Série: Novo Testamento • Estudo Bíblico

Tito 1.1-9: Presbíteros apegados à palavra fiel

"Pelo contrário, o bispo deve ser hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, piedoso, deve ter domínio de si, ser apegado à palavra fiel, que está de acordo com a doutrina, para que possa exortar pelo reto ensino e convencer os que contradizem este ensino. Tito 1:8-9"

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Vídeo resumo

Uma ilha de má fama, um grego que nunca foi circuncidado e a mais curta das três cartas que a tradição chama de Pastorais. Depois dos nove estudos em 1 Timóteo, chegamos a Tito. Paulo, solto da primeira prisão em Roma, passou por Creta, uma ilha grande ao sul da Grécia, pregou em várias cidades e seguiu viagem, deixando Tito para terminar o que havia começado. A carta foi escrita pouco depois, em viagem, e é quase toda prática; mas abre com uma saudação longa, em que o apóstolo diz para que serve o seu ministério, antes de passar à primeira tarefa.

Nestes nove versículos, Paulo mostra que a verdade que Deus prometeu antes do tempo e revelou na pregação produz um povo que crê e uma igreja que tem ordem. O apostolado existe para a fé dos eleitos, para o pleno conhecimento da verdade e para a piedade; essa esperança repousa na promessa de um Deus que não pode mentir; e a palavra que ele manifestou na pregação de Paulo é a mesma “palavra fiel” a que o presbítero deve se apegar. Por isso Paulo pede a Tito homens cuja vida em casa e na igreja mostre essa verdade e cuja boca a ensine e a defenda. Numa ilha em que até o deus principal era conhecido como mentiroso, a igreja se firma sobre a palavra de quem não mente, guardada por homens fiéis.

1. Paulo, apóstolo para promover a fé dos eleitos (Versículo 1)

Tito 1:1
“Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade.”

Contexto Histórico e Cultural

Os quatro primeiros versículos são uma única frase no grego, uma das saudações mais longas de Paulo, porque a carta seria lida diante das igrejas de Creta e o apóstolo começa apresentando as credenciais. “Servo de Deus” é, ao pé da letra, escravo de Deus. Em outras cartas Paulo se diz escravo de Cristo; só aqui diz “de Deus”, e a expressão é um título de honra no Antigo Testamento, dado a Abraão, a Moisés, a Davi e aos profetas. O escravo não tem vontade própria, mas o escravo de Deus fala com a autoridade do seu Senhor. “Apóstolo de Jesus Cristo” estreita a descrição: todos os crentes são servos, mas Paulo é enviado de Cristo no sentido estrito, como os doze apóstolos.

Para que existe esse apostolado? A NAA traduz bem: “para promover a fé que é dos eleitos de Deus”. O apostolado de Paulo existe para produzir a fé, como em Romanos 1.5, onde ele recebeu a graça “para a obediência da fé entre todas as nações”. E quem são os eleitos?

A palavra eklektos, escolhido, é a que o Antigo Testamento usava para o povo de Deus, e Paulo a aplica aos que creem em Cristo, como em Colossenses 3.12, “como eleitos de Deus, santos e amados”. O versículo descreve os eleitos pela fé que eles têm: quem crê está em Cristo, e quem está em Cristo é eleito, porque Deus “nos escolheu, nele” (Ef 1.4). A eleição não é um decreto à parte do Salvador; é a posição de quem está unido ao Filho. A fé é decisão de quem crê, e não tem mérito nenhum, porque o mérito está no objeto, que é a cruz.

O segundo alvo é “o pleno conhecimento da verdade”. A palavra é epignōsis, um conhecimento dirigido a um alvo, com força de aplicação, e aqui o alvo é a verdade, nome que estas cartas dão ao evangelho. E essa verdade é “segundo a piedade”: a verdade que produz uma vida de reverência diante de Deus. Crer certo e viver certo não se separam.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não discute a base da eleição; identifica os eleitos pela fé e nada diz sobre um decreto oculto. E não ensina que conhecer a verdade é acumular informação bíblica: um conhecimento que não produz piedade não é o conhecimento de que Paulo fala.

