Série: Efésios • Estudo Bíblico

Efésios 2.11-22: De dois povos, Cristo fez um só

"Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo uma nova humanidade, fazendo a paz, Efésios 2:15"

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Efésios 2.1-10 mostrou o que Deus fez com cada um de nós: estávamos mortos, e ele nos deu vida com Cristo. Agora Paulo mostra o que Deus fez conosco juntos. Até aqui as bênçãos eram verticais, entre cada crente e Deus; a partir do versículo 11 elas são também horizontais, entre uns e outros. A estrutura repete a do trecho anterior: o “antes”, o “mas agora” e as consequências. E o “mas Deus” do versículo 4 tem aqui o seu par, o “mas agora” do versículo 13.

Os leitores de Éfeso tinham dois templos na memória. O da cidade, o de Ártemis, uma das sete maravilhas do mundo antigo, que eles acreditavam ter caído do céu. E o de Jerusalém, com os seus átrios em degraus: o dos gentios, o das mulheres, o de Israel, o dos sacerdotes.

Entre o átrio dos gentios e o resto havia uma mureta de pedra com placas em grego avisando que o estrangeiro que a ultrapassasse morreria; Paulo foi preso sob a acusação de ter levado um gentio de Éfeso, Trófimo, para dentro dela. O desprezo era mútuo: os gregos zombavam da circuncisão, e os judeus chamavam os gentios de cães. É contra esse pano de fundo que Paulo escreve a frase que vamos seguir: na cruz, Cristo derrubou as duas paredes, a que separava judeus e gentios e a que separava os dois de Deus, e dos dois povos fez um só, uma família e um santuário em que Deus mora.

1. Lembrem-se do que vocês eram (Versículos 11 a 12)

Efésios 2:11-12
“Portanto, lembrem-se de que no passado vocês eram gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisão, que é feita na carne por mãos humanas. Naquele tempo vocês estavam sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo.”

Contexto Histórico e Cultural

“Portanto” liga o trecho aos versículos 8 a 10: se a salvação é pela graça e não por obras, as marcas de que os homens se orgulham perdem o valor, e a circuncisão era a principal delas. “Lembrem-se”, na Bíblia, é trazer à memória para agir; Israel lembrava o Egito para viver como povo liberto. “Incircuncisão” e “circuncisão” eram apelidos, um de desprezo e outro de orgulho, e Paulo desmonta o segundo com uma qualificação: a circuncisão “é feita na carne por mãos humanas”. No Novo Testamento, o que é “feito por mãos” é sempre obra humana em oposição à obra de Deus. Foi a primeira dica de que o judeu também precisava do que Deus daria.

Depois vem a lista do que os gentios não tinham, e ela é o reverso exato dos privilégios de Israel em Romanos 9. Sem Cristo, isto é, sem Messias: nenhuma promessa de um libertador lhes fora feita. Separados da comunidade de Israel, o povo organizado em torno do Deus único. Estranhos às alianças da promessa, as que Deus fez com Abraão, com Davi e a nova aliança.

Sem esperança, porque nenhuma promessa sobre o futuro os alcançava. E “sem Deus no mundo”, numa cidade cheia de deuses: eram deuses só de nome. “Naquele tempo” descreve os gentios como classe, durante toda a era em que Israel foi o povo da promessa; Raabe, Rute e Naamã foram salvos pela fé, mas só como exceções que entravam na comunidade de Israel. Os gentios, como gentios, estavam do lado de fora.

Aplicação Para Hoje

O crente que esquece o que era trata a graça como direito. Um exercício simples para esta semana: escreva as cinco carências do versículo 12 e, ao lado de cada uma, o que Cristo deu em lugar dela, e o resto do capítulo responde uma por uma. Isso produz gratidão e humildade, não culpa. E há um aviso para quem cresceu do lado de dentro. O judeu se gloriava de uma marca feita por mãos; nós também temos as nossas, o batismo, a família evangélica, os anos de igreja, o cargo.

Nada disso é a obra de Deus em nós; é obra de mãos, e não nos torna mais dignos do que quem chegou ontem. Sem o Messias, o gentio mais religioso de Éfeso estava sem esperança e sem Deus. Sem Cristo, o brasileiro mais religioso também está. É por isso que o versículo seguinte começa com as duas palavras que mudam tudo.

