As cartas de Paulo · estudo introdutório
A carta da força que aparece na fraqueza
“A minha graça é o que basta para você, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.” 2 Coríntios 12.9 · o versículo-chave
Antes de tudo: por que esta carta existe
Entre 1 e 2 Coríntios aconteceu uma crise que as duas cartas só deixam entrever. A igreja que Paulo fundou passou a duvidar dele; ele foi afrontado em público na própria Corinto; escreveu uma carta de repreensão com lágrimas; e depois esperou, sem sossego, para saber como ela tinha sido recebida. 2 Coríntios nasce do alívio dessa espera — e das cicatrizes que ficaram.
Paulo fundara a igreja na segunda viagem, por volta de 50 a 52 d.C., numa estada de dezoito meses (At 18.1-18). Depois escreveu de Éfeso a carta que chamamos de 1 Coríntios, corrigindo divisões, imoralidade, desordem na Ceia e confusão sobre dons.
A situação piorou em vez de melhorar. Paulo foi pessoalmente a Corinto numa visita que ele mesmo chamaria depois de dolorosa (2.1) — e ali foi afrontado publicamente por alguém da própria igreja, sem que a congregação o defendesse.
De volta a Éfeso, escreveu a chamada carta severa, “no meio de muitos sofrimentos e angústia de coração, com muitas lágrimas” (2.4), e a enviou por Tito. O que foi a carta severa
Paulo foi para Trôade e encontrou ali “uma porta aberta” para pregar — e mesmo assim não conseguiu ficar: “não tive tranquilidade no meu espírito, porque não encontrei o meu irmão Tito” (2.13). Seguiu para a Macedônia, e lá Tito o alcançou com a notícia: a maioria da igreja se arrependera. É dessa alegria que esta carta sai.
A geografia aqui é a própria trama. Entre a carta anterior e esta, Paulo atravessou o Egeu três vezes, e foi a espera por Tito no meio desse trajeto que deu à carta a forma que ela tem.
Nesse intervalo chegaram a Corinto mestres itinerantes que Paulo chama, com ironia, de “superapóstolos”. Eles traziam cartas de recomendação, falavam bem, cobravam pelo ensino e apontavam para a aparência do apóstolo como prova de que ele não valia muito. O que estava em disputa era uma régua: o que autentica um servo de Deus?
A régua que eles traziam
Cartas de recomendação, linhagem hebraica, eloquência e presença imponente. Deles se dizia o que de Paulo não se podia dizer: “as cartas são graves e fortes, mas a presença pessoal dele é fraca e a sua palavra é desprezível” (10.10).
A régua que ele apresenta
“Vocês são a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos” (3.2). E, quando precisa listar títulos, lista açoites, naufrágios e privações — porque a marca do servo é a do Senhor dele.
Porque a mensagem vinha junto
Os adversários não traziam só outro estilo: traziam, nas palavras de Paulo, “outro Jesus”, “um espírito diferente” e “um evangelho diferente” (11.4). Derrubar o mensageiro era o caminho para trocar a mensagem — e a igreja, diz ele com tristeza, “tolera isso muito bem”.
E porque a noiva era de outro
Paulo descreve o próprio zelo em termos nupciais: “eu preparei vocês para apresentá-los como virgem pura a um só esposo, que é Cristo” (11.2). O que o move não é reputação; é o receio de entregar a noiva corrompida. O que ele teme de verdade
Por isso a carta começa por onde começa. Antes de defender um ministério, Paulo o emoldura no Deus que consola os aflitos — e passa treze capítulos mostrando que a fraqueza não desqualifica o servo: é onde o poder do Senhor aparece.
A carta inteira de um olhar
A carta anda em três movimentos, e cada um tem um tom próprio. No primeiro, Paulo explica que obra é esta que lhe foi confiada e por que ela é exercida em fraqueza. No segundo, chega ao centro: o que Deus fez em Cristo e o recado que confiou aos seus. No terceiro, pede uma oferta e, logo em seguida, enfrenta de peito aberto os que o acusavam — terminando no lugar mais improvável, que é a própria fraqueza dele.
