Série: Novo Testamento • Estudo Bíblico

Tito 3.1-11: Lavados pelo Espírito, prontos para o bem

"Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por todos, ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia. Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo. Tito 3:4-5"

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Vídeo resumo

Creta tinha fama de ilha rebelde. Políbio, historiador grego do segundo século antes de Cristo, descreveu os cretenses como gente traiçoeira na vida pessoal e injusta nos governos, e o próprio poeta da ilha os chamou de “feras terríveis” (1.12). Foi a esse povo que Paulo mandou dizer, por meio de Tito, que os crentes deviam sujeitar-se aos governantes e tratar todas as pessoas com mansidão. O capítulo 2 olhou para dentro da casa; o capítulo 3 olha para fora, para o governo e para os vizinhos que não creem. E, como fez no capítulo anterior, Paulo primeiro diz o que a igreja deve fazer e depois diz por quê.

Nestes onze versículos, Paulo mostra que o crente trata os de fora com mansidão porque se lembra de que era igual a eles, e porque Deus o salvou não por obras, mas pela sua misericórdia, lavando-o e renovando-o pelo Espírito Santo. Quem foi lavado assim se sujeita às autoridades, se dedica às boas obras e evita o que só serve para dividir. A aspereza com os de fora nasce do esquecimento de onde Deus nos tirou; a mansidão nasce da memória. É essa memória, e a salvação que ela recorda, que sustenta tudo o que o trecho pede.

1. Sujeitos às autoridades e mansos para com todos (Versículos 1 a 2)

Tito 3:1-2
“Lembre a todos que se sujeitem aos governantes e às autoridades, que sejam obedientes e estejam prontos para toda boa obra. Que não difamem ninguém. Que sejam pacíficos, cordiais, dando provas de toda cortesia para com todos.”

Contexto Histórico e Cultural

O verbo é “lembre”, não “ordene”. Os cretenses já tinham recebido esse ensino, que era comum a toda a igreja apostólica: Paulo o escrevera aos romanos (Rm 13.1-7), e Pedro o escreveria às igrejas da Ásia Menor (1Pe 2.13-17). “Governantes” e “autoridades” aqui são os poderes humanos, do imperador distante ao magistrado da cidade; o plural alcança toda a cadeia de comando. “Sujeitem-se” é o mesmo verbo pedido às esposas e aos escravos no capítulo anterior (2.5, 9), e indica disposição voluntária: todo cidadão já está legalmente sujeito ao Estado, mas Paulo pede a vontade de sujeitar-se. Por trás da ordem está a doutrina de que o governo é instituição de Deus para conter o mal (Rm 13.1-4), e por isso o crente deve honrá-lo por causa do Senhor, não porque goste de quem governa.

Paulo não põe ressalva aqui, mas o restante da Escritura mostra onde ela está. Quando a autoridade manda fazer o que Deus proíbe ou deixar de fazer o que Deus manda, vale a palavra de Pedro e João: “É mais importante obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29). Daniel, as parteiras do Egito e os apóstolos desobedeceram a ordens específicas, e mesmo então não se rebelaram: desobedeceram naquele ponto, sem violência, com respeito, e aceitaram as consequências. É preciso dizer o que o versículo não ensina.

Ele não ensina obediência cega a qualquer ordem, nem dá base a partido político algum. E não ensina o contrário: discordar de uma lei ou não gostar de um governante não é razão bíblica para desobedecer. A sujeição é a regra; a exceção é só a ordem de pecar. “Prontos para toda boa obra” vai além do dever cívico: o cristão não só não deve perturbar a ordem, mas deve estar à disposição para o bem da cidade.

O v. 2 alarga o círculo para “todos”, e o versículo seguinte mostra que Paulo pensa sobretudo nos de fora. “Não difamem ninguém” usa o verbo de que vem “blasfemar”, aqui aplicado a pessoas: falar mal, injuriar. Isso não é calar diante do erro, porque o próprio Paulo acabou de descrever os falsos mestres sem rodeios (1.10-16); é refrear a inclinação natural de dizer o pior de alguém porque ele é de fora, é adversário ou ocupa um cargo. “Cordiais” traduz epieikēs, quem não insiste na letra do próprio direito e cede onde não há questão moral em jogo. E “toda cortesia” é praytēs, a mansidão, que não é fraqueza nem falta de convicção, mas força sob controle.

