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Salmo 37: A Herança dos Justos e o Destino dos Ímpios
O Salmo 37 é uma das exposições mais ricas da sabedoria bíblica, funcionando como um manual de “sabedoria contra a preocupação”. Diferente dos salmos de lamentação ou louvor direto, este é um salmo didático, onde Davi assume o papel de um mestre experiente falando à próxima geração. Escrito em sua maturidade (v. 25), o texto carrega o peso de uma vida que testemunhou tanto a ascensão meteórica de tiranos quanto a fidelidade silenciosa de Deus.
Estruturalmente, este é um salmo acróstico, onde as estrofes seguem as letras do alfabeto hebraico para facilitar a memorização. No entanto, como um teólogo atento percebe, trata-se de um acróstico imperfeito: a letra ‘ayin está ausente (o v. 30 inicia com pe) e o agrupamento da letra shin apresenta variações. Essa “imperfeição” literária não diminui sua autoridade, mas reflete a realidade da vida — uma jornada onde a ordem de Deus se impõe sobre o caos, mesmo quando as circunstâncias parecem desalinhadas. Para o cristão, este Salmo é um convite a trocar o “fret” (a agitação ansiosa) pelo descanso na soberania divina.
2. Perícope I: O Antídoto para a Inveja e a Irritação (Versículos 1 a 6)
Salmos 37:1-6 “Não se irrite por causa dos malfeitores, nem tenha inveja dos que praticam a iniquidade. Pois em breve eles secarão como a relva e murcharão como a erva verde. Confie no Senhor e faça o bem; habite na terra e alimente-se da verdade. Agrade-se do Senhor, e ele satisfará os desejos do seu coração. Entregue o seu caminho ao Senhor, confie nele, e o mais ele fará. Fará com que a sua justiça sobressaia como a luz e que o seu direito brilhe como o sol ao meio-dia.”
Contexto Histórico e Cultural
Davi inicia com uma ordem clara: não se “aqueça” (tradução literal de fret) com o sucesso do ímpio. Ele usa a metáfora da vegetação da Palestina; após as chuvas, as colinas parecem irlandesas de tão verdes, mas basta o hamsin (o vento quente do deserto) soprar para que tudo murchasse em dias. O v. 3 nos exorta a “alimentar-se da verdade” ou “desfrutar de pastos seguros”, uma imagem de segurança aliançada onde a fidelidade de Deus é o nosso sustento diário.
Aplicação Cristã na Graça
No v. 4, “Agrade-se” (ou “Deleite-se”) carrega a ideia de um “hábito delicado” ou “deleite requintado”. Não é um meio para obter coisas, mas encontrar no próprio Deus a satisfação máxima. Henrietta Mears, grande educadora cristã, via no v. 5 uma tríade vital: a decisão (Entregue — literalmente “role o fardo”), a fé (Confie) e a obra de Deus (Ele o fará).
Na Nova Aliança, o v. 6 encontra seu ápice na Justificação. Martin Luther descreveu isso como o “Grande Intercâmbio” ou o “Casamento com Cristo”: na cruz, entregamos a Ele nossa dívida e Ele nos reveste com Sua justiça. Agora, nossa justiça brilha não por nosso esforço, mas porque estamos “em Cristo”, o Sol da Justiça.
3. Perícope II: A Paciência de Quem Espera no Senhor (Versículos 7 a 11)
Salmos 37:7-11 “Descanse no Senhor e espere nele; não se irrite por causa daquele que prospera em seu caminho, por causa do que realiza os seus maus desígnios. Deixe a ira, abandone o furor; não se irrite; certamente isso acabará mal. Porque os malfeitores serão exterminados, mas os que esperam no Senhor possuirão a terra. Mais um pouco de tempo, e já não existirão os ímpios; você procurará no lugar onde eles estavam e não os encontrará. Mas os mansos herdarão a terra e terão alegria na abundância de paz.”
Contexto Histórico e Cultural
“Descansar” (v. 7) significa literalmente “ficar em silêncio”. É o silêncio da confiança que recusa a autodefesa. A promessa de “herdar a terra” era, para o judeu, a posse física de Canaã. Contudo, a sabedoria bíblica já apontava para um desfecho escatológico: o sucesso do ímpio é apenas “um pouco de tempo” comparado à eternidade.
