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Efésios tem duas metades. Os três primeiros capítulos descrevem o que Deus fez por nós em Cristo e têm uma única ordem, “lembrem-se”. Os três últimos descrevem como vive quem recebeu tudo aquilo, e trazem cerca de quarenta ordens. A dobradiça entre as duas metades é o “por isso” que abre o capítulo 4, e ele recolhe a carta inteira até aqui.
A ordem importa: primeiro Deus age, depois pede. Como disse J. Vernon McGee, as religiões dizem a um mundo que morre “faça alguma coisa e você será alguém”; Deus diz o contrário, “seja alguém, e então você poderá fazer alguma coisa”.
E a primeira coisa que Paulo pede não é uma lista de deveres individuais. É que a igreja guarde a unidade e cresça. Os capítulos 2 e 3 mostraram que Deus fez de judeus e gentios um só corpo; agora esse corpo precisa viver como o que é. O trecho caminha em cinco passos: o andar que preserva a unidade, as sete realidades que a sustentam, a graça que o Cristo vitorioso deu a cada um, as pessoas que ele deu para treinar os santos e o alvo de tudo, a maturidade. Este é o fio que vamos seguir: porque Cristo já nos fez um só corpo, guardamos essa unidade com humildade e amor; e o mesmo Cristo que subiu acima de todos os céus deu à igreja o que ela precisa para que cada membro sirva e o corpo inteiro cresça até a estatura dele.
1. Um andar digno, que guarda a unidade (Versículos 1 a 3)
Efésios 4:1-3
“Por isso eu, o prisioneiro no Senhor, peço que vocês vivam de maneira digna da vocação a que foram chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando uns aos outros em amor, fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz.”
Contexto Histórico e Cultural
Paulo não ordena; pede, com a palavra do apelo, a mesma de Romanos 12. E pede como “prisioneiro no Senhor”: preso por Roma, mas pertencendo a Cristo. “De maneira digna” traz a ideia de uma balança em equilíbrio: a vida deve corresponder ao peso do chamado, à posição que recebemos em Cristo. Quatro atitudes descrevem esse andar.
A humildade, que os gregos desprezavam como coisa de escravo e o evangelho transformou em virtude, é avaliar-se com exatidão: criatura, pecador salvo pela graça, membro de um corpo. A mansidão não é fraqueza; como escreveu Warren Wiersbe, é poder sob controle, e os exemplos são Moisés, que conduziu um povo por quarenta anos, e Jesus, que podia chamar doze legiões de anjos. A longanimidade é, literalmente, “ânimo longo”, o contrário do pavio curto. E “suportar” é aguentar o outro, não só nas faltas, mas nas diferenças, que em Éfeso eram as de judeus e gentios na mesma mesa.
Tudo isso serve ao versículo 3, que tem a chave do trecho num verbo: “preservar”. Guarda-se o que já existe. Paulo não manda criar a unidade; o Espírito a criou quando nos pôs no mesmo corpo. E o homem acorrentado escolhe a palavra “vínculo”, da mesma raiz de “prisioneiro”: quer os irmãos amarrados uns aos outros pela paz que Cristo fez na cruz.
Aplicação Para Hoje
Se a unidade já foi dada, ela não se fabrica com programas nem se compra com concessões. Guarda-se, e de dois modos. O primeiro é recusar as divisões por preferência, temperamento, classe ou geração; diante de um desacordo, a pergunta é “isto divide por causa da fé ou por causa de mim?”. O segundo é recusar a unidade às custas da verdade, porque a unidade de Efésios é a dos que creem no mesmo Senhor, e não um acordo que junta tudo. Nos dois casos, o caminho são as quatro atitudes do versículo 2, e elas têm um lugar onde são testadas toda semana: a mesa do Senhor, em que nos sentamos com quem nos irrita, oramos com ele e servimos ao lado dele.
Nada disso se produz por esforço. O padrão, “como eu os amei”, está acima da nossa natureza, e só o Espírito o produz em quem anda com ele. Andamos assim por gratidão, e não para conquistar a bênção de Deus. E o que sustenta essa unidade não são as nossas afinidades, como Paulo mostra em seguida.
2. Sete realidades que todos temos em comum (Versículos 4 a 6)
Efésios 4:4-6
“Há somente um corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.”