Aplicação Para Hoje

Para o crente, o versículo se aplica primeiro à língua. Como ele fala do prefeito, do governador e do presidente, na mesa de domingo, no grupo da família e nas redes sociais? O apelido depreciativo, a postagem que ridiculariza e o boato repassado sobre quem governa são “difamação” no sentido do v. 2. O crente pode discordar com clareza, votar diferente e recorrer aos meios legais; não pode caluniar, e deve orar por eles (1Tm 2.1-2).

E a mansidão não é só para com quem governa: é para o vizinho que não crê, o colega que pensa diferente, o parente que zomba da fé. Daniel, numa corte pagã, recebeu uma ordem que violava a Lei e não protestou nem desafiou o rei; procurou o oficial em particular e propôs um teste, e Deus lhe deu favor (Dn 1.8-16). Firmeza de convicção, pedido respeitoso, nenhuma palavra contra a autoridade: é o versículo em ação.

Na igreja local, os presbíteros devem dar o exemplo, porque “pacífico” e “cordial” já estavam na lista deles (1Tm 3.3), e a igreja inteira deve segui-los: nenhuma bandeira política no púlpito, nenhum desprezo por quem pensa diferente. A mansidão para com todos é o testemunho que os de fora leem antes de ouvir o evangelho. E ela tem um rosto: é a mansidão de Cristo, que se submeteu a autoridades injustas e, injuriado, não revidava (1Pe 2.23). Mas por que ser manso justamente com quem vive mal? O versículo seguinte responde.

2. Nós também éramos assim antes de Deus nos salvar (Versículo 3)

Tito 3:3
“Pois nós também, no passado, éramos insensatos, desobedientes, desgarrados, escravos de todo tipo de paixões e prazeres, vivendo em maldade e inveja, sendo odiados e odiando-nos uns aos outros.”

Contexto Histórico e Cultural

O “Pois” dá a razão dos dois versículos anteriores. Por que ser manso com os de fora, mesmo com os cretenses de má fama? Porque “nós também” éramos como eles.

Paulo se inclui, e a ênfase é proposital: o apóstolo que escreve “não difamem ninguém” é o mesmo que confessou a Timóteo que, “no passado, era blasfemo, perseguidor e insolente” (1Tm 1.13). E o que nós éramos, os de fora ainda são. Esse é o argumento que humilha o crente que se esqueceu de onde veio.

A lista tem sete traços e descreve a humanidade sem Deus, não só os falsos mestres. “Insensatos” é a falta de entendimento espiritual; “desobedientes” é a desobediência a Deus, a mesma palavra dita dos falsos mestres em 1.16; “desgarrados” é, ao pé da letra, “sendo enganados”, porque quem vive no pecado é enganado por Satanás, que “cegou o entendimento dos descrentes” (2Co 4.4). “Escravos de todo tipo de paixões e prazeres” descreve quem não manda em si mesmo; “vivendo em maldade e inveja” descreve um modo de vida; e “sendo odiados e odiando-nos uns aos outros” é o resultado: uma sociedade de desconfiança mútua.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele descreve o que o crente era; não serve de régua para decidir se um irmão que tropeça é salvo. E ele não ensina que o homem sem Deus é incapaz de crer. A depravação é total no alcance, porque afetou o entendimento, a vontade, os desejos e as relações, e o homem assim não pode salvar-se nem regenerar-se.

Mas a morte espiritual não é a de um cadáver: é separação da vida de Deus. O Espírito convence o mundo do pecado (Jo 16.8), e quem crê recebe a vida (Jo 1.12). O versículo prepara o contraste: éramos assim, “mas quando se manifestou a bondade de Deus”, Deus agiu.

Aplicação Para Hoje

Para o crente, o versículo é um remédio contra a aspereza. Wiersbe resume a lógica de Paulo numa frase: não sejam críticos demais dos vizinhos pagãos; lembrem-se do que vocês eram antes que Deus os salvasse. O crente que olha o colega que vive para o dinheiro, o parente que não quer saber de igreja ou o vizinho que bebe demais e sente desprezo esqueceu-se do v. 3. Deus não esperou que nós fizéssemos algo decente para nos mostrar bondade; não devemos esperar isso dos de fora para mostrar mansidão.

