Série: Filipenses • Estudo Bíblico

Filipenses 3.12-21: A corrida de quem já foi alcançado por Cristo

"Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, Filipenses 3:20"

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Nos versículos anteriores, Paulo abriu o livro de contas da própria vida, declarou perda todo o seu currículo religioso e disse com que justiça quer ser achado em Cristo: a que vem de Deus, pela fé (v. 9). Depois contou o que passou a querer: conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição, a parceria nos seus sofrimentos e, no fim, a ressurreição dentre os mortos (vv. 10-11). Quem ouvisse isso poderia concluir que o apóstolo já tinha chegado ao fim desse caminho, à posse completa de Cristo e a uma maturidade acabada, sem mais nada a percorrer. O trecho de hoje começa corrigindo essa impressão. Paulo, preso em Roma, com trinta anos de serviço e igrejas fundadas do Oriente até a Grécia, diz que ainda não chegou ao fim da corrida e que continua correndo.

O fio que vamos acompanhar é este: quem foi alcançado por Cristo corre para alcançar aquilo para o que Cristo o alcançou, imitando os que imitam Cristo e vivendo como cidadão do céu à espera do Salvador. O capítulo inteiro é um caminho entre dois abismos. De um lado está o legalismo do começo do capítulo, que acrescenta obras à cruz; do outro, a licença dos vv. 18-19, que transforma a graça em desculpa. Paulo corre entre os dois e chama a igreja local a correr com ele.

1. Ainda não cheguei, mas Cristo já me alcançou (Versículo 12)

Filipenses 3:12
“3.12 Não que eu já tenha recebido isso ou já tenha obtido a perfeição, mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.”

Contexto Histórico e Cultural

“Não que” é a fórmula com que Paulo barra uma conclusão apressada. O que ele ainda não recebeu não é a justiça, que já lhe foi dada pela fé e que ninguém lhe tira. É o fim da corrida: a posse plena de Cristo e a ressurreição que ele acabou de descrever. A palavra traduzida por “obtido a perfeição” vem da raiz que significa fim, alvo, e quer dizer chegar ao término, ficar completo. Paulo não nega ter crescido; nega ter chegado ao fim.

Isso derruba duas ideias que rondam as igrejas até hoje. A primeira é a de que existe nesta vida uma perfeição sem pecado, alcançada por uma segunda bênção ou por uma experiência especial; Paulo nunca ensinou isso, e o melhor que o crente alcança aqui é pecar menos, até que o corpo ressurreto não tenha mais a velha natureza. A segunda é a de que a salvação é a linha de chegada. Para Paulo, ela é a largada.

O verbo “prossigo” é o verbo da caça e da perseguição, correr atrás de alguma coisa com tudo. É o mesmo verbo com que ele se descreveu no v. 6 como “perseguidor da igreja”. A energia é a mesma; mudou o rumo. E a ordem das coisas é decisiva: Paulo corre para conquistar “aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus”.

A palavra é a de quem agarra e segura. No caminho de Damasco, Cristo o agarrou em plena marcha, parou o perseguidor e lhe deu uma direção nova para a vida inteira. A corrida não é o meio de ser alcançado por Cristo; é a resposta de quem já foi alcançado. E para que Cristo o alcançou?

Para que ele fosse transformado à imagem do Filho (Rm 8.29). Dean diz isso sem rodeios: “A maioria dos cristãos nunca ouviu isso antes; pensam que Deus os salvou só para que possam ir para o céu. Deus os salvou para poder transformá-los no caráter de Jesus Cristo.”

Aplicação Para Hoje

A pergunta que este versículo faz a cada um de nós é simples: para que Cristo me alcançou? Se a resposta for apenas “para que eu vá para o céu”, vamos passar a vida cristã sentados na arquibancada, esperando o fim do jogo. Cristo nos alcançou para nos fazer parecidos com ele, e esse trabalho começa no dia da conversão e só termina quando o virmos. Quem entende isso não se acomoda com o que já aprendeu nem se desespera com o que ainda falta.