2. Mas agora, perto pelo sangue (Versículo 13)

Efésios 2:13
“Mas agora, em Cristo Jesus, vocês, que antes estavam longe, foram aproximados pelo sangue de Cristo.”

Contexto Histórico e Cultural

Este é o versículo que resume a seção inteira. “Longe” e “perto” vêm do Antigo Testamento: as nações estão longe, Israel está perto, e Isaías anunciou “paz, paz para o que está longe e para o que está perto”. No judaísmo, “aproximar-se” era a palavra para o prosélito, o gentio que virava judeu. Paulo usa a mesma palavra para algo novo: os gentios não se aproximam por se tornarem judeus, mas “em Cristo Jesus”. E aproximar aqui não é chegar mais perto; é entrar, como os versículos 18 a 22 vão mostrar.

O verbo está na voz passiva: eles não se aproximaram, foram aproximados. O meio é “o sangue de Cristo”. Ao longo do trecho, “pelo sangue” (v.13), “na sua carne” (v.15), “por meio da cruz” (v.16) e “por meio dele” (v.18) dizem a mesma coisa: a morte de Cristo no nosso lugar. O sangue não é uma substância mística; é a vida entregue. A salvação é gratuita para quem a recebe, mas não foi gratuita para quem a fez.

Aplicação Para Hoje

Nenhum outro caminho aproxima de Deus. Nem guardar a Lei, nem nascer no povo certo, nem pertencer a um grupo, e isso vale para a igreja também: ninguém está perto de Deus por estar na lista de membros. Quem está perto está perto pelo sangue, e só por ele. Isso desfaz dois medos. O medo de quem se acha longe demais: você não precisa se aproximar por conta própria, porque o verbo é passivo, e Deus é quem aproxima.

E o medo de quem já está perto e teme voltar a ficar longe: o sangue que aproximou não perde o valor. Cada vez que partimos o pão, lembramos exatamente isto: o corpo entregue, o sangue derramado, e a distância vencida. Mas como o sangue de Cristo aproxima um gentio de Deus e, ao mesmo tempo, de um judeu? É o que Paulo explica a seguir.

3. Ele é a nossa paz: a parede derrubada (Versículos 14 a 16)

Efésios 2:14-16
“Porque ele é a nossa paz. De dois povos ele fez um só e, na sua carne, derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade. Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo uma nova humanidade, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por meio da cruz, destruindo a inimizade por meio dela.”

Contexto Histórico e Cultural

“Ele mesmo é a nossa paz.” A paz não é um acordo que Cristo intermediou; é uma pessoa, o Príncipe da Paz que Isaías anunciou. E a frase inteira tem três movimentos: o que ele fez, como fez e para quê. O que fez: dos dois fez um e derrubou a parede. Como: anulando “a lei dos mandamentos na forma de ordenanças”. A parede, portanto, era a Lei de Moisés.

A mureta do templo, com as suas placas de morte, é a ilustração que todos entendiam, mas ela ainda estava de pé quando Paulo escreveu; o que separava judeus e gentios de verdade eram os mandamentos que proibiam comer juntos, casar, conviver, e o orgulho que nasceu deles. Os próprios judeus chamavam a Lei de cerca e muro de ferro em volta de Israel. “Aboliu” traduz katargeō, tornar inoperante, e não destruir: Cristo não rasgou a Lei, cumpriu-a e a desligou como código que governa o povo de Deus, a Lei inteira, sem a divisão entre parte cerimonial e parte moral, que o texto não faz. O crente vive sob a lei de Cristo, e os mandamentos morais repetidos no Novo Testamento continuam valendo por isso. Para quê: primeiro, “para que dos dois criasse em si mesmo uma nova humanidade”.

O verbo é o da criação, que só tem Deus por sujeito. O novo homem não é o gentio promovido a judeu nem o judeu rebaixado a gentio; é a igreja, criada dos dois, algo que o Antigo Testamento não conhecia. Como resume Harold Hoehner, formou-se uma raça inteiramente nova, uma raça sem raça. Segundo, “reconciliasse ambos em um só corpo com Deus”.

Aqui a parede é outra: o pecado, que separava os dois povos de Deus. O homem é reconciliado com Deus, nunca o contrário, e o judeu precisava disso tanto quanto o gentio. As duas paredes caíram na mesma cruz. E note a ironia: foi sendo morto que Cristo matou a inimizade.

