Série: 1 Timóteo • Estudo Bíblico

1 Timóteo 1.1-11: A Lei é boa quando é usada para levar o pecador ao evangelho

"Sabemos que a lei é boa, se alguém se utiliza dela de modo legítimo, 1 Timóteo 1:8"

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Paulo escreve esta carta depois de sair da primeira prisão em Roma, provavelmente entre os anos 62 e 65. Ele está livre, a caminho da Macedônia, e deixou em Éfeso o colaborador mais próximo que tinha, Timóteo, com uma tarefa difícil: mandar calar homens que ensinavam dentro da própria igreja. Éfeso era a capital da província da Ásia, cidade do templo de Ártemis, da magia e dos livros de encantamento queimados em praça pública (At 19.19).

Paulo passara ali três anos, e ao se despedir dos presbíteros da cidade tinha avisado que, depois da partida dele, surgiriam de entre eles homens falando coisas pervertidas (At 20.29-30). A carta mostra o aviso cumprido. Por isso ela não tem a ação de graças que abre as outras cartas de Paulo: é uma ordem de serviço, escrita a Timóteo para ser ouvida pela igreja inteira, e por isso termina com “a graça esteja com vocês” (6.21), no plural.

Nestes onze versículos, Paulo mostra o que guarda uma igreja do erro. Não é o talento de quem ensina nem a força da personalidade de quem lidera. É a ordem que vem de Deus, o alvo certo do ensino, que é o amor, e o uso certo da Lei, que foi dada para expor o pecador e conduzi-lo ao evangelho da glória de Deus. Quem ensina na igreja fala sob ordens, mira o amor e não confunde a Lei com o evangelho.

1. Apóstolo por ordem de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança (Versículo 1)

1 Timóteo 1:1
“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, por ordem de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança,”

Contexto Histórico e Cultural

As cartas daquele tempo começavam pelo nome de quem escrevia, e Paulo aproveita essa abertura para dizer com que autoridade fala. Ele é “apóstolo”, isto é, enviado com a autoridade de quem o enviou, e o é “por ordem” de Deus. Na maioria das cartas ele escreve “pela vontade de Deus”; aqui escolhe uma palavra de comando, epitagē, a mesma que as inscrições oficiais usavam para dizer “por ordem de” alguma autoridade.

Por que lembrar isso a Timóteo, que o conhecia há vinte anos? Porque a carta seria lida diante da igreja, onde havia quem se afastasse do ensino de Paulo para seguir outros mestres, e porque Timóteo, que era tímido, teria de transmitir ordens duras em nome de alguém. Paulo não fala como dono da igreja; fala como quem recebeu uma ordem e a obedece, e é dessa ordem que Timóteo tira a autoridade para agir.

Chamar Deus Pai de “Salvador” é um traço das cartas a Timóteo e a Tito. A palavra vem do Antigo Testamento, onde Deus é chamado salvador do seu povo, e Timóteo, criado nas Escrituras desde a infância, a entenderia assim. Mas em Éfeso havia outros “salvadores”: a deusa Ártemis, tida como protetora das mulheres no parto, e o imperador, a quem o título era dado nas inscrições. Numa cidade cheia de salvadores, Paulo diz quem salva de fato.

E há um detalhe que afirma, sem discutir, a divindade de Cristo: uma só preposição, “por ordem de”, rege “Deus, nosso Salvador” e “Cristo Jesus, nossa esperança”. A ordem vem do Pai e do Filho juntos, como se fosse uma só, e só quem é Deus pode dar ordem ao lado de Deus. Cristo não é apenas quem traz esperança; ele é a esperança, como em Colossenses, “Cristo em vocês, a esperança da glória” (Cl 1.27). Para um colaborador desanimado numa cidade hostil, saber que Cristo vem buscar os seus era alento para permanecer no posto.

