Série: Antigo Testamento • Estudo Bíblico

Salmo 111: Obras Magníficas e Sabedoria Eterna

"O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam. O seu louvor permanece para sempre. Salmos 111.10"

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O Salmo 111 é uma das joias mais refinadas do Saltério, funcionando como um hino de louvor descritivo que celebra a perfeição das obras e dos decretos de Deus. Estruturado como um acróstico alfabético impecável — onde cada linha sucessiva inicia-se com uma letra do alfabeto hebraico, do alef ao tav —, este poema simboliza a completude do louvor: uma declaração de que a adoração ao Senhor abrange toda a realidade, de “A a Z”.

Teologicamente, o Salmo 111 forma um díptico indissociável com o Salmo 112. Enquanto o Salmo 111 foca nas obras e no caráter de Deus (ma’asei YHWH), o Salmo 112 descreve o caráter e as obras do homem que teme ao Senhor, revelando que a verdadeira sabedoria consiste em espelhar a glória divina na vida prática.

Situado historicamente no período pós-exílico (após 516 a.C.), o salmo é frequentemente associado à erudição dos “Homens da Grande Assembleia” (Keneset ha-Gedolah), que consolidaram a liturgia do Segundo Templo. Em uma época de reconstrução nacional sob domínio estrangeiro, o texto servia como uma anamnesis litúrgica — um ato de recordação intencional para fortalecer a identidade de um povo restaurado. Para o salmista, relembrar o que Deus fez não é apenas um exercício intelectual, mas a base para uma vida de felicidade e retidão espiritual.

1. O Compromisso Público do Louvor (Versículo 1)

Salmos 111:1
“Aleluia! De todo o coração louvarei o SENHOR, na companhia dos justos e na assembleia.”

O salmo abre com o imperativo “Aleluia” (Hallelu-Yah), que, tecnicamente, situa-se fora da estrutura acróstica. Ele funciona como o convite do regente, um chamado litúrgico que antecede o coro alfabético.

O compromisso do adorador é louvar “de todo o coração” (bekhol-levav), termo que, na antropologia bíblica, descreve a integração total do intelecto, da vontade e das afeições. Não há espaço para a adoração fragmentada ou para a hipocrisia religiosa que mantém a forma mas nega o poder da entrega interna.

O salmista especifica que este louvor ocorre em dois contextos: na “companhia dos justos” (sod) e na “assembleia” (edah). O termo sod refere-se a um conselho íntimo ou pequeno grupo de fiéis, enquanto edah designa a grande congregação pública.

Essa distinção é um corretivo vital contra o “misticismo privado” e o isolamento espiritual contemporâneo; a fé bíblica, embora íntima, jamais é individualista. Jesus Cristo é o cumprimento pleno deste verso, sendo aquele que, segundo Hebreus 2:12, declara o nome do Pai e canta louvores no meio da assembleia dos Seus irmãos. O cristão é chamado a uma adoração que rejeita a “fé de aplicativo” isolada, encontrando sua plenitude na comunhão orgânica do corpo de Cristo.

2. A Grandeza e o Estudo das Obras de Deus (Versículos 2 a 4)

Salmos 111:2-4
“Grandes são as obras do SENHOR, consideradas por todos os que se alegram por causa delas. Em suas obras há glória e majestade, e a sua justiça permanece para sempre. Ele fez memoráveis as suas maravilhas; bondoso e compassivo é o SENHOR.”

O versículo 2 apresenta um princípio fundamental para a ciência e a teologia: o uso do verbo darash (estudar, investigar). O particípio hebraico aqui possui uma força gerundiva: as obras de Deus não são apenas estudadas, elas são “dignas de serem investigadas” por sua profundidade intrínseca. Essa convicção é tão poderosa que a famosa inscrição de John Rayleigh no Laboratório Cavendish, em Cambridge, cita precisamente este verso (Sl 111:2), lembrando aos cientistas que a investigação das leis naturais é, em última análise, o estudo das mãos de Deus.

O salmista utiliza três termos distintos para as obras divinas: ma’aseh (obras criativas/gerais), pa’al (atos providenciais na história) e niflaot (maravilhas redentivas). Ao afirmar que Deus fez “memoráveis as suas maravilhas”, ele aponta para a instituição de memoriais, como a Páscoa, para combater a amnésia espiritual.

Cristo é o agente supremo de todas essas obras — na criação, na providência e na redenção. Ele é a manifestação máxima da graça e compaixão (ḥannun e raḥum), e a Ceia do Senhor é o nosso memorial definitivo, onde a obra de Deus na cruz é “estudada” e celebrada com deleite e temor.

3. Providência e Fidelidade à Aliança (Versículos 5 a 6)

Salmos 111:5-6
“Ele dá sustento aos que o temem; sempre se lembra da sua aliança. Manifestou ao seu povo o poder das suas obras, dando-lhe a herança das nações.”