Para a igreja local, a memória tem um lugar fixo: a Ceia do Senhor. Ali a igreja lembra, semana após semana, a que preço foi lavada. O v. 3 também corrige o modo de evangelizar: não devemos falar de cima para baixo, como quem sempre foi melhor, mas de igual para igual, como quem foi alcançado. E o versículo deixa a frase no ar, esperando o “mas quando” do versículo seguinte, porque a história de todo crente tem esse ponto de virada, em que não fomos nós que melhoramos, mas Deus que interveio.

3. Deus nos salvou pela misericórdia, não por obras (Versículos 4 a 5)

Tito 3:4-5
“Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por todos, ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia. Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo,”

Contexto Histórico e Cultural

“Mas quando” desfaz o quadro do v. 3. Os sete traços não terminam num esforço humano de melhora, mas numa iniciativa de Deus. No grego, os versículos 4 a 7 são uma só frase, e o verbo principal é “salvou”. O que “se manifestou” foi “a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por todos”; o verbo é o mesmo de 2.11, e aponta para a vinda de Cristo. “Amor por todos” traduz philanthrōpia, o amor pela humanidade, palavra que só reaparece no Novo Testamento quando os moradores de Malta, a ilha onde Paulo naufragou, acolhem os náufragos com “singular humanidade” (At 28.2).

A imagem serve: Deus acolheu náufragos que nada podiam oferecer. E as duas palavras, bondade e filantropia, eram justamente as que o mundo grego usava para louvar reis e imperadores como benfeitores. Depois de mandar obedecer aos governantes (v. 1), Paulo diz quem é o verdadeiro Benfeitor. “Deus, nosso Salvador” é aqui o Pai; em v. 6 o mesmo título passa a Jesus Cristo.

O versículo nega e afirma. Nega que a salvação venha “por obras de justiça praticadas por nós”: não só as obras más do v. 3, mas também as obras boas, as que os homens consideram justas. Pesado diante da lei de Deus, o melhor da vida humana só recebe o veredito de culpado, porque “todas as nossas justiças são como trapo da imundícia” (Is 64.6). E afirma a causa: “segundo a sua misericórdia”, eleos, que é a graça aplicada a quem não merece nada. O verbo “salvou” está no passado: a salvação aconteceu, e não se repete.

Quem creu não está em processo de ser aceito; já foi salvo. É preciso dizer o que o versículo não ensina: ele não ensina que as boas obras não importam. A mesma carta as pede em v. 1, v. 8 e v. 14. Em v. 5 as obras estão antes da salvação, como suposta causa, e são negadas; em v. 8 estão depois, como consequência, e são exigidas. Não por obras, mas para as boas obras (Ef 2.8-10).

Depois do porquê, o como: “mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo”. “Lavar” é loutron, o banho, não a bacia; é a purificação completa que acontece uma vez, no instante em que a pessoa crê, e que não se repete. Jesus distinguiu o banho inteiro da lavagem dos pés (Jo 13.10): quem já se banhou está limpo, e o pecado depois da conversão pede a confissão (1Jo 1.9), não um novo nascimento. Esse lavar não é o batismo com água. O texto diz “lavar”, não “batismo”; a salvação é “não por obras”, e um rito seria obra; e no Novo Testamento o batismo vem depois da fé (At 8.36-38).

O batismo do crente retrata depois, em público, a purificação que o Espírito já fez. “Regenerador” é palingenesia, “novo começo”, a vida que Deus dá a quem não a tinha; “renovador” é anakainōsis, a renovação inicial, a criação de uma vida nova. São dois lados de uma só obra do Espírito na conversão: ele limpa e recria. O pano de fundo é a promessa de Ezequiel: “aspergirei água pura sobre vocês” e “porei dentro de vocês um espírito novo” (Ez 36.25-26).

Falta a fé? O versículo não a menciona, porque descreve o que Deus fez; os salvos são chamados “os que creem em Deus” em v. 8. Mas é preciso dizer a ordem: a regeneração é obra só de Deus, pelo Espírito, e acontece no instante em que a pessoa crê.