O ministério · 1.1–4.18
De onde vem o consolo, e que obra é esta
A reconciliação · 5.1–7.16
O que Deus fez, e o recado que ele confiou
A graça e a defesa · 8.1–13.14
A oferta que se dá e a força que vem da fraqueza
Clique num tema para descer até ele. Os pontos dourados espalhados pela página abrem uma nota curta com o texto por trás.
Tema 1 · 2 Coríntios 1.1–2.17
No lugar da habitual ação de graças pelos destinatários, 2 Coríntios abre com uma bênção ao estilo das sinagogas: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação!” (1.3). A troca é deliberada. Antes de defender o seu ministério, Paulo o põe dentro da moldura do Deus que consola.
32 Coríntios 1.3
Quem Deus é
“Pai de misericórdias e Deus de toda consolação” não descreve o que ele faz de vez em quando. Descreve o que ele é.
42 Coríntios 1.4
O que ele faz conosco
“É ele que nos consola em toda a nossa tribulação.” Dentro dela, não necessariamente tirando dela. Qual é a palavra no grego
42 Coríntios 1.4
E para que faz
“Para que, pela consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que estiverem em qualquer espécie de tribulação.” O consolo é de passagem, não de posse.
102 Coríntios 1.10
Em três tempos
“O qual nos livrou e ainda livrará de tão grande morte. Nele temos esperado que ainda continuará a nos livrar.” A memória do livramento passado é o combustível da fé presente.
O circuito é esse: de Deus para o consolado, e do consolado para o próximo aflito. Na economia desta carta, nenhum sofrimento do crente é desperdiçado — cada cicatriz consolada vira credencial para chegar perto de alguém.
Diziam que ele prometera ir e não fora: leviandade, um homem de “sim, sim” e “não, não” ao mesmo tempo (1.17). A resposta de Paulo sai do terreno da agenda e vai para o terreno de quem Deus é.
202 Coríntios 1.20
“Porque todas as promessas de Deus têm nele o ‘sim’. Por isso, também por meio dele se diz o ‘amém’ para glória de Deus.” A palavra de Deus não oscila, e o mensageiro dele também não vive de ambiguidade.
212 Coríntios 1.21–22
Deus confirma, unge, põe o seu selo e dá o penhor do Espírito. A firmeza do crente não é desempenho dele. Qual é a palavra no grego
62 Coríntios 2.6
“Basta-lhe a punição imposta pela maioria.” A disciplina tem prazo e propósito; cumprido o propósito, insistir na pena já é outro pecado.
72 Coríntios 2.7–8
“Vocês devem perdoar e consolar, para que esse indivíduo não seja consumido por excessiva tristeza.” E mais: “confirmem o amor de vocês para com ele” — com gestos, em público.
112 Coríntios 2.11
“Para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não ignoramos quais são as intenções dele.” A recusa em perdoar é descrita como brecha aberta ao inimigo.
“Nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus” (2.17). O verbo é o do comerciante que batiza o vinho com água — e é a primeira farpa dirigida aos que cobravam pelo que receberam de graça.
Tema 2 · 2 Coríntios 3.1–18
“Estamos começando outra vez a recomendar a nós mesmos? Ou será que temos necessidade, como alguns, de entregar cartas de recomendação?” (3.1). A pergunta é irônica, e a resposta é o capítulo mais denso da carta: Paulo não precisa de pergaminho porque a sua carta de recomendação são eles, e porque o ministério que ele serve é de outra ordem.
22 Coríntios 3.2–3
“Vocês são a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos… escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações.”
52 Coríntios 3.5–6
“Não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa… pelo contrário, a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito vivifica.”