No versículo 5, o termo para sustento é teref, que significa literalmente “presa” ou “carne” (como a de um leão). Embora incomum, o uso dessa palavra evoca a abundância da provisão divina no deserto, lembrando que o Senhor alimentou Seu povo com maná e codornizes. O ato de “lembrar” (zakhar) por parte de Deus não é uma recordação passiva, mas uma ação performativa: Ele se lembra da aliança agindo em favor do Seu povo conforme prometido.

A entrega da “herança das nações” (a conquista de Canaã) é celebrada como a prova empírica do poder de Deus. Para a comunidade pós-exílica, isso era um lembrete de que, apesar do domínio persa, a aliança abraâmica permanecia inquebrável.

Para o cristão, essa providência física aponta para Cristo, o Pão da Vida, que nos sustenta espiritualmente. Nossa segurança repousa na Nova Aliança, selada com o sangue do Cordeiro, garantindo que Deus nunca esquecerá Suas promessas de herança eterna para os que estão em Jesus.

4. A Imutabilidade dos Preceitos Divinos (Versículos 7 a 8)

Salmos 111:7-8
“As obras de suas mãos são verdade e justiça; fiéis são todos os seus preceitos. Estáveis são eles para todo o sempre, instituídos em fidelidade e retidão.”

Há uma harmonia indissolúvel entre o que Deus faz (ma’aseh) e o que Deus diz (piqudim). O salmista argumenta que os preceitos divinos não são decretos arbitrários, mas emanações do Seu caráter estável (ne’emanim). No contexto pós-exílico, onde as leis dos impérios mudavam conforme o capricho dos monarcas, a Torá oferecia uma âncora ética absoluta.

Esses preceitos são descritos como “estáveis” (semukhim), sugerindo algo que se mantém por um apoio contínuo e soberano. Jesus Cristo, ao vir “não para revogar, mas para cumprir a Lei”, demonstra que a vontade moral de Deus é o fundamento sólido para a existência humana. Em um mundo de valores fluidos e subjetivos, as instruções do Senhor permanecem como o guia seguro, pois são instituídas em verdade e retidão eterna.

5. O Clímax da Redenção e Santidade (Versículo 9)

Salmos 111:9
“Enviou ao seu povo a redenção; estabeleceu para sempre a sua aliança; santo e tremendo é o seu nome.”

Este versículo é o ápice teológico do salmo, estruturado em uma tríade fundamental: Redenção (pedut – o resgate mediante preço), Aliança (berit – o relacionamento formal) e Santidade (qadosh – o caráter divino). O salmista utiliza o verbo tsavah (ordenar, decretar), enfatizando a Soberania de Deus: a aliança não é um contrato negociado, mas um decreto soberano de um Deus que redime por Sua própria vontade e graça.

A redenção do Egito era apenas o protótipo da redenção plena em Cristo. Jesus é o mediador da “Aliança Eterna” (Hb 13:20) e o Cordeiro que pagou o preço final (pedut) para nos resgatar da escravidão do pecado.

A salvação, portanto, não compromete a santidade de Deus; antes, a revela. O Deus que nos ama com compaixão entranhável é o mesmo cujo Nome inspira um temor reverente e assombroso.

6. O Princípio da Sabedoria e o Louvor Eterno (Versículo 10)

Salmos 111:10
“O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam. O seu louvor permanece para sempre.”

O salmo encerra com uma máxima da literatura sapiencial. O termo re’shit (princípio) não significa apenas o ponto de partida cronológico, mas o fundamento ontológico e a base contínua de toda a vida.

O “temor do Senhor” não é um pavor servil, mas a reverência submissa de quem conhece a Deus através de Suas obras e palavras. A prática desses preceitos gera sekhel tov — um discernimento prudente que resulta em sucesso espiritual e moral.

Cristo é a “Sabedoria de Deus” encarnada (1 Co 1:30) e o “Temente Perfeito”. Segundo a profecia de Isaías 11:2-3, o Messias é aquele sobre quem repousa o Espírito do temor do Senhor, encontrando Seu prazer nessa reverência.

O Salmo 111 termina onde começou: no louvor (tehilah). Enquanto as obras dos homens se desvanecem, o louvor ao Senhor permanece para sempre. Como a primeira metade de um díptico, este salmo nos prepara para o Salmo 112: aquele que contempla as obras magníficas de Deus e O teme será, ele próprio, transformado em um reflexo da justiça e da bondade divina na terra.

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Referências Bibliográficas

Daniel L. Akin. Exalting Jesus in Psalms 1-50

Willem A. VanGemeren. Psalms – The Expositor’s Bible Commentary

Warren W. Wiersbe. Be Worshipful: Glorifying God for Who He Is (Psalms 1-89)

William MacDonald. Comentário Bíblico Popular – Antigo Testamento

SBB. Bíblia de Estudo – Nova Almeida Atualizada

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Infográfico

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