Série: Antigo Testamento • Estudo Bíblico

Salmo 22: O Grito do Abandonado e o Louvor do Vencedor

"Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu gemido? Salmos 22.1"

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Introdução: Uma Janela para a Cruz

O Salmo 22 se destaca nas Escrituras como um dos mais profundos e detalhados salmos messiânicos. Escrito por Davi cerca de mil anos antes da crucificação, ele funciona como uma “radiografia” profética dos sofrimentos de Cristo, descrevendo com precisão assombrosa a agonia do Calvário. A crucificação, um método de execução romano que sequer existia no tempo de Davi, é detalhada de uma forma que aponta inequivocamente para a inspiração divina do texto.

O salmo se divide em duas partes dramáticas que capturam a totalidade da obra redentora. A primeira (versículos 1-21) é um lamento que mergulha em uma agonia e abandono indescritíveis, detalhando o preço da redenção. A segunda (versículos 22-31), em um contraste triunfal, explode em um louvor vitorioso que alcança todas as nações e gerações.

Neste artigo, analisaremos este salmo perícope por perícope. Nosso objetivo é compreender a profundidade do sofrimento de Cristo, o alcance global de Sua vitória e extrair aplicações práticas que fortaleçam nossa fé e nossa caminhada hoje.

ATO I: A Angústia da Cruz – O Preço da Redenção (vv. 1-21)

Esta seção detalha o sofrimento descrito na primeira parte do salmo, conectando diretamente os versos à experiência de Jesus na cruz.


1. O Clamor do Abandono (vv. 1-2)
Salmos 22:1-2 “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu gemido? Deus meu, clamo de dia, e não me respondes; também de noite, porém não tenho sossego.”

Análise Histórica e Profética


Estas palavras formam o quarto dos sete clamores de Jesus na cruz. Não se tratava de um mero sentimento de abandono, mas de uma separação real na comunhão (embora não na essência) entre o Pai e o Filho. Naquele momento, Jesus se fez pecado por nós (2 Coríntios 5:21), tomando sobre Si a nossa condenação. A santidade absoluta de Deus, que não pode contemplar o mal (Habacuque 1:13), exigiu essa ruptura momentânea para que a justiça fosse satisfeita.

Jesus experimentou o abandono que nós merecíamos. Contudo, é crucial entender que, no contexto judaico, recitar o primeiro verso de um salmo era invocar o salmo inteiro. Para os ouvintes na cruz, o clamor de Jesus não era apenas um grito de desespero, mas o título de um cântico que, embora começasse em agonia, terminaria em vitória retumbante.

Aplicação para Hoje


Este clamor valida o sentimento de abandono que, por vezes, assola a alma do crente. Jesus santificou o nosso sentimento de abandono, levando-o à cruz para que soubéssemos que mesmo no silêncio mais profundo, não estamos verdadeiramente sós. A fé não é a ausência de dúvida ou de dor, mas a persistência em clamar “Deus meu” mesmo quando a resposta parece ser o silêncio, confiando que o final da história já foi escrito em triunfo.


2. O Paradoxo da Fé (vv. 3-5)
Salmos 22:3-5 “Contudo, tu és santo, entronizado entre os louvores de Israel. Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e tu os livraste. A ti clamaram e escaparam; confiaram em ti e não foram envergonhados.”

Análise Histórica e Profética


O sofredor estabelece aqui um contraste doloroso. Ele recorda a fidelidade de Deus ao longo da história de Israel: os patriarcas confiaram, clamaram e foram libertos. A pergunta implícita é agonizante: por que o Filho perfeito, o Cordeiro imaculado, não está sendo salvo? A resposta teológica é profunda: Deus não O livrou da morte para que pudesse livrá-Lo (e a nós) através da morte. A ressurreição seria a vindicação final que provaria que Sua confiança não foi em vão.

