprestado e não paga, não o que toma emprestado. O que a Bíblia condena é a dívida que não se paga, e o que ela aconselha é cautela, porque quem toma emprestado fica servo de quem empresta (Provérbios 22.7). O mandamento é: pague o que deve, e não deixe dívida pendurada.

Então vem a exceção, e ela é o coração do versículo. Há uma dívida que sempre ficará em aberto, porque nunca se paga por inteiro: a de amar. Podemos pagar os impostos e ficar quites. Podemos dar respeito e honra a quem é devido e não ter mais obrigação.

Mas ninguém pode dizer “já amei o suficiente”. Leon Morris formulou assim: o amor é uma obrigação permanente, uma dívida impossível de quitar. E quem ama “o outro”, e a palavra grega é heteros, o de tipo diferente, cumpre a lei. O próximo não é escolhido por nós; é dado por Deus, e é aquele que as circunstâncias põem ao alcance da nossa ação para o bem ou para o mal.

Aplicação Para Hoje

A primeira aplicação é fechar as contas que podem ser fechadas. Isso é concreto: a parcela atrasada, o dinheiro emprestado por um irmão da igreja e nunca mais mencionado, a devolução prometida, o prazo que se deixou passar. Charles Swindoll dá a regra: não faça o credor ir atrás de você; procure-o, seja franco e combine como vai pagar. E há um teste simples de honestidade: quem vive de crédito para parecer mais próspero do que é está, no fim das contas, mentindo sobre si mesmo. Andy Woods conta que o pai, advogado, o levava a visitar clientes em mansões com garagem para vários carros e alameda comprida, e dizia ao menino impressionado: não fique tão impressionado até ver a prestação da casa.

A segunda aplicação é sobre o peso espiritual da dívida. Ela não é só um problema administrativo. Quem deve muito passa a viver pensando em como pagar, e não em Deus; presume sobre o amanhã, sobre o emprego que continuará e o aumento que virá, coisa que Tiago 4.13-16 proíbe; e contorna o processo pelo qual Deus guia, porque, quando o cartão dá acesso imediato ao dinheiro que ainda não se ganhou, não é mais preciso esperar por ele. Woods conta que a igreja que ele pastoreia não tem dívidas por decisão estatutária, e explica por quê: porque não há uma dívida enorme pendurada sobre a cabeça, o púlpito pode dizer a verdade todo domingo. Ele viu uma igreja assumir uma dívida pesada e, em pouco tempo, deixar de falar de pecado, de inferno e do tribunal de Cristo, com medo de espantar quem paga as contas.

A terceira aplicação é a lista de pessoas difíceis. Se o próximo é “o outro”, o de tipo diferente, então o mandamento tem endereço: diferente em crenças, em política, em temperamento, em gosto, em origem. Num país polarizado, isso não é abstrato. Escreva o nome de três pessoas de quem você divergiu publicamente nos últimos meses, no trabalho, na família ou num grupo de mensagens, e defina uma ação de bem para cada uma dentro do mês. A afeição costuma vir depois do ato, não antes.

2. O amor como cumprimento da lei (Versículos 9 a 10)

Romanos 13:9-10
“Pois estes mandamentos: “Não cometa adultério”, “não mate”, “não furte”, “não cobice”, e qualquer outro mandamento que houver, todos se resumem nesta palavra: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.” O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o cumprimento da lei é o amor.”

Contexto Histórico e Cultural

Paulo cita quatro mandamentos da segunda tábua, os que tratam do próximo, e não os da primeira, que tratam de Deus, porque o assunto aqui é o próximo. A ordem em que ele os cita, adultério antes de homicídio, é a ordem em que os judeus da dispersão os conheciam pela tradução grega. E “qualquer outro mandamento que houver” é mais amplo do que parece. A legislação do Sinai tem duas camadas: os Dez Mandamentos, que são o fundamento, e o Livro da Aliança, em Êxodo 20.22 a 23.33, que os aplica a todas as áreas da vida em forma de casos, “se o seu boi entrar no campo do vizinho, então…”. Somando Êxodo, Levítico e Deuteronômio, chega-se aos 613 mandamentos, e é esse conjunto inteiro que Paulo diz estar resumido numa frase.