A fé é o meio, não a causa, e não é obra (Rm 4.5). Não há regeneração antes da fé, como se Deus tivesse de dar vida a alguém para que ele pudesse crer; a vida é dada a quem crê (Jo 20.31). Dean compara a fé a um cano: a água vai de um lugar a outro por ele, mas o cano não é a causa de a água correr; a fé é o cano, e a água é a vida que Deus dá.

Aplicação Para Hoje

Para o crente, a aplicação mais direta é a certeza. Muitos perdem a segurança da salvação porque olham para a própria fé e perguntam se ela foi sincera ou forte o bastante. O versículo desvia o olhar: quem salvou foi Deus, segundo a misericórdia dele; quem lavou e regenerou foi o Espírito. A sua fé foi só o cano por onde essa vida chegou. Se você creu em Cristo, a sua certeza está na obra de Deus, que não se desfaz, e não na qualidade da sua fé.

Para a igreja local, o versículo ordena a pregação e o batismo. A pregação deve dizer que ninguém se salva por frequentar a igreja, dar oferta ou “ser boa pessoa”. A senhora que acha que os seus anos de igreja vão pesar na balança, o rapaz que quer primeiro “ajeitar a vida” para depois crer e o visitante que pergunta o que precisa fazer para ser aceito precisam ouvir o v. 5 inteiro: não por obras, mas segundo a misericórdia.

O batismo, por imersão e depois da fé, anuncia a purificação que o Espírito já operou; quem pede o batismo deve entender isso, e quem o adia não perde a salvação, mas deixa de obedecer. E o lavar é obra do Criador, que faz de quem crê “nova criatura” (2Co 5.17). Esse Espírito que lava foi derramado, e é disso que os versículos seguintes falam.

4. Justificados pela graça, herdeiros da vida eterna (Versículos 6 a 7)

Tito 3:6-7
“que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.”

Contexto Histórico e Cultural

“Derramou” é a linguagem da promessa de Joel, “derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade” (Jl 2.28), que Pedro aplicou a Pentecostes (At 2.17, 33). O Espírito foi derramado uma vez na história, quando o Cristo exaltado o enviou, e cada pessoa que crê recebe esse mesmo Espírito no instante em que crê. “Ricamente” diz a medida: Deus não economiza ao dar o Espírito. E o derramar é “por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador”: é o Filho glorificado quem o derrama (At 2.33). Com isso, os versículos 4 a 6 mostram as três Pessoas agindo na salvação: o Pai, que planeja e salva; o Espírito, que lava e renova; o Filho, por meio de quem o Espírito é dado.

O v. 7 diz o alvo de tudo: “a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros”. “Justificados” é dikaioō, palavra de tribunal: Deus, como juiz, já declarou justo o pecador que creu, com base na obra de Cristo, e não com base no que ele fez. É um ato concluído, feito por outro sobre nós. “Por graça” é a graça “dele”, do Pai; é a mesma frase de Rm 3.24, “justificados gratuitamente, por sua graça”. Note-se o jogo de palavras com o v. 5: as “obras de justiça” que nós fizemos não salvam; a justificação que Deus concede, sim.

“Herdeiros” é klēronomos: o filho que vai receber algo do pai e já ocupa essa posição privilegiada. A herança é a vida eterna, “segundo a esperança”: já é do crente (Jo 5.24) e será recebida em plenitude na vinda de Cristo (2.13). É preciso dizer o que o versículo não ensina.

Aqui os herdeiros são todos os que foram justificados, e a herança é a vida eterna comum a todo crente; o versículo não fala de um galardão que se ganha ou se perde. A distinção entre ser herdeiro de Deus e coerdeiro com Cristo “se com ele sofremos” (Rm 8.17) é real em outros textos, mas Tito 3 trata do que todo justificado recebe. E “esperança”, na Bíblia, não é desejo incerto: é expectativa confiante de algo que vai acontecer, porque a herança está “guardada nos céus” (1Pe 1.4).