Também não precisa fingir que já chegou à linha de chegada. O apóstolo mais usado por Deus no primeiro século disse “ainda não”, e isso nos dá liberdade para dizer o mesmo. O que não podemos é parar de correr, porque a mão que nos alcançou continua apontando para a frente. Na prática, isso muda o jeito de olhar para a leitura da Bíblia, para a oração e para o serviço na igreja local: não são obrigações para manter a salvação, que já é nossa, mas o caminho pelo qual Cristo faz em nós aquilo para o que nos alcançou.

2. Uma coisa faço: esqueço o que ficou para trás e avanço (Versículo 13)

Filipenses 3:13
“Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e avançando para as que estão diante de mim,”

Contexto Histórico e Cultural

Paulo repete a ressalva e chama os leitores de “irmãos”, lembrando que toda essa história está sendo contada por causa deles. O verbo “julgo” é o do cálculo, de quem pesa os fatos e conclui. Depois vem a frase que define a vida dele: “uma coisa”. No grego nem há verbo; a NAA supre “faço”.

A Escritura gosta dessa expressão. “Uma coisa te falta”, disse Jesus ao jovem rico (Mc 10.21); “uma coisa é necessária”, disse a Marta (Lc 10.42); “uma coisa peço ao Senhor”, cantou Davi (Sl 27.4). A vida cristã espalhada em mil alvos não é corrida; é passeio.

Essa “uma coisa” tem dois movimentos, e os dois vêm dos jogos que os filipenses conheciam. O corredor não olha para trás, porque perde passo e direção, e se inclina para a frente, o corpo todo estendido na direção da chegada. “Esquecendo-me” não é amnésia; é tirar da mente, deixar de dar atenção. E o que fica para trás? Pelo contexto, são sobretudo as coisas que Paulo contava como lucro nos vv. 4-8: o currículo, as credenciais, tudo o que lhe dava posição diante de Deus.

É disso que ele não quer mais saber. Aplicar o versículo também aos pecados confessados e perdoados é legítimo, porque Deus os lança nas profundezas do mar (Mq 7.19) e os afasta de nós como o oriente do ocidente (Sl 103.12). Mas esquecer não é negar. Quem feriu alguém confessa a Deus e, quando cabe, confessa e repara diante de quem foi ferido (Mt 5.23-24). E quem sofreu abuso não é chamado por este versículo a calar nem a “esquecer”: levar o caso aos presbíteros e, havendo crime, às autoridades é obediência, não falta de perdão.

Aplicação Para Hoje

Muita gente dirige a vida olhando pelo retrovisor. Alguns olham para as glórias: o que já fizeram na igreja, os anos de serviço, o título que receberam, e param de correr porque acham que já deram a sua contribuição. Outros olham para os fracassos: a queda de anos atrás, o casamento que acabou, o pecado que Deus já perdoou, e param de correr porque acham que não têm mais direito à pista. Paulo tinha nas costas um passado de perseguidor que mandou cristãos para a prisão, e nem isso o fez parar.

Se Deus não guarda contra nós o pecado confessado, ficar remoendo o que ele perdoou não é humildade; é desconfiança da graça. A memória perdoada deixa de ser corrente e vira testemunho, como aconteceu com o próprio Paulo (1Tm 1.13-15). O que está diante de nós vale mais do que tudo o que ficou para trás, porque quem está à frente é Cristo.

3. O prêmio da chamada que vem do alto (Versículo 14)

Filipenses 3:14
“prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”

Contexto Histórico e Cultural

Agora a imagem fica completa. “Alvo” é o marco no fim da pista em que o corredor fixa os olhos; “prêmio” é a palavra dos jogos, usada no Novo Testamento só aqui e em 1Co 9.24, onde “os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio”. Nos jogos do Istmo de Corinto o prêmio era uma guirlanda de folhas, que murchava em poucos dias; Paulo contrasta a coroa corruptível dos atletas com a nossa, incorruptível (1Co 9.25).