Aplicação Para Hoje

O versículo dá a todo crente uma régua para medir qualquer ministério: o que ele produz. Depois de um ano de cultos, de escola bíblica e de grupos nos lares, as pessoas creem mais, conhecem melhor a Escritura e vivem de modo mais parecido com Cristo? Atividade não é fruto. O irmão que ensina adolescentes, a irmã que lidera o estudo das mulheres, o casal que recebe o grupo em casa podem fazer essa pergunta no fim de cada mês.

E o crente que duvida se é “eleito” tem aqui a resposta mais simples da Bíblia: você crê em Cristo? Então está nele, e quem está nele é escolhido. Não há um segundo lugar onde procurar.

Tudo começa com um escravo. Paulo não escolheu o seu cargo; foi comprado. E o Senhor que o comprou é o mesmo que disse que “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10.45). Quem serve a esse Senhor serve para que outros creiam. E o que esse servo tem a oferecer é uma esperança que não depende dele, como o versículo seguinte explica.

2. A esperança repousa no Deus que não pode mentir (Versículos 2 a 3)

Tito 1:2-3
“Escrevo na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos eternos e, no momento oportuno, manifestou a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por ordem de Deus, nosso Salvador,”

Contexto Histórico e Cultural

O verbo “Escrevo” não está no grego; a NAA o acrescentou porque a frase continua a do v. 1 sem pausa. O apostolado existe também “na esperança da vida eterna”, e esperança, na Bíblia, não é desejo incerto: é a certeza de algo que vai acontecer, tão firme que se pode organizar a vida em torno dela. O crente já tem a vida eterna (Jo 5.24), mas ainda não a vive por inteiro; a esperança olha para a parte que falta.

A garantia dessa esperança está num adjetivo que só aparece aqui no Novo Testamento: “o Deus que não pode mentir”, apseudēs, livre de toda falsidade. A ideia é antiga. Balaão, o profeta pago para amaldiçoar Israel, teve de dizer: “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que mude de ideia” (Nm 23.19). Hebreus diz que “é impossível que Deus minta” (Hb 6.18).

Dean explica que mentir é impossível para Deus não por causa de uma regra externa, mas porque viola o seu próprio ser, assim como a água não pode correr morro acima. Numa carta a Creta, a palavra tinha endereço: os cretenses diziam que Zeus, o deus principal dos gregos, havia nascido e sido sepultado na ilha, e nas histórias deles esse deus mentia. O Deus de Tito não mente. E ele prometeu a vida eterna “antes dos tempos eternos”: a salvação foi decidida no propósito eterno de Deus, antes da criação (2Tm 1.9).

O v. 3 desce da eternidade à história. O que foi prometido antes do tempo foi manifestado “no momento oportuno”, a ocasião que Deus escolheu, como em “quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho” (Gl 4.4). O que Deus manifestou foi “a sua palavra”, o evangelho, e o meio foi “a pregação”, para que a promessa eterna chegasse a pessoas concretas.

Essa pregação “me foi confiada”, diz Paulo, com o espanto de quem perseguia o evangelho e o recebeu em depósito. E tudo “por ordem de Deus, nosso Salvador”: o encargo não veio de homens. O Pai é chamado Salvador aqui, porque é o autor do plano; no v. 4 o mesmo título passa a Cristo, que o executou.

É preciso dizer o que os versículos não ensinam. Eles não ensinam que a certeza da salvação depende de quanto o crente sente a sua fé; a certeza vem de quem prometeu. E “antes dos tempos eternos” não é só “há muito tempo”, nas promessas aos patriarcas; é antes do tempo existir.

Aplicação Para Hoje

Há crentes que vivem perguntando se estão mesmo salvos. A pergunta certa não é “como estou me sentindo hoje?”, mas “Deus mente?”. Quem creu em Cristo tem a vida eterna porque Deus a prometeu, e Deus não volta atrás; a promessa não muda com o humor da segunda-feira, com a queda na oração nem com o pecado que ainda envergonha. Diga isso ao irmão que duvida, e diga com o versículo aberto.