Aplicação Para Hoje

Para o crente, o versículo diz em que condição ele vive hoje: declarado justo e já herdeiro. Isso muda o modo de orar, porque ele se dirige ao Pai como filho, e não como réu; muda o modo de enfrentar a morte de um irmão, porque a vida eterna é certa, não provável; e muda o modo de lidar com o próprio fracasso, porque a sentença de justo já foi dada e não depende do desempenho desta semana. O irmão que acorda no domingo se sentindo indigno de ir à igreja precisa ouvir o v. 7: a dignidade não é dele, é dada.

Na igreja local, os que ensinam devem explicar a doutrina da justificação com clareza, porque é ela que dá ao crente segurança em todas as outras doutrinas da salvação: quem sabe que já foi declarado justo entende por que a regeneração não se repete, por que a herança é certa e por que as boas obras vêm depois. Uma igreja que fala muito de santificação e pouco de justificação cria crentes inseguros; uma que fala das duas, na ordem certa, cria crentes gratos. E tudo aponta para Cristo: a justiça que o Pai declara é a dele, o Espírito que renova é derramado por ele, e a herança é estar com ele para sempre. Paulo chama tudo isso de palavra fiel, e é o que vem a seguir.

5. Os que creram se dedicam às boas obras (Versículo 8)

Tito 3:8
“Fiel é esta palavra, e quero que você fale ousadamente a respeito dessas coisas, para que os que creem em Deus se empenhem na prática de boas obras. Estas coisas são excelentes e proveitosas para todas as pessoas.”

Contexto Histórico e Cultural

“Fiel é esta palavra” é a fórmula com que Paulo, nas cartas a Timóteo e a Tito, destaca um resumo da fé. Há cinco desses ditos fiéis nas três cartas, e este é o quinto. Aqui a fórmula aponta para trás, para a frase inteira dos versículos 4 a 7, que é o evangelho resumido. E a palavra fiel vira ordem a Tito: “fale ousadamente”, um verbo que significa “afirmar com insistência” e que só reaparece no Novo Testamento para os falsos mestres de Éfeso, que afirmavam com segurança o que não entendiam (1Tm 1.7). Quem prega a verdade não deve ser menos firme do que os que pregam o erro.

A finalidade é que “os que creem em Deus se empenhem na prática de boas obras”. Aqui aparece a fé que os versículos anteriores não nomearam: os que creram e continuam crendo. E a ordem importa: as boas obras são pedidas a quem já creu, já foi salvo, justificado e feito herdeiro. Elas não são condição para crer nem prova de que se creu. “Se empenhem” traduz proistēmi, “pôr-se à frente”, dedicar-se, o mesmo verbo do presbítero que dirige bem a própria casa (1Tm 3.4).

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não ensina que as boas obras seguem automaticamente a fé, porque, se seguissem, Paulo não precisaria mandar; e não ensina que a falta delas prova que alguém não é salvo. Somos salvos não por boas obras, mas para boas obras, e o crescimento deve vir, o que não quer dizer que virá sozinho. As obras são o fruto esperado, nunca o substituto da fé nem o termômetro da salvação de ninguém.

“Estas coisas são excelentes e proveitosas para todas as pessoas.” “Todas as pessoas” retoma o “todos” do v. 2, onde os de fora estavam em vista: as boas obras dos crentes beneficiam os que não creem. E “proveitosas” prepara o contraste com o versículo seguinte, em que as discussões dos falsos mestres são “inúteis”.

Aplicação Para Hoje

Para o crente, a pergunta é simples: o que posso fazer esta semana que seja excelente e proveitoso para alguém? Boas obras não são só trabalho de igreja. Cuidar dos filhos de uma mãe esgotada para que ela descanse uma tarde, levar o vizinho idoso à consulta, ajudar o colega novo a aprender o serviço sem humilhá-lo: tudo isso é obra tão espiritual quanto entregar um folheto. E o crente deve fazer isso não para garantir a salvação nem para provar a si mesmo que é salvo, mas porque já foi salvo e quer que o Salvador seja visto.

Para a igreja local, o versículo dá a ordem do ensino. Primeiro a palavra fiel, dita com ousadia: Deus salva pela misericórdia. Depois a consequência, dita com a mesma ousadia: os que creram se dedicam às boas obras. Quem só prega a primeira metade deixa a igreja sentada; quem só prega a segunda a deixa insegura.