Aplicação Para Hoje

O primeiro ensino do versículo é para quem ensina. Ninguém sobe para ensinar a Palavra por iniciativa própria, por talento ou por força de personalidade; quem ensina fala sob a autoridade do texto que recebeu, e é por esse texto que será medido. Isso vale para quem prega no domingo, para quem dirige o estudo na casa de um irmão e para quem ensina as crianças. A pergunta antes de abrir a boca não é “o que eu acho?”, mas “o que os apóstolos ensinaram, com o peso que eles deram?”.

O segundo ensino é para todos. Vivemos numa cidade cheia de salvadores: o emprego que vai resolver a vida, o candidato que vai salvar o país, o plano de saúde, o curso, a terapia, o relacionamento. Nada disso é mau em si, e nada disso salva.

Paulo chama de Salvador o Deus que deu o seu Filho, e chama Cristo de nossa esperança. A esperança do cristão não é uma expectativa de que as coisas melhorem; é uma pessoa, que morreu por nós, ressuscitou e vem nos buscar. Quem tem essa esperança consegue permanecer onde Deus o pôs, como Timóteo em Éfeso, mesmo quando o lugar é difícil.

2. Timóteo, filho verdadeiro na fé, recebe graça, misericórdia e paz (Versículo 2)

1 Timóteo 1:2
“a Timóteo, verdadeiro filho na fé. Que a graça, a misericórdia e a paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor, estejam com você.”

Contexto Histórico e Cultural

Timóteo era de Listra, filho de mãe judia e pai grego (At 16.1). A fé sem fingimento morava primeiro na avó Loide e na mãe Eunice (2Tm 1.5), e ele conhecia as Escrituras desde criança. Foi provavelmente na primeira viagem de Paulo por aquela região que Timóteo creu em Jesus como o Messias, e por isso Paulo o chama de filho “na fé”: não filho de sangue, mas filho gerado pelo evangelho que Paulo pregou. A palavra traduzida por “verdadeiro”, gnēsios, designava o filho nascido de casamento legítimo, em oposição ao bastardo. Diante de uma igreja em que alguns punham em dúvida a autoridade de Timóteo, Paulo diz que ele é filho legítimo e genuíno, e que por isso a igreja deve ouvi-lo.

Que lugar Timóteo ocupava em Éfeso? Alguns dizem que ele era o líder titular da igreja, mas o texto não diz isso. A igreja de Éfeso já tinha presbíteros, os mesmos homens que Paulo chamara de bispos, encarregados de apascentar a igreja de Deus (At 20.17, 28).

Timóteo foi deixado ali por um tempo, enquanto Paulo não voltava (3.14), para corrigir os que ensinavam errado, agindo com a autoridade que o apóstolo lhe delegou. Ele era representante de Paulo, não o líder permanente da igreja. É um cargo que não tem sucessor hoje, porque não há mais apóstolos; o que permanece é a igreja local cuidada pelos presbíteros, juntos e iguais entre si.

A saudação comum de Paulo é “graça e paz”. Só nas duas cartas a Timóteo ele acrescenta “misericórdia”. Graça é o favor de Deus que ninguém merece; misericórdia é essa graça aplicada a uma pessoa concreta numa situação concreta, a compaixão de Deus por quem sofre; paz é o resultado: a inimizade entre Deus e o homem terminou, e daí nasce a estabilidade de quem vive sem medo. Woods, ao comentar a mesma saudação em 2 Timóteo, resume: misericórdia é não receber o que se merece; justiça é receber o que se merece.

Por que Paulo acrescenta a palavra justamente a Timóteo? Porque quem enfrenta mestres de dentro da igreja, numa cidade hostil e com um temperamento que recua, precisa não só de força, mas de compaixão. Timóteo era tímido, adoecia com frequência (5.23) e era jovem demais para alguns (4.12), e foi a esse homem que Paulo confiou a tarefa mais dura de Éfeso.

Aplicação Para Hoje

Timóteo é um exemplo da graça de Deus na vida de uma pessoa. Deus não escolheu para a tarefa de Éfeso um líder de personalidade forte, mas um homem tímido e doente, e o tornou firme na Palavra. A questão nunca é a personalidade; é a fidelidade ao Senhor e à sua Palavra. O irmão que se acha fraco demais para ensinar, para discipular um jovem ou para confrontar um erro na igreja precisa ouvir isto: Paulo não desejou a Timóteo que ele ficasse mais corajoso; desejou-lhe graça, misericórdia e paz, da parte do Pai e do Filho. É com isso que se enfrenta a tarefa, não com o próprio temperamento.