E quem prega tem aqui a sua condição: a mensagem não é dele. Paulo recebeu a pregação em depósito, por ordem de Deus, e a passou a Tito; quem prega hoje no púlpito, na classe ou na sala de casa não inventa o conteúdo nem o adapta ao gosto de quem ouve. Entrega o que recebeu. A igreja local que entende isso não troca de evangelho a cada pregador que passa.

A promessa feita antes do tempo tem um nome: ela foi dada “em Cristo Jesus” e “manifestada agora pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus” (2Tm 1.9-10). O Deus dos tempos eternos e o Cristo da história não são dois. É esse Cristo que a próxima linha chama de Salvador, ao cumprimentar o homem a quem a carta é dirigida.

3. Tito fica em Creta para constituir presbíteros (Versículos 4 a 5)

Tito 1:4-5
“a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum. Que a graça e a paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador, estejam com você. Foi por esta causa que deixei você em Creta: para que pusesse em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísse presbíteros, conforme prescrevi a você:”

Contexto Histórico e Cultural

O livro de Atos nunca cita Tito; o que sabemos dele vem das cartas. Era grego, não judeu, e Paulo o levou a Jerusalém como caso-teste do evangelho: “nem mesmo Tito, que estava comigo, sendo grego, foi obrigado a submeter-se à circuncisão” (Gl 2.3). Depois foi o enviado de Paulo a Corinto nos momentos mais tensos daquela relação (2Co 7.6-7) e cuidou da coleta para os pobres de Jerusalém (2Co 8.6): era o homem das missões difíceis.

“Verdadeiro filho” é o filho legítimo, de direito, e “segundo a fé comum” lembra a todos, inclusive aos opositores judeus do v. 10, que o apóstolo judeu e o grego incircunciso partilham a mesma fé. Em Creta, Tito não é bispo da ilha nem líder fixo de uma igreja: é delegado do apóstolo, com tarefa e prazo, porque Paulo pretende substituí-lo e chamá-lo para passar o inverno com ele (3.12). A saudação troca o “Senhor” habitual por “nosso Salvador”, e o Pai e o Filho são, juntos, a fonte da graça e da paz.

O v. 5 vai direto à tarefa, sem ação de graças. Creta tinha muitas cidades pequenas e uma colônia judaica antiga. Os crentes se reuniam em casas, espalhados por várias cidades, e as igrejas eram tão jovens que a lista de Tito nem repete o “não seja recém-convertido” de 1 Timóteo 3.6. “Pusesse em ordem” traduz epidiorthoō, um verbo que só aparece aqui no Novo Testamento. Wiersbe lembra que é termo de médico, usado para endireitar um membro torto, e que Tito não era o ditador espiritual da ilha, mas o representante oficial de Paulo, com autoridade para trabalhar.

Não se tratava de reformar uma igreja velha e corrompida, mas de concluir uma formação. A primeira coisa que faltava vem nomeada: “constituísse presbíteros”. O verbo, kathistēmi, é o comum para pôr alguém numa função, um juiz, um governador; não tem nada de clerical. Presbítero é “o mais velho”, termo da sinagoga; a ênfase é a maturidade, não uma idade fixa. E o plural, “presbíteros”, com “em cada cidade”, descreve um grupo de homens em cada igreja local, e não um líder por cidade.

É preciso dizer o que os versículos não ensinam. Eles não ensinam que hoje alguém ocupa o lugar de Tito. Não há mais apóstolos nem delegados apostólicos; os presbíteros são feitos bispos pelo Espírito Santo (At 20.28), e a igreja local reconhece os homens em quem vê as qualificações que seguem, sem votação por maioria e sem nomeação por hierarquia.

Aplicação Para Hoje

Igreja nova precisa de ordem, e ordem começa por gente. Uma congregação que nasceu num bairro novo, numa cidade do interior ou num grupo de famílias que se reúne na sala de alguém chega ao ponto em que o membro torto precisa ser endireitado: não há quem supervisione, quem ensine com firmeza, quem responda pelos irmãos. A tentação é atalhar: reconhecer o irmão mais antigo, o mais simpático, o que tem mais dinheiro ou o que fala melhor. Paulo deu a Tito uma lista, e a igreja local de hoje observa os irmãos à luz dela, por tempo suficiente, ora e reconhece quem o Espírito já está usando. E reconhece vários, porque a Bíblia nunca fala de um homem só acima de uma igreja; acima dos presbíteros está só Cristo, o “Supremo Pastor” (1Pe 5.4).