A liderança da igreja deve ensinar as duas, na ordem de Paulo. E o versículo aponta para Cristo pelo contraste: as obras são “excelentes” porque imitam o Benfeitor que apareceu (v. 4). O que não imita a ele é o que Paulo manda evitar em seguida.

6. Evitar as discussões que não edificam ninguém (Versículo 9)

Tito 3:9
“Evite discussões tolas, genealogias, controvérsias e debates sobre a lei; porque são inúteis e sem valor.”

Contexto Histórico e Cultural

O “mas” implícito põe este versículo contra o anterior: de um lado, o que é excelente e proveitoso; do outro, o que é “inútil e sem valor”. Os quatro itens já apareceram nas cartas a Timóteo e descrevem o mesmo erro de 1.10-16, as “fábulas judaicas”: especulações sem resposta clara na Escritura, “genealogias”, que eram as listas de descendentes dos cinco primeiros livros da Bíblia ampliadas com lendas, contendas e “debates sobre a lei”, a aplicação da Lei de Moisés a quem ela não se destina. O verbo “evite” pede uma atitude contínua de afastamento. Woods explica o versículo dizendo que Paulo manda não se envolver em discussões sobre coisas a respeito das quais a Bíblia não falou com clareza.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Ele não proíbe todo debate teológico: Paulo acabou de mandar Tito afirmar a verdade com ousadia (v. 8) e repreender os que a contradizem (1.9, 13). Quando a verdade está em jogo, a controvérsia é legítima. O que ele proíbe é a discussão que não tem resposta na Escritura, não leva ninguém a crer nem a obedecer e só produz briga.

A pergunta que decide é dupla: a Bíblia fala disso com clareza? E isso ajuda alguém a crer ou a obedecer? Se as duas respostas são não, a discussão é inútil.

Aplicação Para Hoje

Para o crente, o versículo pede que ele reconheça as discussões inúteis do nosso tempo: a data de um evento profético que a Bíblia não revela, a identidade de uma figura do fim dos tempos, a teoria sobre os gigantes de Gênesis 6. São conversas que consomem horas e não convertem ninguém, não consolam ninguém, não corrigem ninguém. O crente que gosta de discutir a Bíblia precisa perguntar se ama a verdade ou se ama a discussão.

Para a igreja local, o versículo protege a reunião. O estudo bíblico que vira debate de hipóteses, e o grupo de mensagens que vira arena de controvérsias deixam de lado as pessoas sinceras que tinham problemas reais e queriam ajuda. Os presbíteros devem trazer a reunião de volta ao texto e à vida. E há um critério cristão para isso: a discussão útil é a que leva a Cristo e à obediência a ele; a inútil é a que gira em torno de si mesma. Mas, quando a discussão deixa de ser só inútil e passa a dividir a igreja, Paulo dá outra instrução.

7. Quem divide é admoestado duas vezes e depois afastado (Versículos 10 a 11)

Tito 3:10-11
“Evite a pessoa que provoca divisões, depois de admoestá-la uma ou duas vezes, pois você sabe que tal pessoa está pervertida, vive pecando e por si mesma está condenada.”

Contexto Histórico e Cultural

“A pessoa que provoca divisões” traduz hairetikos, a palavra de que veio “herege”, mas que no tempo de Paulo significava quem forma partido e divide. Em Creta, a divisão nascia das especulações e disputas do v. 9, de modo que doutrina e conduta andavam juntas; mas o critério do versículo é a conduta divisiva persistente, não toda divergência em ponto secundário. O afastamento só vem “depois de admoestá-la uma ou duas vezes”. Admoestar é instruir com advertência, falando à vontade da pessoa e não só à mente; as duas admoestações são uma tentativa de recuperar, no mesmo caminho de Mt 18.15-17, primeiro em particular e depois com testemunhas, e no mesmo espírito de 2Ts 3.15: “não o tratem como inimigo, mas admoestem-no como irmão”. Há um período de graça antes do afastamento.

