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1. Introdução ao Salmo 70: O Clamor da Urgência
O Salmo 70 é um “concentrado” de urgência espiritual. Sendo quase uma repetição exata dos versículos finais do Salmo 40 (vv. 13-17), ele foi “extraído” daquela composição maior para servir como um clamor autônomo em momentos de crise aguda ou como uma introdução urgente ao Salmo 71. O título nos informa que ele é um salmo de Davi “para trazer à memória” (no hebraico, hazkir).
Como especialistas em hermenêutica, devemos notar que este termo técnico está ligado à azkarah, a “porção memorial” das ofertas de manjares ou do incenso que era queimada para “lembrar” Deus da presença e da necessidade do adorador. Assim, este salmo deve ser visualizado como uma oração que sobe como fumaça diante do Trono, pedindo atenção imediata.
Martinho Lutero, o grande reformador, descreveu este salmo com vigor: “Esta oração é o escudo, a lança, o trovão e a defesa contra todo ataque de medo, presunção e mornidão”. O tema central é o paradoxo da espera: a percepção humana de que Deus está “arrastando os pés” (procrastinando), enquanto, na realidade da eternidade, Ele está movendo-se com precisão soberana para glorificar Seu nome através do socorro oportuno.
2. O Pedido por Socorro Imediato (Versículo 1)
“Agrada-te, ó Deus, em me livrar; apressa-te, ó SENHOR, em me socorrer.”
Contexto Histórico e Cultural
A abertura do salmo é marcada pela pressa extrema. O termo hebraico mahir (apressar-se) não é um pedido educado, mas um grito de quem está com as costas na parede.
Davi utiliza uma combinação deliberada de nomes divinos: Elohim (Deus como Criador e Juiz Poderoso) e Yahweh (o nome da aliança, o Deus fiel que se relaciona com Seu povo). Ao invocar Yahweh, o salmista apela à fidelidade de Deus ao pacto.
O teólogo G. Campbell Morgan observa que, embora orações que pedem para Deus “correr” revelem uma concepção humana falha — pois Deus nunca está atrasado ou descuidado — Ele, em Sua graça, aceita e interpreta nossos termos imperfeitos baseando-se em Seu conhecimento perfeito.
Aplicação Cristã
Sob a Nova Aliança, o desespero do salmista é respondido pela segurança do acesso ao “Trono da Graça” (Hebreus 4:15-16). Enquanto o salmista temia que Deus estivesse demorando, o cristão olha para o Calvário e vê que Deus agiu no kairos (tempo certo).
Como Paulo afirma em Romanos 5:6: “Cristo morreu pelos ímpios no tempo certo”. Nossa urgência hoje não nasce da dúvida sobre a disposição de Deus, mas da nossa total dependência d’Ele, sabendo que Aquele que não poupou Seu próprio Filho não tardará em nos sustentar em nossas lutas diárias.
3. A Resposta aos Adversários (Versículos 2-3)
“Que sejam envergonhados e cobertos de vexame os que buscam tirar-me a vida; retrocedam e cubram-se de vergonha os que se alegram com o meu mal. Retrocedam por causa da sua vergonha os que dizem: ‘Bem feito! Bem feito!'”
Contexto Histórico e Cultural
No contexto do Antigo Testamento, a vergonha pública não era apenas um sentimento, mas uma forma de justiça divina onde a maldade era exposta diante da comunidade. Os inimigos zombavam com a expressão “Aha!
Aha!” (traduzida pela NAA como “Bem feito!”). David Guzik compara esse escárnio ao “latido de um cão”, um barulho irritante e vazio diante da majestade de Deus.
Figuras da Igreja Primitiva, como Irineu e Policarpo, viam nestas passagens um modelo de fé perseverante; Policarpo enfatizava que a paciência sob perseguição era a marca da fé autêntica. O pedido por vergonha não é vingança carnal, mas um desejo de que os planos malignos falhem para que os ímpios vejam sua loucura e, talvez, se voltem para Deus.
Aplicação Cristã
Na Nova Aliança, ressignificamos o “inimigo” à luz de Efésios 6:12: nossa luta é contra as forças espirituais do mal. Oramos pela humilhação dessas potências das trevas, que já foram expostas ao desprezo público na cruz (Colossenses 2:15).