Aplicação Cristã na Graça
Jesus elevou o v. 11 ao status de Bem-aventurança (Mt 5:5). Sob a Nova Aliança, nossa herança não é um pedaço de solo no Oriente Médio, mas o Reino de Deus e a Nova Terra. Enquanto o mundo busca a “posse” pela força e pelo esquema, o cristão recebe a “herança” pela mansidão. O Shalom (paz abundante) não é apenas ausência de conflito, mas a plenitude garantida pela ressurreição, permitindo-nos esperar com paciência o dia em que o mal será apenas uma memória apagada.
4. Perícope III: O Riso de Deus e a Futilidade do Mal (Versículos 12 a 20)
Salmos 37:12-20 “Os ímpios fazem planos contra os justos e contra eles rangem os dentes. O Senhor dá risada dos ímpios, pois vê que o dia deles está chegando. Os ímpios puxam da espada e preparam o arco para abater os pobres e necessitados, para matar os que trilham o reto caminho. Mas a espada deles lhes atravessará o próprio coração, e os seus arcos serão despedaçados. Mais vale o pouco do justo que a abundância de muitos ímpios. Pois os braços dos ímpios serão quebrados, mas os justos, o Senhor os sustém. O Senhor conhece os dias dos íntegros; a herança deles permanecerá para sempre. Não serão envergonhados nos tempos difíceis e nos dias da fome se fartarão. Os ímpios, no entanto, perecerão, e os inimigos do Senhor serão como as mais belas pastagens: desaparecerão, como desaparece a fumaça.”
Contexto Histórico e Cultural
Davi descreve o ímpio como um soldado pronto para o abate, mas revela uma perspectiva celestial: Deus ri. Esse riso não é de crueldade, mas de soberania absoluta; o Senhor “vê o dia chegando”, referindo-se ao dia do Juízo Final. O v. 20 usa uma imagem vívida: a glória do ímpio é como a gordura de cordeiros em um altar ou flores de campo que, ao serem queimadas, tornam-se fumaça — algo que parece volumoso e imponente, mas não tem substância e dissipa-se rapidamente.
Aplicação Cristã na Graça
Em Cristo, entendemos que o mal é autodestrutivo (v. 15). Como Judas, que ao vender Jesus vendeu sua própria alma, o ímpio fere a si mesmo. O “pouco do justo” (v. 16) é superior porque está sob a economia da graça, onde o Senhor “conhece os nossos dias” — um conhecimento que implica cuidado providencial e envolvimento subjetivo. Nosso sustento não vem do sistema do mundo, mas da “mão que sustém” (v. 17), garantindo fartura espiritual mesmo quando o mundo atravessa desertos.
5. Perícope IV: Generosidade e Passos Firmados (Versículos 21 a 26)
Salmos 37:21-26 “O ímpio pede emprestado e não paga; o justo, porém, se compadece e dá. Aqueles a quem o Senhor abençoa possuirão a terra; e serão exterminados aqueles a quem ele amaldiçoa. O Senhor firma os passos do homem bom e se agrada do seu caminho; se cair, não ficará prostrado, porque o Senhor o segura pela mão. Fui moço e agora sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão. É sempre compassivo e empresta, e a sua descendência será uma bênção.”
Contexto Histórico e Cultural
A marca do justo é a generosidade reflexiva; ele dá porque Deus lhe deu. No v. 25, Davi oferece seu testemunho pessoal (“Fui moço e agora sou velho”). Como teólogos, devemos notar que esta não é uma lei universal de prosperidade física; o próprio Charles Spurgeon observou que já ajudou filhos de homens piedosos que estavam em mendicância. Davi está compartilhando uma regra geral da fidelidade de Deus dentro da comunidade da Aliança em Israel, e não um axioma absoluto que ignore o mistério do sofrimento.
Aplicação Cristã na Graça
A segurança do crente não reside em nunca tropeçar, mas em nunca ser “prostrado” (v. 24). Sob a graça, “firmar os passos” (v. 23) significa que Deus estabelece nossa posição em Cristo. A generosidade cristã (v. 26) brota do fato de que fomos feitos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo. Nossa descendência é abençoada não necessariamente com acúmulo de terras, mas com a herança da fé, sendo preservada pelo Senhor que segura nossa mão através das gerações.