A NAA traduz “soberana vocação”, mas o grego diz “a chamada de cima”: a chamada vem de Deus e chama para cima, para o céu. Toda pessoa que crê foi chamada assim; não se trata de um grupo especial de crentes. E a chamada é “em Cristo Jesus”, que é ao mesmo tempo o meio e o fim dela.

O ponto que precisa ficar claro é que o prêmio não é a salvação. A salvação é dada pela fé antes de a corrida começar; o prêmio é o galardão que Cristo dá no seu tribunal a quem correu com fidelidade, e o centro dele é o próprio Cristo e a plena semelhança com ele no fim. Wiersbe explica com a regra dos jogos: “Para participar dos jogos gregos, o atleta tinha de ser cidadão. Ele não corria para ganhar a cidadania.” Quem falha na corrida perde o galardão, não a cidadania.

O tribunal de Cristo é juízo só de crentes; ele avalia obras, motivos e fidelidade, e não decide quem é salvo, porque para quem está em Cristo não há condenação (Rm 8.1). Se a obra de alguém se queimar, “ele mesmo será salvo, mas como que através do fogo” (1Co 3.15). No fim da vida Paulo pôde dizer que completou a carreira e esperava a coroa da justiça, guardada para todos os que amam a vinda do Senhor (2Tm 4.7-8).

Aplicação Para Hoje

Essa distinção tira da corrida a comparação e o medo. Não corremos uns contra os outros, e não corremos para não ser expulsos; corremos para não desperdiçar a vida que Cristo nos deu e para ouvir dele, naquele dia, que valeu a pena. Vale lembrar Eric Liddell, corredor escocês que ganhou o ouro nos Jogos de Paris, em 1924, depois de se recusar a correr num domingo, e que terminou a vida como missionário na China, num campo de prisioneiros japonês, orando com os doentes e contando histórias da Bíblia às crianças enquanto um tumor o consumia. Todas as manhãs, às seis, acendia uma lamparina só para ler a Bíblia e se encontrar com Deus.

Essa é a corrida de cada crente, não a física. A pergunta que ela faz à nossa agenda da semana é se o que vamos fazer serve ao propósito para o qual Cristo nos alcançou. O prêmio existe, é certo, e quem o dá é o Senhor que já nos deu a si mesmo.

4. Os maduros pensam assim e andam no mesmo passo (Versículos 15 a 16)

Filipenses 3:15-16
“Todos, pois, que somos maduros, tenhamos este modo de pensar; e, se em alguma coisa vocês pensam de modo diferente, também isto Deus revelará para vocês. Seja como for, andemos de acordo com o que já alcançamos.”

Contexto Histórico e Cultural

O “pois” recolhe toda a história desde o v. 4 e a aplica à igreja. O “eu” vira “nós”, e a biografia vira caminho. O verbo “tenhamos este modo de pensar” é o verbo característico da carta, o mesmo de 2.5, “tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus”. Paulo se inclui na ordem, como um pai que diz aos filhos “vamos entrar no carro”: não é sugestão. A vida cristã é uma vida de pensar, não de reagir ao que se sente.

Há um jogo de palavras que o leitor da NAA percebe: Paulo acabou de dizer que não “obteve a perfeição” (v. 12) e agora chama a si e aos leitores de “maduros”, palavra da mesma raiz. Não há contradição. Ninguém chegou ao fim; mas há uma maturidade presente, e a marca dela é justamente saber que ainda não se chegou. Uma fruta verde no pé pode ser perfeita para a sua idade e ainda ter muito a amadurecer até a colheita. O tom é fraterno, sem ironia; Paulo não está alfinetando um grupo que se achava perfeito.