Seguindo a tradição Anabatista de identificação com os perseguidos, entendemos que orar pela derrota do mal é uma forma de buscar o Reino. No entanto, o cristão deve orar pela humilhação das forças inimigas a partir de um coração de profunda humildade pessoal, desejando que a glória de Deus, e não o nosso ego, seja vindicada.
4. A Alegria dos que Buscam a Deus (Versículo 4)
“Exultem e em ti se alegrem todos os que te buscam; e os que amam a tua salvação digam sempre: ‘Deus seja engrandecido!'”
Contexto Histórico e Cultural
Há aqui uma transição da imprecação contra o mal para a doxologia (louvor) dos fiéis. O salmista convoca os que “amam a salvação” a “magnificarem” a Deus.
Magnificar não é tornar Deus maior — o que seria impossível — mas, como uma lente de aumento, tornar nossa percepção de Sua grandeza muito maior em meio aos problemas. Na perspectiva Batista, este versículo destaca a separação entre a “igreja visível” e os verdadeiros regenerados: aqueles que buscam genuinamente ao Senhor, e não apenas benefícios religiosos.
Aplicação Cristã
Nossa alegria não é um subproduto de circunstâncias favoráveis, mas da nossa união com Cristo. “Amar a Sua salvação” hoje significa descansar na obra consumada de Jesus. O cristão é alguém que, independentemente da pressão, escolhe ajustar a lente da alma para que Deus pareça maior do que a crise. Como destacou Charles Spurgeon, esse louvor deve ser universal entre os salvos, transcendendo denominações, para que em tudo Cristo seja engrandecido.
5. A Confissão de Dependência (Versículo 5)
“Eu sou pobre e necessitado; ó Deus, apressa-te em me socorrer, pois tu és o meu amparo e o meu libertador. SENHOR, não te demores!”
Contexto Histórico e Cultural
Davi conclui com a expressão hebraica ani ve-evion. Trata-se de uma hendíades (uma ideia expressa por duas palavras), que significa algo como “necessitado-pobre” ou “totalmente desprovido”.
É o reconhecimento da falência espiritual absoluta e da dependência total de Deus. A tradição Anabatista sempre enfatizou esta “pobreza de espírito” como essencial para o discipulado radical. Policarpo e outros Pais da Igreja viam nesta confissão a base da perseverança: somente quem reconhece que não tem nada pode receber tudo de Deus.
Aplicação Cristã
Este versículo é o Antigo Testamento antecipando as Bem-aventuranças: “Bem-aventurados os pobres em espírito”. Na Nova Aliança, entendemos que reconhecer nossa fraqueza não é derrota, mas o portal para a força de Deus.
Cristo Se identificou com nossa pobreza (2 Coríntios 8:9) para nos tornar ricos em graça. Ao confessarmos que somos “pobres e necessitados”, estamos simplesmente concordando com a realidade de que Jesus é nosso único “amparo e libertador”.
6. Conclusão: A Fidelidade de Deus no Tempo Certo
O Salmo 70 nos ensina que Deus é um socorro presente, mesmo quando o sentimos ausente. Como observou o teólogo F.B.
Meyer, “os atrasos de Deus não são negações, mas são necessários para o aperfeiçoamento de Seus arranjos”. Ele está voando nas asas de cada hora para nos socorrer, agindo com mais rapidez do que a luz viaja entre os mundos.
Embora o salmo termine com um apelo para que o Senhor “não se demore”, o fazemos agora com a paz de quem sabe que o “último capítulo” já foi escrito na ressurreição de Cristo. O mal foi envergonhado, a salvação foi operada e a glória de Deus foi manifesta. Portanto, podemos clamar com urgência, mas sem ansiedade, confiando que o Deus que sustenta o universo nunca chega tarde.
Soli Deo Gloria.
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Referências Bibliográficas
Daniel L. Akin. Exalting Jesus in Psalms 1-50
Willem A. VanGemeren. Psalms – The Expositor’s Bible Commentary
Warren W. Wiersbe. Be Worshipful: Glorifying God for Who He Is (Psalms 1-89)
William MacDonald. Comentário Bíblico Popular – Antigo Testamento
SBB. Bíblia de Estudo – Nova Almeida Atualizada
Resumo Visual
Vídeo de Aprofundamento
Exercícios de Fixação
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