Aplicação para Hoje


Em meio às tempestades da vida, lembrar a fidelidade passada de Deus — tanto na história da redenção quanto em nossa própria jornada — serve como uma âncora para a fé. O que Deus fez antes, Ele tem o poder e o caráter para fazer novamente. Nossa história com Ele alimenta nossa esperança presente.


3. A Humilhação Pública (vv. 6-8)
Salmos 22:6-8 “Mas eu sou verme e não um ser humano; afrontado pelos homens e desprezado pelo povo. Todos os que me veem zombam de mim; fazem caretas e balançam a cabeça, dizendo: “Confiou no SENHOR! Ele que o livre! Salve-o, pois nele tem prazer.””

Análise Histórica e Profética


A metáfora “eu sou verme” é chocante. A palavra hebraica aqui é tola, que se refere ao “verme carmesim” (coccus ilicis). Este pequeno inseto, ao morrer esmagado em um madeiro, liberava uma tintura vermelha permanente e, no processo, protegia sua prole sob seu corpo. É uma imagem poderosa do sangue sacrificial de Cristo, derramado para nos tingir com Sua justiça e nos dar vida.

Além disso, a zombaria descrita no versículo 8 foi cumprida literalmente aos pés da cruz, conforme registrado em Mateus 27:43, onde os líderes religiosos escarneceram com as mesmas palavras.

Aplicação para Hoje


Cristo se identificou com os mais baixos, desprezados e humilhados da sociedade. Isso nos ensina a valorizar cada vida humana, independentemente de seu status, e a encontrar nossa dignidade e valor Nele, e não na aprovação ou opinião dos outros. Ele suportou a vergonha para que pudéssemos ser vestidos de honra.


4. O Apelo ao Deus da Vida (vv. 9-11)
Salmos 22:9-11 “Contudo, tu és quem me fez nascer; e me preservaste, estando eu ainda ao seio de minha mãe. A ti me entreguei desde o meu nascimento; desde o ventre de minha mãe, tu és o meu Deus. Não te distancies de mim, porque a tribulação está próxima, e não há quem me ajude.”

Análise Histórica e Profética


O foco do salmista se desloca dos zombadores para Deus. Ele apela para a relação de cuidado e providência que Deus demonstrou desde o seu nascimento. Esta não é uma súplica desesperada, mas uma expressão de confiança fundamentada na aliança e em uma história pessoal com o Deus que o formou e o sustentou desde o ventre. É um lembrete de que o relacionamento deles não começou na crise, mas na criação.

Aplicação para Hoje


Somos convidados a refletir sobre a presença soberana e cuidadosa de Deus em cada fase de nossa vida. Reconhecer que Ele nos conhece e nos sustenta desde antes de nascermos é uma base sólida para a confiança, especialmente quando a tribulação parece próxima e o auxílio humano falha.


5. A Anatomia da Crucificação (vv. 12-18)
Salmos 22:12-18 “Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam. Contra mim abrem a boca, como faz o leão que despedaça e ruge. Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro de mim. Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da morte. Cães me cercam; um bando de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés. Posso contar todos os meus ossos; os meus inimigos estão olhando para mim e me encarando. Repartem entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançam sortes.”

Análise Histórica e Profética


Esta seção é uma descrição clínica e profética da crucificação, escrita séculos antes de sua invenção. A narrativa da agonia se desenrola em uma prosa devastadora. Os inimigos são retratados primeiro como “fortes touros de Basã”, uma imagem dos líderes religiosos de Israel, poderosos e arrogantes, que cercaram Jesus com fúria.

A cena então se interioriza, descrevendo a desintegração física do sofredor: “derramei-me como água”, “todos os meus ossos se desconjuntaram”. Isso corresponde à provável desarticulação dos ombros pelo peso do corpo na cruz e à exaustão total. O coração que “fez-se como cera” e o vigor que “secou-se como um caco de barro” pintam um quadro de colapso interno, enquanto a língua apegada ao céu da boca prefigura o clamor de Jesus: “Tenho sede” (João 19:28).