E a filiação de Timóteo ensina o que é discipular. Ninguém é filho na fé por herança, por cargo nem por diploma de seminário; é filho quem creu no mesmo evangelho e foi formado ao lado de quem o pregou. Paulo não deixou em Éfeso um técnico em teologia, mas um filho, que caminhou com ele por vinte anos. Todos nós podemos ter filhos na fé: um colega de trabalho a quem anunciamos Cristo, um jovem da igreja local que acompanhamos, alguém a quem ensinamos a ler a Bíblia e a quem, um dia, confiamos uma tarefa. Discipular é transmitir a fé que recebemos e formar quem a transmitirá depois.

3. Fique em Éfeso e mande parar o ensino de outra espécie (Versículos 3 a 4)

1 Timóteo 1:3-4
“Quando eu estava de viagem, rumo à Macedônia, pedi a você que ainda permanecesse em Éfeso para admoestar certas pessoas, a fim de que não ensinem outra doutrina, nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim. Essas coisas mais promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé.”

Contexto Histórico e Cultural

Paulo começa com a pressa de quem retoma por escrito uma conversa já tida. Dois verbos dão o tom. A Timóteo ele “pediu”: é o verbo de quem chama para perto e insta, com delicadeza. Aos mestres, Timóteo deve “admoestar”, e a palavra, parangellō, é mais forte do que a tradução sugere: é o termo militar e jurídico da ordem dada por um oficial ou por um juiz.

Timóteo devia pôr-se diante da igreja e, em nome do apóstolo, mandar que certos homens parassem. Paulo não diz quem eram. O anonimato é deliberado e se repete na carta; só no v. 20 dois deles, Himeneu e Alexandre, são nomeados. Mas o texto deixa ver de onde vinham: não eram mestres chegados de fora, como na Galácia, e sim gente de dentro, que já ensinava diante da igreja e queria continuar.

O que eles ensinavam era “outra doutrina”. O verbo, heterodidaskaleō, que Paulo parece ter cunhado, significa “ensinar coisa de outra espécie”, como em Gálatas, onde ele fala de “outro evangelho” que, na verdade, não é outro (Gl 1.6-7). Não era um ensino apenas diferente no estilo; era essencialmente diferente, e por isso errado. O conteúdo eram “fábulas e genealogias sem fim”. Paulo não as descreve, e temos de reconhecer que não se sabe ao certo o que eram.

O que o texto permite dizer é que tinham base judaica: esses mestres queriam ser mestres da lei (v. 7), e Tito, que enfrentava o mesmo tipo de ensino em Creta, fala de “fábulas judaicas” (Tt 1.14). Provavelmente eram histórias que ampliavam as narrativas e as listas de nomes dos patriarcas, com nomes inventados e interpretações alegóricas sem limite, como as que circulavam em livros judaicos daquele tempo. Paulo não se detém no conteúdo, e sim no efeito: essas coisas “mais promovem discussões” do que “o serviço de Deus, na fé”. A palavra traduzida por “serviço”, oikonomia, é a da administração de uma casa: é o modo como Deus governa a sua casa, a igreja, pelo evangelho, e isso se recebe crendo, não especulando. Deus estava fazendo uma obra, e os especuladores não serviam a ela.

Aplicação Para Hoje

Toda igreja local tem de fazer a pergunta de Timóteo diante de qualquer ensino: isto é o que os apóstolos ensinaram, com o peso que eles lhe deram? Há uma norma recebida, o ensino do Novo Testamento, e quem desloca o centro dela já ensina coisa de outra espécie, ainda que repita muitas das suas palavras. O critério não é a originalidade nem o prestígio de quem fala, nem a quantidade de seguidores que tem na internet.