Contexto Histórico e Cultural
São sete coisas que são “uma só”, agrupadas em torno das três Pessoas: o versículo 4 gira em torno do Espírito, o 5 em torno do Filho, o 6 em torno do Pai. O corpo é a igreja, algo que o Antigo Testamento não conheceu: não gentios que viraram judeus, mas uma nova realidade. A esperança é a certeza do futuro já garantido. “Um só Senhor” tinha custo em Éfeso, onde Ártemis era chamada de senhora do céu e da terra e o imperador exigia o mesmo título; e a palavra é a que a Bíblia grega usa para o nome de Deus. “Uma só fé” é a fé que todo crente põe em Cristo, o ato de crer, igual no recém-convertido e no mais antigo.
“Um só batismo” é aquele pelo qual Cristo, por meio do Espírito, nos coloca no corpo; o batismo nas águas, que praticamos depois da profissão de fé, retrata essa realidade invisível. E “um só Deus e Pai de todos” é o Pai de todos os que creem, que está sobre eles, age por meio deles e mora neles. A lista não pretende dizer tudo o que cremos. Diz o que todo crente tem só por ser crente, e é nisso que a unidade se apoia.
Aplicação Para Hoje
Repare no que não está na lista: estilo de culto, gosto musical, origem, formação, opinião sobre assuntos secundários. A unidade da igreja não depende de sermos parecidos; depende de termos o mesmo Senhor. Cada uma dessas sete realidades é maior do que qualquer diferença entre dois irmãos, e lembrar isso muda o modo de olhar para o irmão de quem discordamos: ele tem o mesmo Espírito, a mesma esperança, o mesmo Pai. E a lista protege a igreja de outro erro, o de apoiar a unidade numa pessoa ou numa estrutura.
O que nos une não é um líder; é Cristo. Por isso o corpo invisível precisa se tornar visível numa assembleia de verdade, com gente de verdade, e quem diz pertencer à igreja de Cristo, mas não se compromete com irmãos concretos, ainda não entendeu o versículo 4. Até aqui, o que todos têm em comum. Agora, o que cada um recebeu.
3. A graça dada a cada um pelo Cristo que subiu (Versículos 7 a 10)
Efésios 4:7-10
“E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo. Por isso diz: “Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens.” Ora, o que quer dizer “ele subiu”, senão que também havia descido até as regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas.”
Contexto Histórico e Cultural
“A cada um de nós” vem em posição de destaque. A graça aqui não é a que salva, mas o dom, a capacidade que Cristo dá a cada crente para servir, e a medida é dele: não há lugar para inveja nem para orgulho. Paulo apoia isso no Salmo 68, que celebra a marcha vitoriosa de Deus do Sinai até Sião. A imagem é a do general que volta da batalha e reparte presentes com os seus. O salmo não é uma profecia; é um retrato que o Espírito fez apontar para a ascensão de Cristo, e o mesmo Espírito que inspirou Davi inspirou Paulo a aplicá-lo: no salmo Deus recebe as ofertas do seu povo; em Efésios, o Cristo vitorioso dá.
E quem são os cativos? São os redimidos. Éramos escravos do pecado, fomos comprados por preço, e agora pertencemos ao vencedor, que nos conduz no seu cortejo. Depois Paulo explica uma palavra: se subiu, é porque antes desceu “às regiões inferiores da terra”, isto é, à terra.
É a encarnação, que inclui a cruz; o texto não fala de uma descida ao mundo dos mortos. Aquele que desceu é o Criador, e o mesmo que subiu “acima de todos os céus”. A novidade não é o Filho estar acima dos anjos, porque como Deus sempre esteve. É um homem, em corpo ressuscitado, estar ali, com autoridade sobre tudo.
Aplicação Para Hoje
Três coisas mudam quando entendemos de onde vêm os dons. A primeira é que ninguém na igreja é espectador. Todo crente recebeu alguma capacidade para servir, e quem acha que não tem nada a oferecer discorda do versículo 7. A segunda é que o dom não é motivo de vaidade nem de comparação: é despojo de uma vitória que outro ganhou, entregue na medida que ele escolheu. A terceira é que servimos a partir de uma vitória, não em busca dela.
A batalha decisiva foi vencida na cruz e completada na ascensão, e há hoje um homem à direita do Pai, o nosso Sumo Sacerdote, que intercede por nós. Para os efésios, que tinham vivido com medo dos poderes do céu e da terra, isso era descanso. Para nós também. E esse Cristo não deu só capacidades a cada um. Deu pessoas à igreja.