“Se em alguma coisa vocês pensam de modo diferente” aponta para pontos de detalhe, não para o evangelho. E a resposta de Paulo surpreende: ele não ameaça descer a Filipos para consertar ninguém; diz que Deus revelará. Não é promessa de revelação nova fora da Escritura; é a iluminação que Deus dá, pela sua Palavra e com paciência, para que o crente entenda o que já foi revelado. Aquele que começou a boa obra há de completá-la (1.6).

O v. 16 fecha com um “seja como for”: pensem ou não em tudo como Paulo, há um dever comum. O verbo “andemos” é o de andar em fila, no passo, seguindo pegadas, o mesmo de Gl 5.25, “andemos também no Espírito”. Os filipenses, descendentes de veteranos do exército romano, entendiam o que é marchar em fileira. E as pegadas não são místicas: estão na Bíblia.

Aplicação Para Hoje

Dois erros ficam de fora. O primeiro é o do crente que espera entender tudo para começar a obedecer. O que ainda não sabemos nunca nos desculpa de praticar o que já sabemos. O segundo é o da discussão sem fim. Há irmãos que gastam anos tentando convencer os outros de um detalhe, nas redes e nos corredores da igreja, e a única coisa que a briga perpétua produz é endurecer cada lado na própria posição.

Paulo ensina outra postura: ensinar com clareza, entregar a Deus o que o irmão ainda não vê e seguir andando juntos, no mesmo passo, pela mesma Palavra. A unidade da igreja local não nasce de todos pensarem igual em tudo; nasce de todos andarem na mesma fila atrás do mesmo Senhor. E a fila tem gente em pontos diferentes da pista: o recém-convertido e o irmão de quarenta anos de fé recebem a mesma ordem, cada um a partir do ponto a que já chegou. Ninguém é dispensado por estar no começo, e ninguém é dispensado por estar avançado.

5. Imitem-nos juntos (Versículo 17)

Filipenses 3:17
“Irmãos, sejam meus imitadores e observem os que vivem segundo o exemplo que temos dado a vocês.”

Contexto Histórico e Cultural

Para dizer “sejam meus imitadores”, Paulo cunhou uma palavra que não existe em nenhum outro texto grego conhecido: “coimitadores”, imitadores em conjunto. A NAA não tem como mostrar isso, mas o sentido é “imitem-me todos juntos”, e o “juntos” retoma o tema da unidade que atravessa a carta, de 1.27 até o apelo a Evódia e Síntique em 4.2. No mundo antigo, aprender de um mestre era imitá-lo; o discípulo não só ouvia, mas copiava o modo de viver. O segundo verbo, “observem”, é o de olhar com cuidado, pôr debaixo de lupa; e o que se observa é um “exemplo”, palavra que designava o molde, a marca que um selo deixa. A frase passa de “meus” para “temos dado”: o modelo não é só Paulo, mas a equipe dele, Timóteo e Epafrodito, que a carta acabou de apresentar no capítulo 2.

A ordem soa presunçosa a ouvidos de hoje. Três coisas a explicam. Primeira: Paulo pede que o imitem como ele imita a Cristo (1Co 11.1), e Cristo é o exemplo primeiro da carta (2.5). Segunda: o homem que diz “imitem-me” acabou de confessar que ainda não chegou ao fim da corrida (vv. 12-13); o modelo não é um campeão no pódio, mas um corredor que ainda corre.

Terceira: ele não pede imitação em tudo o que faz, mas nos padrões que valem, e multiplica os modelos em vez de concentrar tudo em si. E por que precisamos de exemplos humanos, se temos Cristo? Porque, quando olhamos para Cristo, vemos a perfeição que um dia vamos refletir; quando olhamos para homens e mulheres imperfeitos que estão crescendo à semelhança dele, vemos o que nós somos e o que podemos ser já agora.