A frase é Levítico 19.18, o texto do Antigo Testamento mais citado no Novo, e Paulo a recebe de Jesus, que a pôs ao lado de “ame o Senhor seu Deus” e disse que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (Mateus 22.37-40). Resumir a lei numa frase não era novidade entre os rabinos; a novidade é o uso do resumo. Para os rabinos, o princípio era o ponto de partida para deduzir os demais mandamentos e aprendê-los todos.

Para Paulo, o amor é de tal modo a substância da lei que pode ficar no lugar dela. O verbo “cumpre”, no versículo 8, está no perfeito: quem trata o outro com amor já fez, quanto àquela pessoa, o que a lei pedia. Não é cumprimento exaustivo de todas as exigências, coisa que Romanos 3 diz ser impossível; é fazer, em cada relação, o que a lei de fato queria.

“Como você ama a si mesmo” não é um terceiro mandamento, o de amar-se. Jesus falou de um primeiro e de um segundo, sem mencionar um terceiro; o amor de que Paulo fala é o amor que se doa, e não pode voltar-se sobre si mesmo; e a Escritura pressupõe que todos já se amam. Quem diz “eu me odeio, sou um fracasso” prova o contrário: se realmente se odiasse, ficaria feliz por ser um fracasso. A frase dá a medida realista de um amor que já existe e manda transferi-lo ao outro.

E o versículo 10 explica por que o amor cumpre a lei: porque não faz mal. O homicídio rouba a vida; o adultério rouba o lar e a honra; o furto rouba a propriedade; a cobiça rouba o contentamento. Tudo isso fere o próximo, e o amor busca o bem dele.

Aplicação Para Hoje

A primeira aplicação é o teste do pecado sem vítima. Se a lei proíbe o que fere, então todo pecado fere alguém, e não existe pecado sem vítima. Antes de justificar um comportamento com o argumento de que “não faz mal a ninguém”, nomeie a pessoa que ele afeta. Se não conseguir nomear ninguém, procure a segunda linha: o cônjuge, o filho, o colega, a igreja, o testemunho diante do vizinho que não crê.

A segunda aplicação é sobre o que o versículo não diz. Amor não é o fim da lei; é o cumprimento dela. Há quem ensine que, na era da graça, nada mais é prescrito senão o amor, e que o amor tem a sua própria bússola e descobre sozinho o que cada situação exige. É uma confiança ingênua na infalibilidade do amor.

John Stott responde numa frase que vale guardar: o amor precisa da lei para a sua direção, e a lei precisa do amor para a sua inspiração. É por isso que o argumento de que “o amor justifica” não serve para desculpar o adultério: o amor, como resumo da lei, inclui o mandamento de não cometer adultério. Basta perguntar se o adultério costuma construir famílias ou destruí-las.

A terceira aplicação é sobre sentimento. O amor deste versículo não é definido por sentimentos, mas por ações: o seu princípio básico é não produzir o que é ruim para o próximo. Numa cultura que glorifica o que se sente, há cristãos que se culpam por não sentir por um irmão a emoção que identificam como amor.

A palavra grega não era fortemente emocional. Você pode agir com amor hoje por alguém de quem não gosta, e é exatamente isso que o versículo pede. O amor de que Paulo fala é o que se faz, e o que se faz por alguém tende a produzir, com o tempo, o que se sente.

3. Conhecer o tempo e despertar (Versículo 11)

Romanos 13:11
“E digo isto a vocês que conhecem o tempo: já é hora de despertarem do sono, porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos.”

Contexto Histórico e Cultural

“E digo isto” liga o que vem ao que passou: ame o próximo, e faça isso sabendo que horas são. A palavra para “tempo” não é a do calendário, chronos, mas kairos, a estação determinada, o tempo com qualidade própria. A diferença é a que existe entre perguntar “que horas são” e perguntar “que hora é esta”: a primeira se responde com o relógio; a segunda, com o que Deus está fazendo. O tempo que os leitores conhecem é este: a era presente e a era vindoura se sobrepõem, o Reino foi inaugurado por Jesus e ainda não foi consumado, e nada precisa acontecer antes que ele volte para a sua Igreja. Paulo escreve como quem lembra o que a igreja já sabe, e não como quem revela algo novo.

Quem está dormindo? Crentes. O texto diz que a salvação está mais perto “do que quando cremos”: os destinatários estão na fé, e ainda assim Paulo lhes diz “acordem”. Dormir, aqui, é a figura do cristão que não vive ativamente a vida espiritual, que só cumpre os movimentos, talvez em carnalidade.

