Série: Antigo Testamento • Estudo Bíblico

Salmo 85: O Clamor pela Restauração e o Triunfo da Graça

"Escutarei o que Deus, o SENHOR, disser, pois falará de paz ao seu povo e aos seus santos; e que jamais caiam em insensatez. Salmos 85.8"

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O Salmo 85 apresenta-se como um lamento comunitário de profunda ressonância teológica, situando-se, mui provavelmente, no período pós-exílico. Embora o remanescente de Israel tivesse retornado geograficamente da Babilônia, a realidade que encontraram — templos em ruínas, muros derrubados e uma economia devastada — indicava que a restauração física não fora acompanhada, em igual medida, por uma revitalização espiritual. O povo vivia a tensão de um “exílio existencial” em sua própria terra, onde a memória da libertação passada contrastava severamente com a penúria e a opressão do presente.

Neste contexto, o Salmo funciona como uma repreensão inspirada a orações “seguras”, realistas e meramente convencionais. Ele nos convoca a um “descontentamento santo” (conforme a perspectiva de Akin), rejeitando o status quo de uma vida espiritual morna e de um mundo caído onde as fronteiras entre a Igreja e a sociedade se tornam perigosamente indistinguíveis. Mais do que um registro histórico, este texto é um convite para abandonarmos as petições de “centavos” e clamarmos pelas “peças de ouro” da glória de Deus, buscando um “novo normal” que só o arrependimento genuíno e a intervenção soberana do Espírito podem inaugurar.

1. A Recordação da Graça Passada (Versículos 1 a 3)

Salmos 85:1-3
“Favoreceste a tua terra, SENHOR; restauraste a prosperidade de Jacó. Perdoaste a iniquidade de teu povo, encobriste todos os seus pecados. A tua indignação, reprimiste-a toda; do furor da tua ira te desviaste.”

Contexto Histórico e Cultural

O salmista inicia sua oração com o exercício da memória redentiva. O verbo hebraico Shuv (voltar/retornar), que permeia todo o Salmo, aparece aqui para descrever a restauração da “prosperidade de Jacó”.

Como observa Tate, o uso do nome “Jacó” é frequente em Isaías 40–55 para designar o “corpo político ferido” de Israel. A recordação não é meramente nostálgica, mas jurídica e soteriológica: Deus agiu favoravelmente sobre Sua terra por meio de três atos fundamentais.

Primeiro, o perdão da iniquidade, visto sob a imagem de um peso opressor que a misericórdia divina levanta e remove (nasah). Segundo, o “cobrir” (kasah) do pecado, que Guzik descreve como ocultar uma mancha ofensiva aos olhos do Céu. E, por fim, a propiciação, onde o Senhor desvia o Seu “ardente furor”.

Aplicação Cristã

Para a Igreja contemporânea, esta recordação encontra seu clímax não no retorno de um cativeiro geográfico, mas no mistério do Calvário. Enquanto no Antigo Testamento o pecado era “coberto” temporariamente, em Cristo ele é definitivamente “aposentado” e retirado de vista.

Jesus é o cumprimento do Propiciatório, onde a ira divina é satisfeita e a culpa é removida. Ao recordarmos a obra vicária do Cordeiro, somos fortalecidos a crer que Aquele que outrora nos resgatou da morte espiritual continua sendo o Senhor que favorece o Seu povo em meio às crises temporais.

2. O Clamor por um Novo Avivamento (Versículos 4 a 7)

Salmos 85:4-7
“Restabelece-nos, ó Deus da nossa salvação, e retira de sobre nós a tua ira. Estarás para sempre irado contra nós? Prolongarás a tua ira por todas as gerações? Será que não tornarás a vivificar-nos, para que em ti se alegre o teu povo? Mostra-nos, SENHOR, a tua misericórdia e concede-nos a tua salvação.”

Contexto Histórico e Cultural

A transição para o presente é marcada por uma súplica urgente por revitalização. O termo “vivificar” (v. 6) — do original chayah — carrega o sentido de “fazer viver novamente”.

Como bem pontuou Wiersbe, uma “mudança de geografia” não garante uma “mudança de caráter”; os exilados voltaram para casa, mas seus corações permaneciam em ruínas. Eles clamam para que o vento do Espírito sopre sobre os “ossos secos” (Ezequiel 37), reconhecendo que a verdadeira alegria é fruto exclusivo da vida que procede de Deus.

O salmista trata o Rei com a audácia que Sua majestade exige: ao pedirmos coisas grandiosas, honramos a riqueza e o poder de Deus. Pedir por avivamento é reconhecer que Deus não distribui apenas “moedas”, mas tesouros de glória.