4. Pessoas dadas para treinar os santos (Versículos 11 a 12)
Efésios 4:11-12
“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,”
Contexto Histórico e Cultural
“Ele mesmo” é enfático: o doador é o Cristo que subiu, e o que ele dá aqui são pessoas. O grego marca quatro grupos. Apóstolos e profetas são o fundamento da igreja, como o capítulo 2 disse, e um fundamento se lança uma vez; o que eles receberam está escrito no Novo Testamento. Evangelistas e pastores e mestres continuam. “Pastores e mestres” vêm juntos, sob um só artigo, porque pastorear é inseparável de ensinar: quem cuida do rebanho o alimenta com a Palavra.
Nas igrejas do Novo Testamento esse cuidado era exercido por presbíteros, no plural, homens aptos para ensinar. E para que Cristo deu essas pessoas? O versículo 12 responde com três expressões que não são paralelas; formam uma escada. Eles existem para o “aperfeiçoamento dos santos”, e a palavra é katartismos, usada para consertar redes e para pôr um osso no lugar: preparar, treinar.
Os santos, treinados, fazem “o serviço”. E o resultado é o corpo edificado. Uma vírgula posta no lugar errado, em traduções antigas, fez parecer que as três tarefas eram dos que ensinam, e o povo assistia. O texto diz o contrário, e Harold Hoehner tira a consequência: isso elimina a distinção entre clero e leigos, que tem pouco ou nenhum apoio no Novo Testamento.
Aplicação Para Hoje
Isso muda a pergunta que se faz sobre uma igreja. Não é “quantas mensagens foram pregadas?”, mas “quantos irmãos foram preparados para ensinar, evangelizar, visitar e aconselhar?”. Quem ensina é treinador, e o time é a igreja. O próprio evangelista, por essa escada, existe menos para evangelizar sozinho do que para preparar os irmãos a falar de Cristo.
E isso muda também a pergunta que cada crente faz a si mesmo: estou sendo treinado, estou servindo, ou apenas assisto? Ser treinado exige regularidade, e ninguém aprende uma habilidade com uma hora por semana. O dom de cada um aparece nesse caminho. Não se descobre por questionário; descobre-se servindo onde há necessidade e sendo reconhecido pelos irmãos: a visita ao doente, a classe das crianças, a recepção de quem chega.
As ovelhas são de Cristo, e foi ele quem disse “edificarei a minha igreja”. Aos que ensinam cabe alimentar; a todos cabe servir. E tudo isso tem um ponto de chegada.
5. O alvo: maturidade, e não mais crianças (Versículos 13 a 14)
Efésios 4:13-14
“até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como crianças, arrastados pelas ondas e levados de um lado para outro por qualquer vento de doutrina, pela artimanha das pessoas, pela astúcia com que induzem ao erro.”
Contexto Histórico e Cultural
“Até que cheguemos” usa o verbo do viajante que alcança o destino. Muitos acham que o alvo da vida cristã é ser salvo; o versículo 13 diz que é a maturidade. A palavra “unidade” só aparece duas vezes no Novo Testamento, as duas neste trecho: no versículo 3 ela é dada e se guarda; aqui ela é alcançada, pelo crescimento. É a unidade “da fé”, agora o conteúdo que cremos, e “do pleno conhecimento do Filho de Deus”, conhecimento que reconhece e se relaciona, e não só informação. O alvo é “pessoa madura”, no singular: é o corpo inteiro que amadurece, e a régua é “a estatura da plenitude de Cristo”, o caráter dele.
O contrário são as “crianças”, no plural, e Paulo as descreve com duas imagens do mar: o barco jogado pelas ondas e levado por ventos que mudam de direção. Quem sopra os ventos não é inocente. “Artimanha” é kybeia, o jogo de dados, e a ideia é a do dado viciado, com o qual quem joga contra o trapaceiro nunca ganha. E “induzem ao erro” traduz uma palavra que só volta no capítulo 6, nas “ciladas do diabo”: há método por trás do engano. Os presbíteros de Éfeso já tinham ouvido de Paulo que viriam lobos, e que alguns sairiam do meio deles.