Efésios 5.14 usa a mesma imagem para crentes: “desperte, você que dorme”. E é possível fazer muitas coisas cristãs dormindo: há quem fale dormindo, ouça dormindo, cante dormindo. O “já” carrega a urgência: a hora já soou.

A salvação que está mais perto não é a justificação, que já aconteceu; é a glorificação, que vem. A salvação tem três fases: fomos salvos da penalidade do pecado, quando cremos; estamos sendo salvos do poder do pecado, ao longo da vida cristã; e seremos salvos da presença do pecado, quando virmos o Senhor. Aqui está em vista a terceira, a redenção do corpo de Romanos 8.23.

E “mais perto” não quer dizer “em breve”. Iminente não significa próximo; significa que nenhuma profecia precisa cumprir-se antes de Cristo vir buscar a Igreja, e é por isso que a afirmação de Paulo continua verdadeira dois mil anos depois. Ele não previu prazo nenhum; disse apenas que a salvação está mais perto do que estava, o que é verdade todo dia.

Aplicação Para Hoje

A primeira aplicação é reconhecer o sono. É possível um filho da luz dormir? Se não fosse, o mandamento de Paulo não faria sentido: ele escreve a crentes e manda acordar.

Dormir na luz é a condição de quem tem tudo o que precisa para andar e não anda. O teste é o versículo 13, que veremos: se a minha vida, mesmo como cristão, pode ser descrita por discórdia e ciúme, estou dormindo na luz. E há um sinal mais simples: quando a oração é a última coisa que se tenta, depois que tudo o mais falhou.

A segunda aplicação vem do tempo verbal. Se alguém pergunta “você é salvo?”, a resposta completa é: fui salvo, estou sendo salvo e serei salvo. E a certeza da terceira fase muda a vida presente. Woods conta o exame oral do seu doutorado: dois anos de curso, quatro professores, duas horas de arguição sem lista de conteúdo.

Isso motivou a diligência dele em sala? Claro que sim; quando o professor pigarreava, ele anotava. O tribunal de Cristo não é um julgamento para decidir se somos salvos, o que já foi decidido na fé; é um julgamento de recompensa, e saber que ele vem torna o crente mais útil na terra, não menos. É o contrário do clichê de que quem pensa no céu não serve para nada aqui.

A terceira aplicação é uma auditoria. Só duas coisas atravessam desta vida para a próxima: a Palavra de Deus e as almas das pessoas. Abra a agenda das últimas quatro semanas e some as horas em três colunas: Palavra, pessoas e o resto.

Não é para produzir culpa; é para produzir um número. Depois, mova uma hora fixa por semana de uma coluna para outra. Não sabemos a data, mas sabemos isto: estamos um dia mais perto do que ontem.

4. Despir as trevas e vestir as armas da luz (Versículo 12)

Romanos 13:12
“Vai alta a noite, e o dia vem chegando. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz.”

Contexto Histórico e Cultural

A noite está adiantada, e o dia está às portas; o verbo é o mesmo com que Jesus disse que o Reino “está próximo” (Marcos 1.15). A imagem ainda diz que a noite não acabou e o dia não chegou, e não sabemos o quanto a noite avançou. A noite é a era presente, e Paulo usa a figura em sentido inverso ao de Jesus em João 9.4, onde o dia é a presença de Cristo na terra e a noite é a sua ausência.

Os dois dizem a mesma coisa por caminhos opostos: há uma missão a cumprir antes que o tempo acabe. Uma definição funcional ajuda: a noite é o agora, o tempo entre a justificação e a glorificação, em que ainda podemos voltar ao pecado se quisermos. Virá o dia em que não poderemos mais.

As duas ordens vêm do vestuário. Despir vícios era imagem mais comum entre os gregos; vestir virtudes, mais comum entre os hebreus; Paulo junta as duas. Quando alguém se veste de manhã, veste-se de modo apropriado a quem é e ao que vai fazer. Spurgeon pôs de modo duro: os trapos do pecado precisam sair se vamos vestir o manto de Cristo, e é vão tentar vestir a religião como uma espécie de macacão celestial por cima dos velhos pecados. Mas aqui é preciso uma distinção que organiza tudo o que vem a seguir.