Paulo argumenta do menor para o maior, e sem rebaixar o que veio antes: a glória do Sinai era real — o rosto de Moisés brilhava a ponto de ninguém conseguir encará-lo. A diferença está no poder e na duração.
| Aspecto | A antiga aliança | A nova aliança |
|---|---|---|
| Escrita em | Pedra, com letras gravadas (v. 7) | Corações, pelo Espírito do Deus vivo (v. 3) |
| Ministério de | Morte e condenação (vv. 7,9) | Espírito e justiça (vv. 8,9) |
| O que pode fazer | Revelar e condenar o pecado — a letra mata | Regenerar e habitar — o Espírito vivifica (v. 6) |
| A glória | Real, porém “estava desaparecendo” (vv. 7,11) | Permanente, e “muito maior” (vv. 10,11) |
A diferença, note bem, não é entre uma aliança má e outra boa. É entre uma que mostrava o problema e outra que o resolve. Para onde foi o véu
Que liberdade é essa
Liberdade da condenação que a letra pronunciava e da cegueira que o véu impunha — não licença para pecar. É o mesmo Espírito que escreve a lei no coração em vez de gravá-la na pedra.
182 Coríntios 3.18
“E todos nós, com o rosto descoberto, contemplando a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, que é o Espírito.” O que mudou em relação a Moisés
A credencial de um ministério, portanto, não se imprime: se contempla. Quem olha para Cristo vai sendo parecido com ele, e é isso que se lê nas pessoas.
Tema 3 · 2 Coríntios 4.1–18
O capítulo 4 abre e fecha com a mesma frase — “não desanimamos” (vv. 1 e 16) —, e tudo o que está no meio explica por quê. Se o evangelho é tão glorioso, por que o mensageiro parece tão pouca coisa? Paulo responde que isso não é um defeito do arranjo: é o arranjo.
62 Coríntios 4.6
“Deus, que disse: ‘Das trevas resplandeça a luz’, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo.” De onde vem essa luz
72 Coríntios 4.7
“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja que a excelência do poder provém de Deus, não de nós.” Barro era o material do descartável: a panela comum, a lamparina de um tostão.
A fragilidade do mensageiro não compromete a mensagem: ela é a prova de que o poder é de outro. Era exatamente o argumento de que os adversários precisavam ser privados.
Versículo 8
Atribulados,
porém não angustiados
Versículo 8
Perplexos,
porém não desanimados
Versículo 9
Perseguidos,
porém não abandonados
Versículo 9
Derrubados,
porém não destruídos
Repare no que o texto faz: valida a pressão real e nega apenas o desfecho. O cristianismo de Paulo não tem o estoicismo da cidade, que extirpava as paixões; tem um homem que confessa ter perdido a esperança da própria vida e ainda assim não é destruído.
162 Coríntios 4.16
“Mesmo que o nosso ser exterior se desgaste, o nosso ser interior se renova dia a dia.” As duas coisas acontecem ao mesmo tempo, e só uma delas se vê.
172 Coríntios 4.17–18
“A nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um eterno peso de glória, acima de toda comparação” — e isso “na medida em que não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem”.
Leve e momentânea é um veredicto da fé, não da sensação. Quem escreve isso é o mesmo homem dos cinco açoites e dos três naufrágios; ele não está medindo a dor por baixo, está medindo a glória por cima.
Tema 4 · 2 Coríntios 5.1–10
Se o corpo se desgasta, o que acontece quando ele acabar? Paulo responde com duas construções: uma barraca que se desmonta e um edifício que já está pronto. E escolhe o verbo no presente — “temos da parte de Deus um edifício” —, porque a certeza não depende de o inquilino já ter mudado.
12 Coríntios 5.1
A tenda se desfaz
“A nossa casa terrestre deste tabernáculo.” O corpo mortal é provisório por projeto; a morte apenas desarma a barraca.
12 Coríntios 5.1
A casa já existe
“Temos da parte de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas, eterna, nos céus.”
42 Coríntios 5.2–4
E gememos por vesti-la
“Não por querermos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida.” O ideal grego, de cabeça para baixo
52 Coríntios 5.5
E há uma entrada paga
“Foi o próprio Deus quem nos preparou para isto, dando-nos o penhor do Espírito.” A mesma palavra de 1.22: a primeira parcela da herança.
72 Coríntios 5.6–7
“Enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor… porque andamos por fé e não pelo que vemos.” A distância é real, e é ela que torna a vida presente uma vida de fé.