As fábulas e genealogias de hoje têm outra cara, mas o mesmo efeito. São os estudos que viram debates intermináveis sobre datas do fim, sobre códigos escondidos na Bíblia, sobre o significado secreto de cada número e de cada detalhe, enquanto a mensagem do texto fica de lado. É o grupo de mensagens da igreja que ferve de discussão sobre uma curiosidade e esfria quando alguém pede oração. O teste é o de Paulo: o que esse ensino produz?

Se produz mais discussão do que serviço a Deus, errou. E a tarefa de vigiar isso não é de um homem só. Em Éfeso o perigo nascia entre os que ensinavam, e Paulo já tinha dito aos presbíteros que cuidassem de si mesmos e do rebanho (At 20.28). A liderança da igreja guarda o ensino junta, ouvindo o que se prega e corrigindo com mansidão, porque ninguém está acima de ser corrigido pela Palavra.

4. O alvo da ordem é o amor que nasce de coração puro, boa consciência e fé sincera (Versículo 5)

1 Timóteo 1:5
“O objetivo desta admoestação é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia.”

Contexto Histórico e Cultural

“Esta admoestação” é a ordem que Timóteo deve dar aos mestres do v. 3: é a mesma palavra. Paulo diz para onde a ordem aponta. Os especuladores terminam em discussões; a ordem apostólica termina em amor. Timóteo não é enviado para vencer um debate, mas para reconduzir a igreja a amar-se, depois de um ensino que só gerava suspeita e briga. O amor de que Paulo fala não é um sentimento vago; é o amor que Cristo mostrou ao dar-se pela igreja, e que resume a Lei inteira (Rm 13.8-10).

Esse amor tem três fontes, e uma só preposição as une: “de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia”. São três coisas que faltavam justamente aos mestres de Éfeso, de mente corrompida (6.5), consciência cauterizada (4.2) e fé reprovada (2Tm 3.8). O coração puro é o do Salmo 24, o de quem foi lavado pelo perdão e continua confessando o pecado (1Jo 1.9).

A consciência, syneidēsis, é, literalmente, o “saber com”: o juiz interior que acusa quando erramos e aprova quando acertamos. Ela não é a última palavra sobre o certo e o errado, porque pode ser educada ou deformada; a própria carta mostra os dois destinos, a consciência boa que Timóteo deve guardar (v. 19) e a consciência cauterizada dos mestres da apostasia (4.2). A fé “sem hipocrisia” é a fé sem a máscara do ator, a mesma de Loide e Eunice (2Tm 1.5): uma confiança em Deus que está realmente ali.

É preciso dizer o que o versículo não ensina. Coração puro, boa consciência e fé sincera não são prova nem condição de salvação. O texto não fala de como alguém se torna filho de Deus, que é pela fé somente, em Cristo somente, e de uma vez; fala de onde brota o amor na vida de quem já é filho. O crente que fere a consciência não deixa de ser filho de Deus; o que ele perde é o fruto de que o versículo fala, o amor que deveria brotar da sua vida, e a comunhão com o Pai fica abalada até que ele confesse o pecado e volte (1Jo 1.9).

Aplicação Para Hoje

O versículo é um exame para quem ensina e para quem estuda. Dean diz que o alvo do ensino não é conhecimento pelo conhecimento, nem ser o sujeito mais esperto da sala em matéria de Bíblia; é apresentar todos maduros em Cristo. Um estudo bíblico pode ser exato e erudito e, ainda assim, errar o alvo, se o resultado é gente que discute mais e ama menos. Não se trata de reduzir a doutrina para gerar afeto, mas de ensiná-la de modo que o fruto seja amor. Se o tempo que passamos na Palavra não produz em nós amor, consciência limpa e fé sincera, alguma coisa está errada na maneira como a lemos.

E o versículo diz como cuidar das fontes. O coração se mantém puro pela confissão, não pela negação do pecado. A consciência se mantém boa quando não se vive em contradição com o que se sabe: a dívida escondida, a relação errada, a mentira no trabalho ferem a consciência e secam o amor. A fé se mantém sincera quando se confia em Deus de verdade, e não só se repete o que se deve dizer na igreja. E é justamente por isso que o versículo seguinte é tão sério: alguns abandonaram essas fontes, e o resultado apareceu no que ensinavam.