6. Perícope V: A Segurança da Integridade (Versículos 27 a 33)
Salmos 37:27-33 “Afaste-se do mal e pratique o bem, e a sua morada será perpétua. Pois o Senhor ama a justiça e não desampara os seus santos. Serão preservados para sempre, mas a descendência dos ímpios será exterminada. Os justos herdarão a terra e nela habitarão para sempre. Da boca do justo procede sabedoria, e a sua língua fala o que é justo. No coração, ele tem a lei do seu Deus; os seus passos não vacilarão. O perverso espreita o justo e procura tirar-lhe a vida. Mas o Senhor não o deixará nas mãos do perverso, nem o condenará quando for julgado.”
Contexto Histórico e Cultural
O fiel israelita era aquele que tinha a “Lei no coração” (v. 31), um ideal que protegia seus passos de vacilarem diante das tentações. O v. 33 evoca um tribunal: o ímpio tenta usar a lei como arma (como Jezabel fez contra Nabote), mas o Senhor intervém como o Juiz Supremo que não ratifica a sentença do opressor.
Aplicação Cristã na Graça
Esta “Lei no coração” antecipa a promessa da Nova Aliança em Jeremias 31:33, agora cumprida pelo Espírito Santo que habita em nós. Temos “uma Bíblia na cabeça e outra no coração”, como diziam os puritanos. A maior promessa de todas é que o Senhor “não nos condena quando formos julgados”. Por quê? Porque Cristo assumiu nosso lugar no banco dos réus. Ele é o Advogado que garante que nossa morada seja perpétua, transformando o tribunal de condenação em um trono de graça.
7. Perícope VI: O Futuro de Paz e a Salvação Final (Versículos 34 a 40)
Salmos 37:34-40 “Espere no Senhor e ande nos seus caminhos; ele o exaltará para que você herde a terra; você verá quando os ímpios forem exterminados. Vi um ímpio prepotente expandir-se como um cedro do Líbano. Passei, e eis que havia desaparecido; procurei-o, e já não foi encontrado. Observe aquele que é íntegro e reto; porque o futuro dele será de paz. Quanto aos transgressores, serão todos destruídos; a descendência dos ímpios será exterminada. Mas a salvação dos justos vem do Senhor; ele é a fortaleza deles em tempos de angústia. O Senhor os ajuda e os livra; livra-os dos ímpios e os salva, porque nele buscam refúgio.”
Contexto Histórico e Cultural
Davi fecha o círculo comparando o ímpio a um “cedro do Líbano” (v. 35) — uma árvore imponente, símbolo de força estatal e orgulho humano. Contudo, essa árvore não tem raiz na eternidade; ela desaparece sem deixar vestígios (v. 36). Em contraste, o “homem de paz” (v. 37) tem um futuro sólido. O termo “salvação” aqui (v. 39) carrega o sentido de “livramento” ou “vitória” concedida pelo Guerreiro Divino.
Aplicação Cristã na Graça
A conclusão do Salmo é o puro Evangelho: “A salvação dos justos vem do Senhor” (v. 39). Não é mérito, é dom. Jesus é a nossa Fortaleza (Ma’oz) no tempo da angústia. Ele é o cumprimento final da promessa da terra; nEle, herdamos o novo céu e a nova terra. Enquanto o ímpio está limitado ao que pode ver e tocar — e que logo se tornará fumaça — o cristão encontra refúgio Naquele que é o mesmo ontem, hoje e para sempre.
Conclusão: Vivendo o Salmo 37 Hoje
O Salmo 37 nos chama a uma mudança radical de cosmovisão. Em vez de olharmos horizontalmente para o sucesso alheio, somos convidados a olhar verticalmente para a fidelidade de Deus. Davi nos ensina a substituir o desespero pela disciplina da fé: Confiar (na segurança de Deus), Deleitar-se (na beleza de Deus), Entregar (ao cuidado de Deus) e Esperar (no tempo de Deus). No fim, descobrimos que a nossa maior herança não é algo que Deus nos dá, mas o próprio Deus que se entrega a nós.
“A essência do Hedonismo Cristão reside em Psalm 37:4: nossa busca por prazer só se torna santa quando Deus é o nosso deleite supremo. Pois quando rolamos nossos fardos sobre Cristo, descobrimos que a nossa justiça não é um mérito a ser alcançado, mas um presente a ser desfrutado, brilhando como o sol ao meio-dia sob o céu da Sua infinita graça.”
Resumo Visual