Aplicação Cristã

Esta seção nos ensina a não aceitar o “normal” de um mundo sob o pecado como o padrão para a vida cristã. O avivamento não é um evento agendado, mas uma incursão soberana de Deus que “torna” o nosso coração para Si.

Em Cristo, somos transportados da morte para a vida, e nossa oração deve ser por essa vivificação contínua. Devemos ser audaciosos espiritualmente em nossos pedidos.

Nossas orações revelam o tamanho do Deus em quem cremos. Se Ele é rico e generoso, nossas petições devem clamar pela transformação radical de nossa sociedade e de nossa própria letargia espiritual.

3. A Expectativa da Resposta de Deus (Versículos 8 e 9)

Salmos 85:8
“Escutarei o que Deus, o SENHOR, disser, pois falará de paz ao seu povo e aos seus santos; e que jamais caiam em insensatez. Próxima está a salvação dos que o temem, para que a glória habite em nossa terra.”

Contexto Histórico e Cultural

Após o clamor, o salmista adota uma postura de silêncio expectante. Ele aguarda a proclamação de Shalom.

Na definição de Brueggemann, Shalom é o bem-estar total que persiste mesmo em meio a ameaças — não é uma utopia etérea, mas segurança material e espiritual corporativa. Contudo, a paz não é automática; ela exige uma resposta ética.

O aviso “que jamais caiam em insensatez” refere-se especificamente à idolatria que levou ao exílio original. A salvação está próxima apenas para aqueles que cultivam o temor do Senhor (yirah), o que permite que a Shekinah (a glória manifesta) habite na terra.

Aplicação Cristã

Jesus Cristo é a encarnação perfeita desse Shalom e a glória definitiva que tabernaculou entre nós. Ele é a resposta ao silêncio do salmista.

No entanto, o alerta contra a “loucura” permanece vívido: a paz de Cristo é inseparável de uma vida de obediência e temor. Não podemos desfrutar da harmonia do Reino enquanto flertamos com os ídolos modernos que fragmentam nossa devoção. A salvação está próxima de nós hoje na Palavra e no dia a dia de adoração e serviço ao Senhor, chamando-nos a uma vida onde a presença de Deus não seja apenas uma visitação ocasional, mas uma habitação permanente.

4. O Encontro Glorioso e a Restauração Final (Versículos 10 a 13)

Salmos 85:10-13
“A graça e a verdade se encontraram, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, dos céus a justiça baixa o seu olhar. Também o SENHOR dará o que é bom, e a nossa terra produzirá o seu fruto. A justiça irá adiante do SENHOR, cujas pegadas ela transforma em caminhos.”

Contexto Histórico e Cultural

O Salmo encerra com uma visão majestosa onde os atributos divinos são personificados como uma “junção de poderes sobrenaturais” (Tate). Graça (Hesed), Verdade, Justiça e Paz encontram-se como generais ou reis em harmonia cósmica.

O versículo 13 apresenta uma imagem teofânica vigorosa: a “Justiça” é o mensageiro que vai adiante do Rei, preparando e aplainando o caminho para os Seus passos. O resultado desse advento é a restauração da criação: a verdade brota como colheita da terra e a justiça olha favoravelmente do firmamento, trazendo fertilidade e ordem.

Aplicação Cristã

Esta síntese alcança sua expressão máxima na Cruz de Cristo. Para a Igreja Primitiva, este “beijo” entre a justiça e a paz representava a reconciliação dos opostos: a Verdade, que nos condenaria, e a Misericórdia, que nos perdoaria, tornaram-se “melhores amigas” em Jesus.

Na cruz, a justiça de Deus foi plenamente satisfeita e Sua paz foi plenamente outorgada. Jesus é o profeta e o próprio Rei cuja vinda “põe todas as coisas em ordem”.

Ele é a Verdade que brotou da terra em Sua ressurreição e a Justiça que olha do céu. Hoje, caminhamos nas pegadas desse Rei, aguardando o dia escatológico em que a glória habitará permanentemente na nova criação, e a justiça preparará definitivamente o caminho para o Seu Reino eterno.

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Referências Bibliográficas

Daniel L. Akin. Exalting Jesus in Psalms 1-50

Willem A. VanGemeren. Psalms – The Expositor’s Bible Commentary

Warren W. Wiersbe. Be Worshipful: Glorifying God for Who He Is (Psalms 1-89)

William MacDonald. Comentário Bíblico Popular – Antigo Testamento

SBB. Bíblia de Estudo – Nova Almeida Atualizada

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Infográfico

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