5. Os que erraram o alvo queriam ser mestres da lei sem entendê-la (Versículos 6 a 7)

1 Timóteo 1:6-7
“Algumas pessoas se desviaram destas coisas e se perderam em discussões inúteis, pretendendo passar por mestres da lei, não compreendendo, porém, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais falam com tanta ousadia.”

Contexto Histórico e Cultural

“Destas coisas” são as três fontes do v. 5. O verbo traduzido por “desviaram” é, no grego, astocheō, “errar o alvo”, o verbo do arqueiro que não acerta o ponto para onde devia atirar; e “se perderam” descreve um desvio progressivo, quem vai saindo do caminho aos poucos. O destino é a “discussão inútil”, mataiologia, palavra que só aparece aqui no Novo Testamento e significa, literalmente, fala vazia.

A ironia é dura: os que se recusaram a mirar o amor não ficaram sem alvo; acertaram o vazio. Mounce tira a conclusão: a raiz da heresia não era um problema intelectual, mas moral. Não lhes faltava inteligência; faltavam-lhes coração puro, consciência limpa e fé sem fingimento, e a falta apareceu no ensino.

Eles queriam “passar por mestres da lei”, nomodidaskaloi. O título era público e respeitado: é o mesmo usado para os doutores da Lei sentados diante de Jesus (Lc 5.17) e para Gamaliel no Sinédrio (At 5.34). Esses homens queriam a posição e o prestígio de intérpretes da Lei de Moisés diante da igreja, e falavam “com tanta ousadia”: o verbo é o de quem afirma com insistência, de modo dogmático.

Paulo não censura a firmeza em si; a Tito ele pede exatamente que fale com ousadia das coisas certas (Tt 3.8). O que ele censura é a firmeza de quem não entende nem o que diz nem o assunto de que fala. Quanto mais ignoravam, mais alto afirmavam.

O texto não diz se esses homens eram salvos ou não, nem fala de perda da salvação. Os verbos descrevem o desvio de um alvo antes visado e um ensino que deixou de ser o que era; não dizem nada da vida eterna, que está guardada por quem a dá (Jo 10.28). O que está em jogo é doutrinário e prático: deixaram de ensinar o que antes ensinavam e passaram a falar no vazio.

Aplicação Para Hoje

Crisóstomo, o grande pregador de Constantinopla no século IV, comentou este versículo com a imagem do arqueiro: é preciso perícia para atirar reto, e há muitas coisas que nos tiram do rumo, de modo que devemos olhar para um alvo só. O arqueiro que se distrai com o vento, com a plateia ou com a beleza do próprio arco erra o alvo por mais longe que a flecha voe. A pergunta para quem abre a Bíblia é simples: para onde aponta a nossa flecha? Para o amor que nasce de coração puro, ou para a vontade de ser visto como quem sabe?

Porque o desejo de “passar por mestre” continua vivo. Há quem estude a Bíblia para ter razão nas discussões, para corrigir os outros, para ser reconhecido na igreja local ou nas redes sociais, e a ousadia com que fala cresce na mesma medida da ignorância. A igreja não mede um mestre pela confiança com que ele fala, mas pela saúde que o seu ensino produz; e o irmão que ensina precisa aprender a dizer “não sei” diante do que o texto não diz. O remédio para o desvio não é parar de estudar; é voltar às fontes do v. 5 e a Cristo, que é o alvo de toda a Escritura. Foi por não entender a Lei que esses homens erraram, e é da Lei que Paulo passa a falar.