82 Coríntios 5.8
“Preferimos deixar o corpo e habitar com o Senhor.” O que acontece nesse intervalo
Entre a tenda e a casa, portanto, há um exame. Não para decidir de quem a pessoa é — isso ficou decidido na cruz —, mas para pesar o que ela fez com o tempo que teve no corpo.
Tema 5 · 2 Coríntios 5.11–6.13
Aqui está o centro da carta, e talvez a página mais clara que Paulo escreveu sobre o que aconteceu na cruz. Tudo o que veio antes — o consolo, a nova aliança, o vaso de barro — existe por causa disto; e tudo o que vem depois é a vida de quem foi encarregado de anunciá-lo.
“Pois o amor de Cristo nos domina, porque reconhecemos isto: um morreu por todos; logo, todos morreram.” Qual é a palavra no grego
“Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” Não é reforma de conduta: é criação de espécie nova, do mesmo verbo com que Deus fez o mundo.
“Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo… Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos.” Quem toma a iniciativa é o ofendido. Qual é a palavra no grego
“Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.”
O versículo 21 tem duas metades, e nenhuma delas funciona sem a outra. O que saiu de nós foi para ele; o que é dele veio para nós. Não é só perdão — é troca de posição.
O que foi para ele
“Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós.” O único que não tinha nada a pagar ocupou o lugar de quem devia tudo.
O que veio para nós
“Para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” Não parecer justo: ser constituído justo, e nele — nunca por conta própria.
No capítulo 6 Paulo apresenta as suas credenciais — e elas não se parecem com nenhuma carta de recomendação. “Agora é o tempo sobremodo oportuno, agora é o dia da salvação” (6.2), e é nesse agora que ele trabalha.
42 Coríntios 6.4–5
O que ele suportou: “muita perseverança, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns”.
62 Coríntios 6.6–7
E o caráter com que suportou: “na pureza, no conhecimento, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido”. Resistir não basta; conta o modo.
82 Coríntios 6.8–10
Os paradoxos do Reino: “como desconhecidos, e sendo bem conhecidos… como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo”.
“O nosso coração está dilatado… ampliem também vocês o coração de vocês” (6.11-13). Depois de tudo o que passou, o que ele pede não é autoridade reconhecida. É afeto de volta.
Tema 6 · 2 Coríntios 6.14–7.16
Antes de voltar ao relato da espera por Tito, Paulo faz um desvio aparentemente abrupto: um chamado à separação. Mas o desvio é o mesmo assunto por outro lado — uma igreja que flerta com o culto da cidade não consegue mesmo receber de volta o apóstolo que a chama ao Deus vivo.
142 Coríntios 6.14
A figura vem da lavoura: Deuteronômio 22.10 proibia arar com boi e jumento atrelados juntos. Não é o contato social com descrentes que está em vista, e sim a aliança que compromete a lealdade.
142 Coríntios 6.14–16
Cada uma sobe um degrau, da ética ao culto:
justiça · iniquidadeluz · trevasCristo · o Malignocrente · descrentesantuário · ídolos
162 Coríntios 6.16
“Porque nós somos santuário do Deus vivo.” A identidade vem antes do dever: a igreja é o lugar da presença, e por isso não se mistura com o que nega essa presença. Indicativo antes do imperativo
Feito o desvio, Paulo retoma de onde havia parado em 2.13 e conta o fim da espera: “quando chegamos à Macedônia, não tivemos nenhum alívio. Pelo contrário, em tudo fomos atribulados: lutas por fora, temores por dentro. Porém Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a chegada de Tito” (7.5-6). A consolação do capítulo 1 chega por um meio bem comum: um amigo que aparece com notícias.
A carta severa doeu, e Paulo admite que chegou a se arrepender de tê-la enviado (7.8). O que o reconcilia com a própria dureza é o efeito que ela teve — e aqui ele distingue duas dores que, de fora, se parecem.
| Aspecto | A tristeza do mundo | A tristeza segundo Deus |
|---|---|---|
| Para onde olha | Para si mesmo: o vexame, a perda, a consequência | Para Deus, a quem se ofendeu |
| O que produz | Morte (v. 10) | “Arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar” (v. 10) |
| Como termina | Remorso que se repete e não muda nada | Mudança de direção, que não se lamenta depois |
| Como se prova | Pela intensidade do sentimento | Por sete frutos verificáveis (v. 11) |
A diferença não está na intensidade da dor, e sim na direção dela. Qual é a palavra no grego
A correção, quando é amor, não termina em distância.