Aplicação Para Hoje
O plano de Deus para a nossa vida é que fiquemos parecidos com Cristo, e vale perguntar se esse é também o nosso plano. A maturidade não vem com o tempo de igreja; há quem tenha vinte anos de fé e reaja como quem tem dois. Ela vem do conhecimento do Filho de Deus, e por isso a imaturidade deixa o crente à mercê de qualquer ensino que chegue pelo celular com boa edição e trilha sonora. A defesa não é desconfiar de tudo; é conhecer bem as Escrituras e ter com quem conferir. Diante de um ensino novo, três perguntas ajudam: o que ele diz de Cristo, da graça e da Bíblia?
Quem o sustenta, e com que frutos? E o que dizem os irmãos mais experientes da igreja? Quem conhece a nota verdadeira reconhece a falsa. Cristo é a medida, e ele mesmo deu à igreja os meios para chegarmos lá. Falta dizer como se cresce.
6. A verdade em amor, e cada parte fazendo a sua (Versículos 15 a 16)
Efésios 4:15-16
“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio crescimento para a edificação de si mesmo em amor.”
Contexto Histórico e Cultural
“Seguindo a verdade” é mais do que falar a verdade; é ser verdadeiro, na fala e na conduta. E é “em amor”, porque a lealdade à verdade que resulta em falta de amor falha tanto quanto o amor que é indiferente à verdade. “Cresçamos” está no modo do que pode acontecer, não do que acontece sozinho: o crescimento não é automático. E cresce-se “naquele que é a cabeça”, que aqui significa autoridade: Cristo governa o corpo, e é dele, “de quem”, que vem o crescimento. O versículo 16 descreve como.
“Bem-ajustado” é palavra de construção, a mesma do santuário do capítulo 2, e está na voz passiva: é Deus quem ajusta as pedras. “Pelo auxílio de todas as juntas” fala de todo ponto de contato, toda ligação entre um membro e outro; não são alguns membros especiais que sustentam o corpo, é cada crente ligado ao irmão. E “a justa cooperação de cada parte” é, literalmente, cada parte agindo “na sua medida”, a mesma palavra dos versículos 7 e 13: nem mais, nem menos do que recebeu. O trecho, que começou com “suportando uns aos outros em amor”, termina com a edificação “em amor”. O amor é a moldura.
Aplicação Para Hoje
O versículo 15 diz que o crescimento não é automático, e o 16 diz que ele é do corpo inteiro. As duas coisas têm consequência prática. Se não é automático, depende de alimento, e uma reunião por semana não compete com as outras horas da semana. Como diz o Dr. Robert Dean, se comêssemos fisicamente o quanto comemos espiritualmente, alguns de nós estariam mortos.
Daí a necessidade de um horário diário para a leitura das Escrituras, com os estudos da igreja como parte da dieta, e não como substituto dela. E, se o crescimento é do corpo, ninguém amadurece sozinho, nem pela tela. O membro que falta deforma o corpo, e quem escolhe uma igreja só pelo que recebe ainda age como criança. Crescer junto pede a verdade em amor entre nós, que exclui dois vícios: a verdade dita para ferir e o amor que cala para não incomodar. É como numa orquestra, em que todos afinam os instrumentos pela mesma nota: quando cada vida está afinada por Cristo, estamos afinados uns com os outros.
Voltamos, assim, ao começo. Cristo nos fez um só corpo, deu a cada um a sua medida, deu quem nos treine, e é dele que o corpo recebe o crescimento. A unidade que hoje guardamos com esforço será um dia perfeita, quando a igreja for apresentada a ele. Até lá, cada um faz a sua parte, em amor.
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Referências Bibliográficas
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• HOEHNER, Harold W. Ephesians: An Exegetical Commentary. Baker, 2002.
• HOEHNER, Harold W. “Ephesians”. In: Cornerstone Biblical Commentary, vol. 16. Tyndale, 2008.
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• OSBORNE, Grant R. Ephesians: Verse by Verse. Lexham, 2017.
• TALBERT, Charles H. Ephesians and Colossians. Paideia. Baker, 2007.
As páginas de Hoehner (2002) e de Arnold foram reconstruídas a partir de citações cruzadas de outros comentaristas, porque os arquivos usados não trazem numeração impressa; podem variar em uma ou duas páginas. Citações de Adam Clarke e F. F. Bruce vêm por meio de Guzik e de Hoehner, como indicado no texto.
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