O verdadeiro filho de Paulo era um grego incircunciso. É a prova viva do que a carta vai dizer no capítulo 3: ninguém é salvo por obras, mas pela misericórdia de Deus em Cristo (3.5). E é esse grego que recebe a tarefa de escolher homens para a casa de Deus. Que homens são esses? Paulo começa pela casa deles.

4. O presbítero é irrepreensível, fiel à esposa, governa a casa (Versículo 6)

Tito 1:6
“alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de devassidão, nem são insubordinados.”

Contexto Histórico e Cultural

O primeiro item é o título de toda a lista: “irrepreensível”, anenklētos, quem não pode ser chamado a juízo, não só absolvido, mas sem acusação que se sustente. Não é perfeição sem pecado; é a ausência de uma falha evidente que traga crítica justa sobre o homem e sobre a igreja. Os primeiros exemplos são domésticos.

“Marido de uma só mulher” é, ao pé da letra, homem de uma só mulher. Numa cultura grega em que ter amante era quase a regra, a expressão exige fidelidade conjugal e pureza no presente. Ela não exige que o homem seja casado, não exclui o viúvo que se casou de novo e não trata diretamente de um divórcio passado; pergunta se o homem é fiel hoje. “Que tenha filhos crentes” pede uma explicação. O adjetivo, pistos, pode significar “que crê” ou “fiel, digno de confiança”, e os dois sentidos existem nestas cartas.

O próprio versículo define qual é o sentido aqui pelo que vem depois: filhos “que não são acusados de devassidão, nem são insubordinados”. Devassidão é a vida desregrada do filho pródigo, que desperdiçou os bens “vivendo de forma desenfreada” (Lc 15.13); insubordinado é quem não aceita autoridade, a mesma palavra que o v. 10 vai usar para os falsos mestres. O texto fala de conduta, não de conversão, e o paralelo de 1 Timóteo 3.4 pede os filhos “sob disciplina, com todo o respeito”, não a fé deles. A NAA traduziu “crentes”, que é um sentido possível; o contexto aponta para filhos fiéis, de conduta ordenada sob a autoridade do pai. E “que tenha filhos” fala dos que ainda estão em casa, sob essa autoridade; não exige que o homem tenha filhos.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que um pai pode decidir a fé dos filhos: crer é decisão de cada um diante de Deus, e nenhum pai, por melhor que seja, a toma pelo filho. E não ensina que filhos adultos que não creem provam que o pai falhou ou que ele não é salvo. O que a igreja observa é a casa que o homem governa agora.

Aplicação Para Hoje

Antes de perguntar o que o homem faz, Paulo pergunta quem ele é, e começa pela casa, porque a casa é o campo de treino de quem vai cuidar da casa de Deus. A igreja local, antes de reconhecer um irmão, olha para o que ninguém vê no domingo: ele é fiel à esposa quando viaja a trabalho e quando ninguém está olhando? Os filhos adolescentes que vivem com ele são conduzidos com firmeza e respeito, ou a casa é uma desordem pública, com o filho que apronta na escola e o pai que não sabe de nada? Uma casa em ordem não é uma casa sem problemas; é uma casa em que os problemas são tratados com verdade e graça (Ef 6.4). E isso vale para todo irmão, não só para quem vai presidir: a fidelidade conjugal e o cuidado paciente dos filhos são o primeiro testemunho de qualquer crente.

Essa lista não mede a salvação de ninguém. Todos somos salvos pela graça somente; só alguns são qualificados para liderar a igreja de Deus, e a diferença é de reconhecimento, não de valor diante de Deus. O irmão divorciado, o pai cujo filho adulto se afastou, não são crentes de segunda classe; estão aceitos em Cristo como todos. O que a lista protege é a casa de Deus, e o v. 7 diz por quê.