Tema 7 · 2 Coríntios 8.1–9.15
Dois capítulos inteiros sobre dinheiro, e a palavra que os emoldura do começo ao fim é graça. Paulo está recolhendo uma oferta das igrejas gentílicas para os cristãos pobres de Jerusalém, e não usa uma única vez o argumento da obrigação. Usa um exemplo, uma pessoa e um motivo.
O exemplo vem das igrejas da Macedônia, que não tinham do que dar. E é aí que a conta deixa de fechar pela aritmética comum.
2 Coríntios 8.1-2 — e eles ainda pediram, “com insistência, a graça de participarem dessa assistência aos santos” (8.4).
52 Coríntios 8.5
“Não somente fizeram como nós esperávamos, mas, pela vontade de Deus, deram a si mesmos, primeiro ao Senhor, depois a nós.” A oferta foi consequência de uma entrega que já havia acontecido antes.
82 Coríntios 8.8
“Não digo isto na forma de mandamento, mas para provar se o amor de vocês é sincero.” Ele recusa deliberadamente a ordem — porque oferta arrancada por pressão perde justamente o que a torna cristã.
112 Coríntios 8.11–12
“Terminem, agora, a obra começada.” E a medida é a real: “a oferta será aceita conforme o que a pessoa tem e não segundo o que ela não tem”. Isso livra o pobre da vergonha e desmascara a falsa generosidade do rico.
132 Coríntios 8.13–15
O alvo não é empobrecer uns para enriquecer outros, “mas para que haja igualdade” — e a prova é o maná: “quem recolheu muito não teve demais, e quem recolheu pouco não teve falta”.
212 Coríntios 8.20–21
A oferta viaja com delegados aprovados pelas igrejas, para que ninguém possa suspeitar: “pois zelamos pelo que é honesto, não só diante do Senhor, mas também diante dos homens”. Ser honesto não basta; é preciso ser demonstravelmente honesto.
62 Coríntios 9.6
Quem semeia pouco
“Também colherá pouco; e o que semeia com fartura também colherá com fartura.” É princípio orgânico, não fórmula de enriquecimento.
72 Coríntios 9.7
Com alegria, não por pressão
“Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama quem dá com alegria.” Qual é a palavra no grego
102 Coríntios 9.8,10
E Deus fornece a semente
“Deus, que dá semente ao que semeia e pão para alimento, também suprirá e aumentará as sementes.” A provisão vem com um propósito: haver o que semear.
122 Coríntios 9.12
A colheita é gratidão
“Não só supre a necessidade dos santos, mas também transborda em muitas orações de gratidão a Deus.” O dinheiro, atravessando o Mediterrâneo, volta como louvor.
“Graças a Deus pelo seu dom indescritível!” (9.15). A palavra aparece uma única vez em todo o Novo Testamento, e está no fim do capítulo sobre a oferta: tudo o que se pediu ali é resposta a um dom que não cabe em palavra nenhuma.
Tema 8 · 2 Coríntios 10.1–11.33
A partir do capítulo 10 o tom muda tanto que já se sugeriu tratar-se de outra carta. Não é: é o mesmo homem, voltando-se agora da maioria reconciliada para a minoria que ainda o ataca. E começa, significativamente, apelando “pela mansidão e bondade de Cristo” (10.1) — a firmeza que vem a seguir nasce dali, não do temperamento.
4O que não usamos
Retórica que encanta, manipulação, imagem, intimidação. Era o arsenal dos adversários, e era o que Corinto sabia avaliar. “Embora andemos na carne, não lutamos segundo a carne” (10.3).