Aplicação Para Hoje

Deus dá à igreja local modelos de carne e osso: os presbíteros, sempre no plural, que conduzem o rebanho como exemplo e não como donos (1Pe 5.3), e os irmãos e irmãs maduros cuja fé se observa e se imita (Hb 13.7). Vale a pena escolher esses modelos de perto e perguntar, diante de uma situação nova, como tal irmão maduro agiria. Mas o olhar é seletivo. Imita-se o que neles imita Cristo, nunca tudo, porque até os maduros vão nos decepcionar às vezes.

Nada aqui abre espaço para culto à personalidade nem para uma lealdade que dispense a Escritura. E quem sofre manipulação, coação ou abuso de um líder não tem obrigação de calar nem de imitar; leva o caso à liderança da igreja e, havendo crime, às autoridades. O modelo vale enquanto aponta para além de si, para aquele que nos alcançou.

6. Os inimigos da cruz, por quem Paulo chora (Versículos 18 a 19)

Filipenses 3:18-19
“Pois muitos andam entre nós, dos quais repetidas vezes eu lhes dizia e agora digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está naquilo de que deviam se envergonhar, visto que só pensam nas coisas terrenas.”

Contexto Histórico e Cultural

O “pois” explica por que a escolha do modelo é urgente: há outro andar em circulação. O verbo é o mesmo do v. 17, “andam”. O “entre nós” é acréscimo da tradução; o grego diz só “muitos andam”, sem dizer onde, e tudo indica que esses muitos ainda não estavam em Filipos, mas percorriam as igrejas da região. Paulo já tinha avisado “repetidas vezes” e avisa de novo, “até chorando”.

Ele não denuncia como quem se alegra com a queda alheia; é alguém que viu o fim do caminho e sofre por quem anda nele, como fez por três anos em Éfeso, com lágrimas (At 20.31). “Inimigos da cruz” é inimizade em dois sentidos. Com a doutrina, porque a cruz resume o evangelho e qualquer ensino que lhe acrescente ou subtraia algo a trata como dispensável. E com a vida, porque a cruz é também um caminho de humilhação e obediência (2.8), e há quem queira os benefícios da morte de Cristo sem a vergonha dela.

Quatro marcas os descrevem. O destino é a perdição, a mesma palavra de 1.28, que fala do fim eterno de quem está fora de Cristo. O deus é o ventre: os apetites ocupam o lugar de Deus, como em Rm 16.18, onde certos homens não servem a Cristo, “mas ao seu próprio ventre”. A glória está naquilo de que deviam se envergonhar: orgulham-se da própria conduta. E só pensam nas coisas terrenas, com o mesmo verbo do pensar que em 2.5 e no v. 15 descreve a mente de Cristo e dos maduros.

Quem são? Pessoas que se apresentam como cristãs, mas cujo andar nega a cruz e cujo destino é a perdição. Esse destino pertence a quem não está em Cristo. Mas o aviso é dirigido a “irmãos” (v. 17), e isso significa que o crente pode andar como eles.

O crente carnal existe (1Co 3.1-3); se não volta, perde galardão, não a salvação (1Co 3.15). Woods diz sem rodeios: “Como cristão, você pode tornar-se licencioso e continuar salvo. É perfeitamente possível, como cristão, abusar da graça de Deus e voltar direto a um estilo de vida de pecado. Isso é bom?

Não. É possível? Sem dúvida. Se não fosse possível, não haveria necessidade da advertência.”

Aplicação Para Hoje

Aqui estão os dois abismos do capítulo. Quem foge do legalismo com frequência cai na licença, pensando que abandonou Cristo quando só abandonou um sistema de regras; e a licença é uma cisterna tão vazia quanto o legalismo. Ventre não é só comida: é todo desejo que passa a dar as ordens, o prazer, o conforto, o consumo, a aprovação. Vale a pena perguntar o que governa as nossas escolhas, se a vontade de Deus ou o que o corpo e a cultura pedem.