As mesmas palavras, despir e vestir, são usadas na Escritura em dois sentidos. Em Gálatas 3.27 e Colossenses 3.9-10 elas descrevem o que já aconteceu na conversão: o crente se revestiu de Cristo, despiu o velho homem. Aqui e em Colossenses 3.8 elas são ordens para o presente. A primeira coisa é posição; a segunda é experiência. E a posição é a base da experiência, não a dispensa dela.

As “armas da luz” são equipamento militar: a palavra só aparece em Romanos aqui e em 6.13, e Paulo provavelmente tem em mente o soldado completamente armado de Efésios 6, cuja descrição começa com o mesmo verbo, “revistam-se”. Em 1 Tessalonicenses 5.8 ele diz do que a armadura é feita: a couraça da fé e do amor, e o capacete da esperança da salvação. Uma precisão ajuda a aplicar: a armadura é defensiva. Ninguém derrota o inimigo com a armadura; protege-se dele.

Aplicação Para Hoje

A primeira aplicação é entender por que a ordem faz sentido. Se a santificação fosse automática, se todo crente vivesse necessariamente para Deus pela soberania dele, e quem não vive assim não fosse crente, o mandamento inteiro seria sem sentido: Paulo está falando a quem já creu, e manda acordar e se vestir. Esses imperativos pressupõem que a obediência não é automática, que envolve a cooperação da vontade, e que os recursos que recebemos em Cristo precisam ser apropriados momento a momento, pela fé, do mesmo modo que fomos salvos.

A segunda aplicação é a distinção entre posição e experiência, aplicada à vida comum. Quando uma criança faz algo fora do padrão da família, os pais dizem “como você pode ser desta família e fazer uma coisa dessas?”. Não estão expulsando o filho; estão dizendo que há um padrão nesta casa e aquilo não cabe nele. É assim que Paulo fala: você é filho da luz, é a sua identidade; agora viva como filho da luz. Quando pecamos, não deixamos de ser da família; deixamos de andar na luz, e o caminho de volta é a confissão de 1 João 1.9.

A terceira aplicação é a rotina de vestir-se. A metáfora é doméstica e diária, e a prática pode ser também: uma ordem fixa de manhã, antes do celular, em que se lê uma cena dos Evangelhos e se nomeia diante de Deus a peça de armadura de que se vai precisar naquele dia. Quem sai de casa sem a couraça da fé e do amor descobre no meio do dia que está desprotegido, e a armadura não se veste no meio da batalha.

5. Viver como em pleno dia e revestir-se de Cristo (Versículos 13 a 14)

Romanos 13:13-14
“Vivamos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedeiras, não em imoralidades e libertinagem, não em discórdias e ciúmes. Mas revistam-se do Senhor Jesus Cristo e não façam nada que venha a satisfazer os desejos da carne.”

Contexto Histórico e Cultural

Os dois versículos alternam positivo e negativo: vivam dignamente; não nisto; revistam-se de Cristo; não façam provisão para a carne. “Como em pleno dia” está em posição de ênfase no grego: Paulo manda viver como se o dia já tivesse chegado e estivéssemos nele. As pessoas se comportam de um jeito no escuro, quando acham que ninguém vê, e de outro na luz. O cristão vive como quem sabe que é visto, porque é: Deus e os anjos olham (Efésios 3.10), e um pecado secreto aqui é um escândalo público no céu.

Os três pares de trevas descrevem a noite romana. “Orgias e bebedeiras” são a festa noturna em honra de Baco, que começava com uma procissão embriagada e terminava em imoralidade; não é uma proibição de se divertir nem do vinho com moderação, mas de fazer da bebida uma recreação que controla a pessoa em vez do Espírito. “Imoralidades e libertinagem” é o excesso sexual e o desprezo pelas normas; a intimidade no casamento não está em questão. E “discórdias e ciúmes” é o zelo que não quer ajudar o outro, mas prejudicá-lo. A ordem dos três pares não parece acidental: bebida leva a imoralidade, ou a briga.

E uma observação de N. T. Wright precisa ser dita: discórdia e ciúme estão exatamente no mesmo nível da imoralidade, e há muitas igrejas onde os quatro primeiros pecados são inauditos e os dois últimos correm soltos. Paulo usa esses dois em 1 Coríntios 3.3 como a prova de que crentes eram carnais.