42 Coríntios 10.4–5
“Para destruir fortalezas. Destruímos raciocínios falaciosos e toda arrogância que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento à obediência de Cristo.” Que fortalezas são essas
122 Coríntios 10.12
Dos adversários ele diz que, “medindo-se consigo mesmos e comparando-se consigo mesmos, revelam falta de entendimento”. Quem escolhe a própria régua sempre passa no teste.
172 Coríntios 10.17–18
“Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é aprovado quem recomenda a si mesmo, e sim aquele que o Senhor recomenda.” A mesma citação de Jeremias 9.24 com que ele fechou a primeira carta.
42 Coríntios 11.4
“Diferente daquele que nós pregamos.” O nome permanece; o conteúdo é esvaziado.
42 Coríntios 11.4
“Daquele que já receberam.” Outra fonte, outro poder.
42 Coríntios 11.4
“Do que já aceitaram.” E a igreja, diz Paulo, “tolera isso muito bem”.
Forçado a comparar currículos, Paulo entra no jogo avisando que está falando “como por loucura” (11.17). E lista — mas lista o avesso do que um currículo traz.
cinco vezes quarenta açoites menos umtrês vezes açoitado com varasuma vez apedrejadotrês naufrágiosuma noite e um dia em alto-marperigos de riosperigos de assaltantesperigos entre falsos irmãosfome e sedefrio e nudez
E, depois da lista externa, o peso que ele considera maior: “ainda pesa sobre mim diariamente a preocupação com todas as igrejas. Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça?” (11.28-29). É a marca do pastor, não do orador.
A seção termina no episódio mais humilhante da carreira dele: descido por uma janela, dentro de um cesto, fugindo de Damasco (11.32-33). O apóstolo transforma em troféu aquilo que qualquer currículo omitiria — “se tenho de me gloriar, vou me gloriar no que diz respeito à minha fraqueza” (11.30).
Tema 9 · 2 Coríntios 12.1–13.14
Obrigado a falar de revelações, Paulo conta a maior delas — e a conta em terceira pessoa, como quem se envergonha: “conheço um homem em Cristo que, há catorze anos, foi arrebatado até o terceiro céu” (12.2). Catorze anos calado sobre aquilo. Em seguida, explica por que não pôde ficar com o prestígio da experiência.
72 Coríntios 12.7
O espinho
“E, para que eu não ficasse orgulhoso com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear.” Como ele descreve isso
82 Coríntios 12.8
Três pedidos
“Três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim.” Não foi resignação de primeira hora: ele insistiu.
92 Coríntios 12.9
E a resposta
“A minha graça é o que basta para você, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.” O espinho ficou; o que veio foi graça para carregá-lo. Qual é a palavra no grego
102 Coríntios 12.10
O paradoxo
“Sinto prazer nas fraquezas, nos insultos, nas privações, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então é que sou forte.”
Não é a ausência de fraqueza que faz a força cristã: é a presença de Cristo dentro dela. É o avesso exato da autossuficiência que Corinto admirava — e é a última resposta de Paulo à pergunta sobre o que autentica um servo de Deus.
142 Coríntios 12.14–15
E acrescenta a imagem do pai que junta para os filhos, não o contrário: “de muito boa vontade gastarei e me deixarei gastar pelas almas de vocês”. Qual é a palavra no grego
192 Coríntios 12.19
“Diante de Deus, em Cristo, falamos; e tudo isto, amados, para edificação de vocês.” A audiência última do servo não é o tribunal da opinião — e é isso que o deixa livre para dizer o que precisa ser dito.
52 Coríntios 13.5
“Examinem-se para ver se realmente estão na fé; provem a si mesmos. Ou não reconhecem que Jesus Cristo está em vocês?” Depois de treze capítulos sendo examinado, ele devolve o exame.
82 Coríntios 13.8,10
“Nada podemos contra a verdade, senão a favor da verdade.” E a autoridade que o Senhor lhe deu é “para edificação e não para destruição” — nunca para aniquilar alguém.
92 Coríntios 13.9,11
A oração dele é que sejam “aperfeiçoados” — o verbo de remendar rede e recolocar osso no lugar. Restaurar é o que ele quer, do começo ao fim.
“A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês.” 2 Coríntios 13.13 · a carta mais dura de Paulo termina em bênção