6. A Lei é boa quando é usada para expor o transgressor (Versículos 8 a 10)

1 Timóteo 1:8-10
“Sabemos que a lei é boa, se alguém se utiliza dela de modo legítimo, tendo em vista que não se promulga lei para quem é justo, mas para os transgressores e rebeldes, para os ímpios e pecadores, para os iníquos e profanos, para os que matam o pai ou a mãe, para os homicidas, para os que praticam a imoralidade, para os que se entregam a práticas homossexuais, para os sequestradores, para os mentirosos, para os que fazem juramento falso e para tudo o que se opõe à sã doutrina,”

Contexto Histórico e Cultural

Paulo abre com “sabemos”: o que vem a seguir é terreno comum, coisa que nem os aspirantes a mestres da lei negariam. Alguns provavelmente o acusavam de ser contra a Lei, e a resposta começa por concordar: a Lei de Moisés é boa, porque vem de Deus e reflete a vontade dele, “santa, justa e boa” (Rm 7.12). A condição joga com a própria palavra: a lei é boa se usada nomimōs, “legitimamente”, isto é, segundo o fim para o qual Deus a deu. E qual é esse fim?

O versículo 9 o diz: a lei não foi promulgada para o justo, mas para o transgressor. A Lei mostra o pecado (Rm 3.20; 7.7), contém o transgressor (Gl 3.19) e conduz a Cristo (Gl 3.24). O uso ilegítimo é fazer dela um caminho para ser justificado ou santificado, ou matéria-prima para especulação, como as fábulas do v. 4.

Quem é o “justo” para quem a lei não foi feita? Não é o cidadão de boa conduta; o v. 11 põe a frase inteira sob a luz do evangelho, e “justo” é a mesma palavra de “justificado”: é quem foi declarado justo pela fé em Cristo. Para ele a Lei não foi promulgada. É o que Paulo ensina em outras cartas: “vocês não estão debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14); “vocês morreram para a lei” (Rm 7.4); “se são guiados pelo Espírito, vocês não estão debaixo da lei” (Gl 5.18). O crente da igreja não está debaixo da Lei de Moisés, nem para ser justificado nem como regra de vida.

Há quem queira manter a parte moral da Lei como código do cristão, mas a Lei é uma unidade, dada a Israel numa aliança, e Paulo não a devolve ao crente em pedaços. O que governa o crente é “a lei de Cristo” (Gl 6.2), o mandamento novo de amar como ele amou (Jo 13.34), cumprido no poder do Espírito, segundo o ensino do Novo Testamento. Isso não é viver sem mandamentos: o Novo Testamento está cheio deles. Legalismo não é obedecer; legalismo é pensar que a obediência compra a salvação, a bênção ou a aprovação de Deus.

A lista dos vv. 9-10 segue os Dez Mandamentos. Depois de três pares gerais, que descrevem quem vive contra Deus, vêm os crimes contra o próximo, do quinto ao nono mandamento: os que golpeiam o pai e a mãe, os homicidas, os que vivem em imoralidade sexual e os que praticam o ato homossexual, os sequestradores, isto é, os que raptam e vendem pessoas, crime que a Lei punia com a morte (Êx 21.16), e os mentirosos e perjuros. Dois pontos pedem cuidado.

Primeiro, a palavra que a NAA traduz por “práticas homossexuais”, arsenokoitēs, designa o ato, não a inclinação; Paulo a formou a partir de Lv 18.22. É pecado nomeado, mas não singularizado: está na lista ao lado da mentira e do perjúrio, e ninguém lê a lista de fora. Segundo, a lista não é um retrato dos mestres de Éfeso; é uma amostra do tipo de gente para quem a Lei existe, e termina em “tudo o que se opõe à sã doutrina”.

Aplicação Para Hoje

A Lei é boa, e a igreja local deve usá-la para o que ela foi dada. Na evangelização, os mandamentos expõem a necessidade: o homem que se acha bom descobre, diante de “não furtarás” e “não dirás falso testemunho”, que não é. Mas a Lei não é escada para chegar a Deus nem régua para medir a espiritualidade dos irmãos. O cristão que vive com medo de não estar à altura, ou que mede os outros por um código, está usando a Lei para o que ela não foi dada. Obedecemos porque já fomos abençoados, não para ser abençoados; e a graça também não é licença (Rm 6.1-2).