Aplicação Para Hoje

Se Cristo derrubou a parede, a igreja não pode reconstruí-la. Toda vez que uma comunidade exige, para comunhão plena, algo que Cristo não exigiu, um costume, uma forma de vestir, um calendário, um grau de experiência, levanta de novo uma mureta com placa de “não entre”. A tendência de transformar marcas de piedade em critério de pertença é a parede da Lei com roupa evangélica. E se de dois ele fez um, nenhuma diferença de origem, classe, região, geração ou formação justifica tratar um irmão como “incircuncisão”. A pergunta concreta é esta: com quem você teria dificuldade de partir o pão?

Warren Wiersbe conta de um homem que entrou no gabinete pedindo um “re-cancelamento” do casamento; queria dizer reconciliação, mas acertou sem querer, porque não há reconciliação sem que a dívida seja cancelada. Foi o que a cruz fez: o Deus santo não podia ignorar o pecado, e o Deus de amor não abandonaria o pecador. Ele resolveu as duas coisas de uma vez. A paz entre nós não é algo que fabricamos com programas; é um fato consumado na cruz, que nós só podemos negar com as nossas atitudes ou viver pelo Espírito. E essa paz foi anunciada, como mostra o versículo seguinte.

4. A paz anunciada e um só acesso ao Pai (Versículos 17 a 18)

Efésios 2:17-18
“E, quando veio, Cristo evangelizou paz a vocês que estavam longe e paz também aos que estavam perto; porque, por meio dele, ambos temos acesso ao Pai em um só Espírito.”

Contexto Histórico e Cultural

“Evangelizou paz” ecoa Isaías: os pés do que anuncia a paz, e a paz para o de longe e o de perto. “Quando veio” é a encarnação. Já no ministério terreno Jesus estendeu a paz aos de longe, à samaritana, ao centurião, à cananeia, com base na promessa a Abraão de que nele todas as famílias da terra seriam abençoadas; e depois da cruz esse anúncio seguiu pelos apóstolos até Éfeso. Os de longe vêm primeiro na frase, porque eram a maioria dos leitores e os que mais tinham a ganhar. Mas a paz é repetida para os de perto: a proximidade de Israel era de posição, não de salvação, e o judeu que não cresse continuaria tão distante de Deus quanto qualquer gentio.

O versículo 18 dá a razão: “ambos temos acesso ao Pai”. A palavra “acesso” era usada para trazer uma oferta ao altar e para ser admitido à presença do rei. No templo de Jerusalém o acesso era em degraus: o gentio até certo ponto, a mulher até outro, o homem de Israel mais adiante, o sacerdote, e uma vez por ano o sumo sacerdote. Agora todos entram pela mesma porta, “por meio dele”, o Filho, “em um só Espírito”, ao Pai. É um versículo trinitário inteiro, e a palavra que se repete no trecho é “um”: um só corpo, um só Espírito, um só acesso, um só Pai.

Aplicação Para Hoje

Não existe um cristianismo de primeira classe e outro de segunda. O presbítero e o recém-convertido, o doutor e o analfabeto, o irmão de Belém e o de Curitiba entram pela mesma porta e chegam ao mesmo Pai, e nenhum tem mais acesso do que o outro. Isso muda a oração: você pode pedir a qualquer irmão que ore por você, e não só aos “mais espirituais”, porque o sacerdócio é de todos. Muda também o modo de olhar para quem ainda está longe.

A paz foi anunciada a eles primeiro, e o mesmo Cristo que atendeu o centurião continua atendendo quem se aproxima pela fé. Só que muitos de nós carregam bagagem antiga: preconceitos que continuam ativos se não renovamos a mente pela Palavra. O acesso é igual; resta viver como quem sabe disso. E quem tem acesso à casa do Pai não é mais visita, como Paulo passa a dizer.

5. Concidadãos, família, edifício (Versículos 19 a 20)

Efésios 2:19-20
“Assim, vocês não são mais estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular.”

Contexto Histórico e Cultural

“Estrangeiros” são os de passagem; “peregrinos”, os residentes sem cidadania, como quem vive num país com visto. Os dois contrastam com “concidadãos”, que responde à “comunidade de Israel” do versículo 12, e com “família de Deus”, os de casa. Concidadãos de quem? “Dos santos”, não “de Israel”: os crentes judeus que vieram primeiro e os gentios que vieram depois são cidadãos da mesma cidade, a igreja, que começou em Pentecostes. Os gentios não tomaram o lugar de Israel nem se tornaram Israel; participam das bênçãos espirituais das alianças judaicas, e Israel continua Israel, com promessas que Deus não revogou.