5. O bispo é mordomo de Deus, sem os cinco vícios (Versículo 7)

Tito 1:7
“Porque é indispensável que o bispo, por ser encarregado das coisas de Deus, seja irrepreensível, não arrogante, alguém que não se irrita facilmente, não apegado ao vinho, não violento, nem ganancioso.”

Contexto Histórico e Cultural

O versículo começa com “Porque”, e essa palavra decide uma questão antiga. Paulo mandou constituir “presbíteros” no v. 5 e agora fala do “bispo”: é outro cargo? Não. O “porque” explica o versículo anterior: Tito deve constituir homens irrepreensíveis porque o bispo é mordomo de Deus. Se o bispo fosse outra pessoa, a explicação não explicaria nada.

Mounce conclui que Paulo trata de um só ofício, e não de dois, apesar da troca de nome; o mesmo acontece em Atos 20, onde os “presbíteros” de Éfeso (At 20.17) são chamados “bispos” (At 20.28). Presbítero diz quem o homem é, o maduro; bispo diz o que ele faz, supervisionar. O singular, “o bispo”, é genérico: descreve o tipo de homem, não um indivíduo acima dos outros. O bispo único acima de um grupo de presbíteros só aparece no século seguinte; lê-lo aqui é ler Tito com os olhos de cem anos depois.

“Encarregado das coisas de Deus” traduz, ao pé da letra, “mordomo de Deus”, oikonomos. O mordomo era o administrador da casa greco-romana, em geral um escravo que geria terras, bens e servos de um senhor; não era dono de nada, e devia contas. José foi mordomo de Potifar, o oficial egípcio que “lhe passou às mãos tudo o que tinha” (Gn 39.4). A casa é de Deus, “a casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo” (1Tm 3.15), e o presbítero é mordomo de Deus, não da igreja nem de si mesmo.

Strauch tira a consequência: a casa pertence a Deus, não aos presbíteros. Daí os cinco vícios que o mordomo não pode ter. “Arrogante” é quem se agrada de si e impõe a própria vontade; vem em primeiro lugar porque o mordomo serve numa casa que não é dele, e o obstinado não sabe trabalhar em equipe. “Que não se irrita facilmente” exclui o irascível, a ira que se instala e é alimentada.

“Não apegado ao vinho” descreve o homem que vive junto ao vinho; condena o abuso, não legisla a abstinência. “Não violento” exclui o brigão. “Nem ganancioso” é, ao pé da letra, ávido de lucro vergonhoso, numa ilha conhecida pelo amor ao dinheiro, e prepara o v. 11, onde os falsos mestres ensinam “com a intenção vergonhosa de ganhar dinheiro”.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que o presbítero é dono da igreja nem que tem um grau espiritual acima dos irmãos; mordomo é o servo de maior confiança da casa, e por isso mesmo presta contas. E não ensina a abstinência total de vinho como qualificação, embora quem lidera possa escolhê-la pelo bem dos fracos.

Aplicação Para Hoje

Aqui acaba a linguagem de posse: nenhum presbítero tem “a minha igreja” ou “as minhas ovelhas”. Os cinco vícios continuam sendo os que mais ferem as igrejas brasileiras. O irmão que impõe a própria vontade à reunião de presbíteros e à congregação; o que perde a cabeça e humilha alguém na frente de todos; o que esconde um problema com bebida; o que resolve conflito no grito; e o que entra no serviço perguntando quanto vai ganhar. Quem serve pelo ganho já está desqualificado antes de começar. A igreja local faz bem em não ter pressa: observar o temperamento de um homem debaixo de pressão, na reunião difícil e na crítica injusta, diz mais do que qualquer currículo.

O mordomo presta contas. “O que se requer destes encarregados é que cada um deles seja encontrado fiel” (1Co 4.2), e o presbítero responderá no tribunal de Cristo pela casa que administrou; ali não se perguntará pelo tamanho da igreja nem pelo dinheiro levantado, mas pela fidelidade. O dono da casa é o “Pastor e Bispo da alma de vocês” (1Pe 2.25). Depois de dizer o que o mordomo não pode ser, Paulo diz o que ele deve ser.