Se a pessoa persiste, “evite-a”: recuse-lhe a comunhão e todo espaço de ministério. A razão está no v. 11: ela “está pervertida”, firmada numa posição errada por escolha; “vive pecando”, porque persiste diante das admoestações; e é autokatakritos, “condenada por si mesma”. É preciso dizer o que isso não ensina. “Condenada por si mesma” não é sentença sobre o destino eterno da pessoa, que a igreja não pronuncia; quer dizer que a própria conduta dela, depois das duas admoestações, a pôs do lado de fora e é a base do afastamento.

Quem foi justificado não perde a salvação (vv. 5-7); perde a comunhão enquanto divide. E o versículo não autoriza a caça às heresias. Fee adverte que, na história da igreja, muitas vezes os que saíram à caça de hereges se tornaram eles mesmos os facciosos. A mansidão do v. 2 continua valendo dentro da igreja.

Tito aplicava isso como delegado do apóstolo, e a igreja de hoje não tem essa figura. O que permanece é o procedimento, que na igreja local cabe aos presbíteros, com a igreja: admoestar uma e outra vez, em particular e com mansidão; se a pessoa persiste em dividir, afastá-la da comunhão e do ministério (Rm 16.17), sempre com o alvo da restauração. A decisão é da igreja local e não vincula outras igrejas.

Aplicação Para Hoje

Para o crente, o versículo descreve um tipo que toda igreja conhece: a pessoa obstinada, que se julga certa e vai de irmão em irmão obrigando todos a escolher um lado. É fácil ler esse versículo pensando em outra pessoa. Mas, antes de apontar o irmão que divide, cada crente deve examinar a si mesmo e perguntar se não é ele quem está dividindo: se transformou uma opinião secundária numa bandeira, se anda recrutando irmãos para o seu lado, se já foi advertido e não ouviu. E quem percebe que outro irmão está agindo assim não deve alimentar a divisão nem espalhá-la em conversas; deve levar o caso aos presbíteros e orar pela pessoa, porque o alvo é que ela volte.

Para a igreja local, o versículo pede discernimento em três passos. Distinguir o essencial da opinião: a divindade de Cristo, a salvação pela graça mediante a fé e a autoridade da Escritura não se negociam; uma teoria sobre profecia não justifica partido. Proteger a unidade sem perder a mansidão: quem admoesta deve lembrar que também foi insensato e desobediente (v. 3) e que Deus o salvou por misericórdia (v. 5). E nunca esquecer o alvo: “restaurem essa pessoa com espírito de brandura” (Gl 6.1). O faccioso se afasta por si mesmo; a igreja não deve fechar a porta a quem volta arrependido, porque a porta por onde ela mesma entrou foi a da misericórdia.

E aqui o trecho fecha o círculo que abriu. A igreja de Creta, formada de gente que fora insensata, desobediente e odiosa, é chamada a ser sujeita, mansa, pronta para o bem e firme contra o que divide, e tudo isso por uma só razão: Deus a salvou não por obras, mas pela misericórdia, lavando-a e renovando-a pelo Espírito. Quem ainda não creu precisa saber que essa misericórdia é para quem está no v. 3, e que o único caminho para o v. 5 é crer em Jesus Cristo, nosso Salvador, que morreu e ressuscitou. Quem creu e esqueceu, e por isso ficou áspero com os de fora ou briguento com os de dentro, não perdeu a salvação; perdeu a memória, e a Ceia do Senhor existe para devolvê-la. Lembrar de onde Deus nos tirou quer dizer isto: olhar para o vizinho que não crê e ver nele o que nós éramos, e olhar para a cruz e ver o que Deus fez por nós sem que merecêssemos, para então tratá-lo como fomos tratados.

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Referências Bibliográficas

Andy Woods, Sugar Land Bible Church (slbc.org; spiritandtruth.org), lições citadas: 2 Timóteo: lição 14; Daniel: lição 9; Eclesiologia: lições 47, 48, 51; Gênesis: lição 35; Neocalvinismo: lições 30, 31, 32; Soteriologia: lições 14, 15, 22; e o programa de perguntas da rádio KHCB de 18/05/2023.

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Resumo Visual

Infográfico

Vídeo de Aprofundamento


Exercícios de Fixação

Teste seu conhecimento. Leia a pergunta, tente responder mentalmente e clique para conferir.

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