Depois a imagem muda de família para edifício. “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas”: os profetas são os do Novo Testamento, porque vêm depois dos apóstolos na ordem, como no capítulo 4. O fundamento é o que eles receberam, ensinaram e escreveram, e um fundamento se lança uma vez. “Sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular.” Não é a pedra de remate no alto do arco, porque o edifício ainda está crescendo; é a primeira pedra do alicerce, a que Isaías chamou “pedra provada, preciosa, de firme fundamento”, pela qual o construtor esquadreja todas as outras. Tudo no edifício se mede por Cristo, inclusive os apóstolos.

Aplicação Para Hoje

Se você é crente, não é visita na casa de Deus. Não está do lado de fora olhando para dentro, nem em período de experiência. É cidadão e é da família, e pode entrar em qualquer assembleia do mundo e ser de casa, porque a família de Deus está em toda parte. E o edifício em que você foi posto já tem fundamento. Isso responde, com mansidão e firmeza, aos novos “apóstolos” e às novas “revelações” que circulam por aí: a igreja não se apoia em revelações de hoje, mas na Palavra já dada, e a pedra que mede tudo continua sendo Cristo.

Vale lembrar quem eram esses apóstolos: Pedro negou três vezes, João queria fogo do céu sobre uma aldeia, Mateus cobrava impostos para Roma. Gente comum, usada por Deus para lançar um alicerce que não precisa ser lançado de novo. Quem está sobre esse fundamento não é abalado por cada vento de doutrina. E o edifício tem um destino, que os dois últimos versículos revelam.

6. Um santuário que Deus edifica e habita (Versículos 21 a 22)

Efésios 2:21-22
“Nele, todo o edifício, bem-ajustado, cresce para ser um santuário dedicado ao Senhor. Nele também vocês estão sendo edificados, junto com os outros, para serem morada de Deus no Espírito.”

Contexto Histórico e Cultural

“Bem-ajustado” é linguagem de pedreiro: no mundo antigo as pedras eram cortadas e desbastadas até se encaixarem sem argamassa, e nos blocos do muro do templo, alguns de centenas de toneladas, não passa uma folha de papel. O particípio está no presente e na voz passiva: o encaixe está em andamento, e quem encaixa é Deus. No templo de Salomão as pedras chegavam prontas da pedreira, e não se ouvia martelo na obra; assim o Espírito coloca cada crente no lugar. E o edifício “cresce”: é vivo.

A palavra para “santuário” é naos, o recinto interior onde Deus habita, e não o complexo inteiro com os seus átrios. Em Éfeso, os ourives vendiam miniaturas de prata do santuário de Ártemis; Paulo diz aos efésios que o santuário verdadeiro são eles. O templo de Herodes estava em obras havia décadas quando foi destruído; o santuário de Deus também está em obras, mas nunca será destruído. E o alvo é “morada de Deus no Espírito”.

Deus habitou no tabernáculo, depois no templo, depois armou tenda entre nós em Cristo; agora habita, pelo Espírito, na igreja. Os verbos são todos passivos: “estão sendo edificados”. O texto não manda construir; descreve o que Deus está fazendo.

Aplicação Para Hoje

Isso tira um peso das costas de muita gente. Como diz o Dr. Andy Woods, não há absolutamente nada que ele possa fazer para construir a igreja de Cristo, por mais seminários de crescimento que frequente, porque não é ele o construtor. Cristo edifica; Deus ajusta as pedras; os presbíteros pastoreiam e os irmãos servem, mas ninguém carrega a igreja nas costas.

Quase sempre a ansiedade no serviço vem de tomar para si o que é de Deus. E se a assembleia é o lugar em que Deus escolheu morar, a reunião dos irmãos não é uma opção entre outras no domingo. A santidade do santuário começa no que levamos para dentro dele: palavras, amarguras, murmurações. Voltamos ao começo.

Éramos estrangeiros, sem Messias, sem esperança e sem Deus. Cristo, o nosso Sacerdote e a nossa paz, derrubou as duas paredes na cruz, de dois povos fez um só, deu a todos o mesmo acesso ao Pai e nos pôs, pedra a pedra, num santuário em que o próprio Deus mora. O edifício ainda cresce, e um dia ficará completo. Até lá, ele habita em nós.

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Referências Bibliográficas

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