6. As seis virtudes que o bispo deve ter (Versículo 8)

Tito 1:8
“Pelo contrário, o bispo deve ser hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, piedoso, deve ter domínio de si,”

Contexto Histórico e Cultural

“Pelo contrário” vira a lista: aos cinco “não” do v. 7 respondem seis qualidades. Várias delas eram conhecidas da ética grega, como títulos de honra e virtudes de filósofo. A diferença está na fonte.

Os mestres gregos pediam essas virtudes ao esforço do homem; Paulo dirá, no capítulo seguinte, que é “a graça de Deus” que “nos educa para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos neste mundo de forma sensata, justa e piedosa” (2.11-12). Duas das palavras do v. 8 voltam ali. O presbítero não é um cidadão exemplar no padrão de Creta, mas um homem em quem a graça já está trabalhando.

“Hospitaleiro” traduz philoxenos, amigo do estranho, quem ama o estrangeiro. No primeiro século a virtude tinha função missionária: as hospedarias eram lugares perigosos e imorais, e a casa do crente era o abrigo do obreiro que viajava; em Creta, a casa do presbítero era também o lugar onde a igreja se reunia. João elogia Gaio, um crente que recebia os irmãos de passagem, e conclui: “devemos acolher esses irmãos, para que nos tornemos cooperadores com eles na proclamação da verdade” (3Jo 8). “Amigo do bem” ama tanto as pessoas boas quanto as coisas boas.

“Sensato” é quem governa os impulsos pelo juízo, a virtude que Tito vai ensinar a todos os grupos da igreja (2.2-6). “Justo” é a justiça prática: não o homem declarado justo pela fé, mas o que vive com retidão diante dos outros. “Piedoso” é o reto diante de Deus, separado para ele. “Domínio de si” é o disciplinado; a mesma família de palavras nomeia o fruto do Espírito (Gl 5.23), e Provérbios compara o homem que não governa o próprio espírito a uma cidade sem muros, aberta a qualquer inimigo (Pv 25.28).

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que essas virtudes são privilégio de presbítero. Todas são esperadas de todo crente, e a hospitalidade é ordem para a igreja inteira: “Sejam mutuamente hospitaleiros, sem murmuração” (1Pe 4.9). O que distingue o presbítero não é ter outra moral, mas exibi-la de modo comprovado, para que o rebanho veja nele o caminho.

Aplicação Para Hoje

A mesa do presbítero é parte do seu pastoreio. É em casa que se conhecem os novos convertidos, o casal que chegou de outra cidade, o jovem da universidade que não tem onde almoçar no domingo, o missionário de passagem que depende de casas abertas. O presbítero cuja casa está fechada não pode ensinar a igreja a ser cooperadora da verdade. Nem todos podem hospedar, e há outros modos de ser hospitaleiro, mas a regra vale para cada crente: receber em casa um irmão de outra cidade, um obreiro em visita, um vizinho que ouviu o evangelho. Foi na mesa das casas que a igreja do Novo Testamento cresceu.

E a igreja local olha para as outras virtudes com a mesma concretude: o irmão ama o que é bom, ou se diverte com o que é baixo? Decide com juízo, ou no impulso? É reto com o patrão e com o fisco? Separa tempo para Deus? Governa os próprios apetites?

O maior exemplo de quem “amava o bem” é o Senhor, que “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10.38). As virtudes do v. 8 são o retrato de Cristo reproduzido pela graça num homem comum. Mas falta a última qualificação, a mais longa, a que dá sentido a todas as outras.

7. Apegado à palavra fiel, o presbítero exorta e convence (Versículo 9)

Tito 1:9
“ser apegado à palavra fiel, que está de acordo com a doutrina, para que possa exortar pelo reto ensino e convencer os que contradizem este ensino.”