Em seguida, os executores gentios entram em cena como “cães”, um termo judaico para os não-judeus, referindo-se aos soldados romanos. É neste ponto que a profecia atinge seu ápice de precisão: “traspassaram-me as mãos e os pés”. Embora textos massoréticos posteriores a Cristo digam “como um leão”, a Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento de c. 250 a.C.) e os Manuscritos do Mar Morto confirmam que a leitura original e correta é “traspassaram”. A humilhação final vem com o cumprimento literal da profecia: “Repartem entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançam sortes” (João 19:23-24).

Aplicação para Hoje


Meditar sobre o custo físico real do nosso pecado deve nos levar a um lugar de profunda gratidão e sobriedade. Isso transforma nossa participação na Ceia do Senhor, lembrando-nos do corpo partido e do sangue derramado que ela representa, não como símbolos abstratos, mas como realidades históricas brutais que garantiram nossa paz.


6. A Virada Triunfal (vv. 19-21)
Salmos 22:19-21 “Tu, porém, SENHOR, não te afastes de mim; força minha, apressa-te em me socorrer. Livra a minha alma da espada, e, das presas do cão, a minha vida. Salva-me da boca do leão e dos chifres dos búfalos; sim, tu me respondes.”

Análise Histórica e Profética


No meio do versículo 21, o tom do salmo muda abrupta e dramaticamente. O clamor final por salvação é imediatamente seguido por uma declaração de fé e certeza: “sim, tu me respondes”. Este é o ponto de virada teológico do salmo, a dobradiça sobre a qual toda a história da redenção gira.

Não é uma esperança otimista, mas uma declaração de vitória consumada. Este momento prefigura a transição da morte para a ressurreição, da cruz para a coroa. É a fé que atravessa o silêncio do túmulo e já ouve o som da pedra sendo rolada. A batalha terminou, e a vitória foi assegurada no coração do Sofredor antes mesmo de ser manifestada ao mundo.

ATO II: O Triunfo do Rei – O Alcance da Redenção (vv. 22-31)

Esta seção foca na explosão de louvor e nas consequências universais da obra redentora de Cristo.


1. O Louvor na Congregação (vv. 22-24)
Salmos 22:22-24 “A meus irmãos declararei o teu nome; no meio da congregação eu te louvarei. Louvem o SENHOR, vocês que o temem; glorifiquem-no, todos vocês, descendência de Jacó; temam-no, todos vocês, posteridade de Israel. Porque não desprezou nem detestou a dor do aflito, nem ocultou dele o seu rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro.”

Análise Histórica e Profética


Esta é a voz do Messias ressuscitado. O autor de Hebreus aplica diretamente o versículo 22 a Jesus, que declara o nome do Pai a “seus irmãos” — a Igreja (Hebreus 2:12). O versículo 24 é o veredito divino, a resposta eterna à zombaria dos homens. Enquanto os zombadores na cruz gritavam “Salve-o, pois nele tem prazer”, Deus responde do trono eterno: “Porque não desprezou nem detestou a dor do aflito… mas o ouviu”. A ressurreição é a prova pública e irrefutável de que o Pai não apenas ouviu, mas se agradou do sacrifício e vindicou o Filho.

Aplicação para Hoje


Nossa adoração coletiva na igreja é uma continuação do cântico de vitória de Cristo. Não cantamos para obter a vitória; cantamos porque a vitória já foi conquistada por Ele. Nosso louvor é a proclamação comunitária de que Deus ouviu o clamor do nosso Substituto.


2. O Banquete da Graça (vv. 25-26)
Salmos 22:25-26 “De ti vem o meu louvor na grande congregação; cumprirei os meus votos na presença dos que o temem. Os sofredores hão de comer e fartar-se; louvarão o SENHOR aqueles que o buscam. Que o coração de vocês viva para sempre!”