A lista também ensina a falar de pecado. Paulo chama cada coisa pelo nome, sem hostilidade e sem relativizar, e a esperança do texto está em outra carta, logo depois de uma lista parecida: “alguns de vocês eram assim. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo” (1Co 6.11). Nenhum pecado desta lista impede a salvação de quem crê em Cristo, e nenhuma ausência deles salva alguém.

A igreja acolhe quem luta contra o pecado sexual, diz a verdade sobre ele e anuncia o evangelho a quem o pratica. E a lista alcança o nosso tempo com precisão: o tráfico de pessoas e o trabalho em condição de escravidão, que ainda se descobre em fazendas e oficinas do Brasil, estão ali, ao lado da mentira que contamos no trabalho e do juramento falso diante de um juiz. A Lei expõe a todos. O que ela não faz é curar, e é disso que o versículo seguinte trata.

7. Segundo o evangelho da glória do Deus bendito, confiado a Paulo (Versículo 11)

1 Timóteo 1:11
“segundo o evangelho da glória do Deus bendito, do qual fui encarregado.”

Contexto Histórico e Cultural

O padrão da “sã doutrina” do v. 10 é o evangelho. “Sã”, hygiainousa, é palavra de médico, a de quem tem saúde: ensino saudável, que produz vidas estáveis, em contraste com o ensino doente dos mestres de Éfeso, que têm “um desejo doentio por discussões” (6.4) e cuja palavra “corrói como câncer” (2Tm 2.17).

“Evangelho da glória” não quer dizer “evangelho glorioso”; diz o conteúdo do evangelho: ele revela a glória de Deus, isto é, quem Deus é. Paulo diz em outra carta onde essa glória se vê: “a glória de Deus na face de Jesus Cristo” (2Co 4.6). “Bendito” é dito de Deus só aqui e em 6.15, e significa feliz em si mesmo, a fonte de toda a felicidade. Wiersbe junta as duas pontas do trecho numa frase: a lei sem o evangelho é diagnóstico sem remédio, e o evangelho sem a lei é boa notícia para quem não acha que precisa dela. A Lei expõe a doença; o evangelho mostra a glória do Deus que salva.

E esse evangelho foi “confiado” a Paulo. A palavra é a de um depósito entregue a alguém para guardar. Quem confia é Deus; Paulo não é dono do evangelho, nem os mestres de Éfeso, nem nós. É um depósito a ser guardado e passado adiante: “transmita a homens fiéis, idôneos para instruir a outros” (2Tm 2.2). E a palavra “encarregado” leva Paulo, no versículo seguinte, ao seu próprio testemunho: o homem a quem o evangelho foi confiado era, antes, blasfemo e perseguidor (v. 13).

Aplicação Para Hoje

O evangelho não se inventa nem se melhora; recebe-se, vive-se e passa-se adiante. Quem ensina na igreja local é encarregado de um depósito que não lhe pertence, e “o que se requer destes encarregados é que cada um deles seja encontrado fiel” (1Co 4.2). Numa igreja em que vários irmãos ensinam e os presbíteros respondem juntos pelo ensino, essa mordomia pesa sobre todos. A medida é sempre a mesma: o evangelho confiado aos apóstolos, que mostra a glória de Deus na face de Cristo.

A ordem vem de Deus, nosso Salvador, e de Cristo, nossa esperança; o alvo da ordem é o amor; a Lei é boa quando expõe o pecador; e o pecador exposto encontra, no evangelho, não um código mais exigente, mas a glória de Deus que salva. Foi assim com Paulo, o maior dos pecadores, que recebeu misericórdia. É assim com cada um de nós: a Lei nos mostrou que não tínhamos como nos salvar, e o evangelho nos mostrou Cristo, que morreu pelos ímpios e pecadores da lista e ressuscitou para a nossa justificação. Quem recebeu esse evangelho não o guarda para si; ensina-o sob ordens, com o alvo certo, e o entrega a quem vai ensiná-lo depois.

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Referências Bibliográficas

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• Sugar Land Bible Church. spiritandtruth.org.

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