Contexto Histórico e Cultural

“Apegado” traduz antechomai, agarrar-se, segurar firme para não soltar; é o verbo de “irá se dedicar a um e desprezar o outro” (Mt 6.24). O presbítero não apenas conhece a palavra; está preso a ela. A palavra é “fiel”, digna de confiança, e a carta explica por quê: a palavra é fiel porque o Deus que a deu “não pode mentir” (v. 2), e quem a ensina deve ser fiel como ela. E ela é fiel quando “está de acordo com a doutrina”, o ensino recebido dos apóstolos (At 2.42). Uma apresentação do evangelho que não corresponde à pregação apostólica, como a dos opositores de Creta, não é digna de confiança.

O apego tem um fim: “para que possa”. O primeiro verbo é exortar, encorajar, chamar para junto, e a esfera é o “reto ensino”, que no grego é ensino sadio, do verbo hygiainō, ter saúde, de onde vem “higiene”. É a imagem de médico que percorre estas cartas: a doutrina certa dá saúde à alma, e o falso mestre “tem um desejo doentio por discussões” (1Tm 6.4). O segundo verbo é elenchō, refutar, expor o erro, convencer; o objeto são “os que contradizem”, os que falam contra o ensino, que Paulo vai descrever no v. 10.

São funções contínuas, que não se deixam de lado. Paulo exige essa capacidade de todos os presbíteros, não só de alguns. Quem preside segura a Bíblia com as duas mãos: uma para alimentar, outra para proteger.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que refutar é humilhar: o servo do Senhor deve ser “brando para com todos, apto para ensinar, paciente”, corrigindo “com mansidão os que se opõem a ele” (2Tm 2.24-25), e o alvo é que os contraditores se tornem “sadios na fé” (v. 13): a refutação existe para recuperar, não para derrotar. E não exige diploma: exige apego à doutrina apostólica e capacidade comprovada de ensiná-la e defendê-la, que se forma em anos de Bíblia aberta.

Aplicação Para Hoje

Este versículo dá à igreja local o critério que mais pesa para reconhecer presbíteros. A pergunta não é se o irmão administra bem uma empresa, se fala com desenvoltura ou se atrai gente. É se ele está agarrado à palavra fiel, se a conhece o bastante para alimentar os irmãos com ensino sadio e se sabe mostrar com mansidão onde está o erro: a doutrina de prosperidade que entrou pelo vídeo do celular, a revelação nova que um visitante trouxe, o legalismo que exige da igreja o que a Bíblia não exige.

Esses homens em geral já estão à vista, sem título nem cargo: são os que abrem a Bíblia com os jovens, corrigem com brandura e não largam a doutrina dos apóstolos. E quem já serve pode perguntar se o seu ensino tem cheiro de saúde ou de novidade. O irmão que não quer doutrina, só “pensamentos edificantes”, não sabe o que pede: longe da verdade não há ajuda nem saúde espiritual.

Voltamos à palavra do começo. O Deus que não pode mentir prometeu a vida eterna antes do tempo, a manifestou na pregação confiada a Paulo, e Paulo a confiou a Tito, que a confiou a presbíteros em cada cidade de Creta. Por esse caminho a mesma palavra chega hoje a uma igreja no Brasil, nas mãos de homens comuns que se apegam a ela. Quem ainda não creu precisa saber que essa palavra fiel tem um conteúdo simples: Cristo Jesus, nosso Salvador, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou, e quem nele crê tem a vida eterna, prometida por quem não mente. E quem creu, e talvez tenha se cansado do ensino, ou se deixado levar por quem contradiz, pode voltar à mesma palavra: ela continua fiel, porque o Deus que a deu continua sem mentir.

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Referências Bibliográficas

Andy Woods, Sugar Land Bible Church (spiritandtruth.org; slbc.org), lições citadas: 2 Timóteo: lição 7; Atos: lições 34, 82; Eclesiologia: lições 40, 41, 43, 48; Soteriologia: lições 2, 9, 14. Andy Woods, “The Meaning of ‘The Husband of One Wife’ in 1 Timothy 3:2” (2004).

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• Witherington III, Ben. Letters and Homilies for Hellenized Christians, vol. 1. Downers Grove: IVP Academic, 2006.

• Bíblia Sagrada, Nova Almeida Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. Texto grego: SBLGNT, com a análise morfológica do MorphGNT.

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