Análise Histórica e Profética


A imagem do cumprimento de votos e da refeição onde os “sofredores hão de comer e fartar-se” é uma alusão profética à Ceia do Senhor e, em última instância, ao grande Banquete Messiânico. O sacrifício de Cristo é a única provisão que pode satisfazer completamente a fome mais profunda da alma humana, oferecendo não apenas perdão, mas comunhão e vida eterna.

Aplicação para Hoje


A salvação em Cristo não é apenas o perdão dos pecados, mas a promessa de plena satisfação Nele. Ele convida todos, especialmente os humildes, os aflitos e os necessitados, para se sentarem à Sua mesa e encontrarem vida verdadeira e abundante.


3. A Conversão das Nações (vv. 27-29)
Salmos 22:27-29 “Os confins da terra se lembrarão do SENHOR e a ele se converterão; diante dele se prostrarão todas as famílias das nações. Pois do SENHOR é o reino, é ele quem governa as nações. Todos os ricos da terra hão de comer e adorar, e todos os que descem ao pó se prostrarão diante dele, até aquele que não pode preservar a própria vida.”

Análise Histórica e Profética


Aqui, o salmo revela o alcance missionário e global da cruz. O sacrifício do Messias não era apenas para Israel, mas para que “todos os confins da terra se lembrarão e a ele se converterão”. O versículo 29 amplia essa visão de forma radical: a adoração se estenderá a todos os espectros da condição humana. “Todos os ricos da terra” e “todos os que descem ao pó” — os poderosos e os moribundos, os prósperos e os desamparados — se prostrarão juntos. A cruz demoliu não apenas o muro entre judeus e gentios, mas todas as barreiras socioeconômicas, unindo a humanidade em adoração.

Aplicação para Hoje


A resposta natural à compreensão da cruz é a missão. Se a salvação de Cristo se destina a “todas as famílias das nações”, então a responsabilidade e o privilégio da Igreja é levar esta boa notícia até os confins da terra, sabendo que o evangelho tem poder para alcançar cada pessoa, em qualquer condição.


4. O Legado Eterno (vv. 30-31)
Salmos 22:30-31 “A posteridade o servirá, e se falará do Senhor à geração vindoura. Virão e anunciarão a justiça dele; ao povo que há de nascer, contarão que foi ele quem o fez.”

Análise Histórica e Profética


A história da redenção será contada de geração em geração. A última frase é o clímax de tudo: “foi ele quem o fez”. No hebraico original, a expressão (asah) carrega o sentido de “está feito” ou “ele consumou”. É o equivalente exato do clamor final de Cristo na cruz, “Está consumado!” (Tetelestai em grego), declarando que a obra da salvação estava completa, perfeita e eternamente eficaz.

Aplicação para Hoje


Nós somos a “geração vindoura” mencionada no salmo. Nossa tarefa é vivermos como testemunhas da Sua justiça e proclamarmos ao mundo a notícia mais gloriosa de todas: a obra da salvação está completa. Não há nada a acrescentar. Nossa vida é contar o que Ele fez.

Conclusão: Da Cruz à Coroa

O Salmo 22 nos conduz em uma jornada do grito de desolação no Gólgota ao cântico de adoração que ecoa por todo o mundo e por todas as gerações. Ele nos mostra a profundidade do amor de Deus, que entregou Seu Filho para suportar o abandono em nosso lugar, e a imensidão de Seu poder, que transformou a agonia da cruz na maior vitória da história.

Assim, o Deus que pareceu distante no clamor “por que me desamparaste?” é revelado como o Deus soberano e vitorioso na declaração final: “foi Ele quem o fez”. Entre esses dois polos, encontramos a totalidade da nossa salvação. Por causa do que Cristo fez, nosso lamento pode sempre se transformar em louvor, e a escuridão da sexta-feira da Paixão inevitavelmente dá lugar à gloriosa luz da manhã da Ressurreição.

Resumo Visual

Infográfico

Vídeo de Aprofundamento


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