Mas o versículo não é régua para medir se o irmão que tropeçou é salvo. Ninguém deve usar o v. 19 para concluir que o outro “nunca foi salvo” ou “perdeu a salvação”. O crente que se deixou levar pelos apetites é chamado a voltar para Deus, confessando o pecado ao Pai (1Jo 1.9), e encontra a comunhão restaurada, não uma nova conversão. A cruz que ele desprezou continua sendo o lugar para onde se volta.

7. Cidadãos do céu à espera do Salvador (Versículos 20 a 21)

Filipenses 3:20-21
“Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas.”

Contexto Histórico e Cultural

O “pois” volta ao v. 17: imitem-nos, porque a nossa pátria está nos céus. Eles pensam nas coisas terrenas; “nós”, em posição de destaque, temos a cidadania no céu, e o verbo está no presente: ela já existe. A palavra caía em solo preparado. Filipos era colônia romana (At 16.12), e seus moradores diziam “somos romanos” (At 16.21): cidadãos inscritos em Roma, com os direitos de quem vivia na Itália, morando a centenas de quilômetros da capital. Paulo diz à igreja: a cidadania de vocês está em outro lugar; vocês não moram lá, moram aqui, numa cultura que não é a de vocês, e aguardam de lá o Salvador que os levará para casa.

Isso não faz da igreja um novo Israel; os crentes do Antigo Testamento eram cidadãos de Israel, e as promessas a Israel continuam de pé (Rm 11.29). Os dois títulos do v. 20 tinham dono conhecido na cidade: “Salvador” e “Senhor” eram títulos do imperador, e a colônia esperava a visita de César com festa. A igreja espera outro. O verbo “aguardamos” é o da espera intensa, de pescoço esticado; e ele virá “de onde” está, do céu, para buscar os seus: é o arrebatamento da igreja (1Ts 4.16-17), que pode acontecer a qualquer momento.

O que ele fará ao vir? Transformará “o nosso corpo de humilhação”. A versão antiga dizia “corpo vil”, mas o grego não tem nenhum desprezo pelo corpo: é o corpo que pertence à nossa condição humilde, fraco, doente, mortal, criação de Deus que será redimida. Pentecost lembra: “O corpo foi projetado para servir a Deus; é o instrumento pelo qual a criatura glorifica o Criador.

Não há nada de mau no corpo físico.” Será o mesmo corpo, reconhecível, mas “igual ao corpo da sua glória”: os mortos em Cristo ressuscitam e os vivos são transformados num abrir e fechar de olhos (1Co 15.51-52). A palavra “igual” é da mesma família da “forma” de 2.6-7 e do “tornar-me como ele” do v. 10: o caminho de Cristo, da humilhação à glória, é o caminho que ele reserva para os seus. E a garantia é o poder que ele tem de subordinar a si todas as coisas, o poder do Sl 8.6 aplicado a Cristo (1Co 15.25-28). “Todas as coisas” inclui Roma, César e todos os que faziam os filipenses sofrer em nome dele.

Aplicação Para Hoje

Quem viaja para fora do país leva o passaporte, porque continua cidadão do Brasil mesmo longe dele e responde às leis da sua nação. O crente vive aqui com passaporte do céu. Isso não é fuga da vida: votamos, trabalhamos, cuidamos da cidade, mas nenhuma eleição, nenhuma crise e nenhuma notícia define quem somos nem para onde vamos. A nossa esperança não está presa ao que pode ser tirado num instante. E o corpo que hoje se cansa, adoece e envelhece não é inimigo nem ídolo: é o corpo que espera o Salvador, e por isso merece cuidado sem virar o centro da vida.

O trecho começou com um corredor que ainda não chegou à meta e termina com o fim certo da corrida: o Senhor vem, e vem para nos levantar dentre os mortos e nos levar para casa. Por isso o versículo seguinte vai dizer “portanto, permaneçam firmes” (4.1). Firmeza não é ficar parado; é não sair da raia, porque sabemos para onde corremos e quem nos espera na chegada. Alcançados por Cristo, corremos para alcançá-lo, e ele mesmo virá nos buscar.

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Referências Bibliográficas

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