“Revistam-se do Senhor Jesus Cristo” não é uma expressão estranha para o leitor antigo: um historiador da época dizia “vestir Tarquínio” no sentido de representar o papel de Tarquínio, e a intensidade com que um ator vive um papel é a intensidade de dedicação que se pede ao crente. Mas não é só imitar; é ser coberto por ele. Crisóstomo disse que Paulo nos manda ser circundados por Cristo de todos os lados, como uma veste que cobre o corpo, para que ele seja tudo para nós, por dentro e por fora. E “Senhor” vem primeiro porque é a soberania dele, sobre nós e sobre as forças contrárias, que está em vista.

A última cláusula fecha o trecho com uma palavra rara, pronoia, previdência, premeditação: não planejar de antemão a ocasião do pecado. A carne não foi erradicada; foi derrotada, mas não desabilitada, e continua fazendo as suas exigências. O que se proíbe não é prover para o corpo, mas prover para os desejos dele.

Aplicação Para Hoje

A primeira aplicação é não deixar a porta encostada. O versículo 14 proíbe a premeditação, não só o ato, porque o pecado quase sempre começa com um plano, ou pelo menos com a decisão de deixar a opção aberta. Identifique a sua porta encostada: o aplicativo, o horário, o caminho de volta, a conversa que você mantém aberta, a garrafa guardada “por precaução”. E feche-a de modo que reabri-la custe esforço.

Swindoll dá exemplos operacionais: bloquear canais na operadora, pedir ao hotel que bloqueie conteúdo adulto antes da viagem, pôr o computador onde qualquer um que passe veja a tela. Robert Dean acrescenta uma deformação que ele viu no próprio meio: se confessar o pecado depois de cometê-lo é a norma, alguém inventou confessar antes de pecar, para seguir tranquilo. Isso é licenciosidade, e o versículo 14 existe para fechar essa porta.

A segunda aplicação é para a igreja. Se a única lista de pecados que uma comunidade nomeia é a de conduta sexual e bebida, o versículo 13 está sendo lido pela metade. Discórdia e ciúme, a facção, a rivalidade, a disputa por posição, precisam entrar explicitamente no que se confronta e se disciplina, porque Paulo os pôs no mesmo lugar dos outros quatro. A terceira aplicação é a história com que começamos. Agostinho tinha uma amante e um filho fora do casamento, e estava intelectualmente convencido do cristianismo, mas com medo de não conseguir dominar a própria carne.

Leu “revistam-se do Senhor Jesus Cristo e não façam provisão para a carne”, e entendeu que a força não estava nele, mas na sua união com um Salvador crucificado e ressurreto. Ironside conta que, tempos depois, ao cruzar na rua com uma antiga companheira, ele deu meia-volta e saiu correndo; ela gritou “Agostinho, por que foges? Sou apenas eu”, e ele respondeu, correndo: “eu fujo porque não sou mais eu”. Os versículos não tratam de salvação, e Deus os usou para salvar; isso mostra a graça de Deus, não um método de leitura. Mas mostram também o que Paulo estava pedindo: uma vida em que Cristo cobre a pessoa inteira, e a carne não encontra onde entrar.

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Referências Bibliográficas

• BERCOT, David W. Romans: How Romans Was Understood Before Augustine and Luther. The Historic Faith Commentary Series.

• BRUCE, F. F. Romans. Tyndale New Testament Commentaries.

• DEAN JR., Robert. Série Romans (2010), lições 144 a 148. West Houston Bible Church e Dean Bible Ministries.

• DUNN, James D. G. Romans 9-16. Word Biblical Commentary 38B.

• GUZIK, David. Enduring Word Bible Commentary, Romanos 13. enduringword.com.

• HODGES, Zane C. Romans: Deliverance from Wrath.

• IRONSIDE, H. A. Lectures on the Epistle to the Romans, Lecture 11.

• PAWSON, David. A Commentary on Romans.

• STOTT, John R. W. The Message of Romans. The Bible Speaks Today.

• SWINDOLL, Charles R. Swindoll’s Living Insights New Testament Commentary: Romans.

• WIERSBE, Warren W. The Wiersbe Bible Study Series: Romans, lição 11, e Be Right.

• WOODS, Andy. Série Divine Righteousness Revealed, sessões 41 e 42. Sugar Land Bible Church, spiritandtruth.org.

• WRIGHT, N. T. The Letter to the Romans: Introduction, Commentary and Reflections. The New Interpreter’s Bible.

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